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Transporte gratuito em Estocolmo

July 21, 2009 por: camarada_d categoria: artigos

Ulf Slotte (Planka.Nu)

Estocolmo é a capital da Suécia, país situado no norte da Europa. Vive em Estocolmo 1.5 milhão de suecos, grande parte dos nove milhões de habitantes do país. Para compreender a situação do transporte público em Estocolmo é preciso entender aspectos fundamentais sobre essa cidade.

Historicamente, Estocolmo recebeu um alto número de imigrantes vindos do campo, especialmente em períodos conturbados da economia. Por este motivo, Estocolmo enfrentou diversos problemas de habitação. Nos anos 1950, o Partido Social Democrata, que detinha o poder, decidiu fazer algo para resolver definitivamente esta questão. Eles iniciaram a construção de um sistema de metrô em Estocolmo e criaram o “programa do milhão”: em dez anos, um milhão de apartamentos e casas foram supostamente construídos na Suécia.

Esses projetos criaram a estrutura que Estocolmo tem hoje: o antigo Centro, os antigos subúrbios próximos ao Centro e os conjuntos habitacionais do programa do milhão, nos subúrbios mais afastados. Essas áreas passaram a ser ligadas pelo metrô e por linhas de trem. Grande parte dos subúrbios não tem ligações diretas entre si, são pequenas ilhas ao longo das linhas de metrô, o que dá uma grande importância para este meio de transporte na vida da maioria das pessoas em Estocolmo.

Estocolmo é um hoje uma cidade segregada. O centro da cidade é rico e as áreas do “programa do milhão” são pobres. A maior parte dos cinemas, bares, clubes e locais de trabalho ficam no Centro. E como as pessoas mais pobres de Estocolmo são as que vivem nas áreas mais distantes, elas são justamente as que mais necessitam do metrô para se locomoverem ao trabalho, para visitar suas famílias, para ter acesso aos locais de lazer etc.

O problema é que o transporte em Estocolmo é caro. No entanto há, e sempre houve, uma alternativa. Simplesmente não pagar. Andar de graça pelos meios de transporte é uma saída para muitas pessoas conseguirem ir para o trabalho e sair de seu bairro. E é também um jeito de economizar dinheiro para comprar outras coisas, como roupas para os filhos, ir ao cinema. Para ter uma vida melhor.

Em 2001, os free riders começaram a se organizar. A iniciativa partiu da SUF [sigla em sueco para Organização da Juventude Anarco-sindicalista], que criou a campanha planka.nu [algo como “viagem grátis já” (1), nome que serviu também para o endereço da campanha pela internet]. Após a sua criação, a campanha tomou vida própria, para além da SUF, e existe também em Gotemburgo, Östergötland, no sul de Estocolmo, e até mesmo em Helsinki, na Finlândia.

A idéia central do planka.nu é organizar uma forma simples de resistência e estimular usuários do sistema de transporte a não pagar a passagem, a andar de graça nas linhas de metrô. Entre 6 e 10% dos usuários já andavam de graça, ou seja, a prática de utilizar o transporte coletivo de graça já existia. Tudo o que tivemos que fazer foi organizar a ação. Criamos um fundo para os free riders, o p-kassan. Se você for um membro do p-kassan, o fundo pagará sua multa quando for pego pelos guardas que cobram as passagens. Para fazer parte do fundo, o free rider deve pagar 100SEK por mês [o equivalente a R$ 27,00]. Para comprar um bilhete mensal de metrô o usuário paga hoje 700SEK [R$ 193,00], e a multa, caso você seja pego andando de graça, é de 1200SEK [R$ 330,00]. Fazer parte do fundo é uma alternativa barata para quem não quiser pagar as passagens. Como membro, você não precisa se preocupar com as multas que surgirem.

A razão para as ações do planka.nu são os altos preços das passagens, o fato de muitas pessoas que necessitam do transporte não poderem pagar por este serviço. A nossa exigência é por um transporte público gratuito para todas as pessoas. Nós apresentamos diferentes idéias para financiar o transporte gratuito. Uma possibilidade seria o aumento dos impostos sobre renda, o que faria com que ricos pagassem mais e pobres menos. Uma outra alternativa seria aumentar os impostos pagos por empresas, já que o transporte público é necessário para transportar os trabalhadores aos locais de trabalho. Mas transporte público gratuito não é apenas uma forma de redistribuir a riqueza dos ricos para os pobres. É também uma forma de reduzir o tráfego dos automóveis, de melhorar o ambiente na cidade.

A campanha se mostrou bem sucedida. Mais de cinco mil pessoas em Estocolmo foram ou são membros do fundo, e o número de pessoas que andam sem pagar aumentou. Mais importante que isso: a idéia de um “transporte público de verdade” entrou na pauta de discussão da mídia. A maior parte das pessoas em Estocolmo conhece a campanha e os políticos não podem mais ignorar a prática de andar de graça e as idéias sobre o financiamento do transporte público.

A maior razão para o sucesso do planka.nu é o fato de reforçarmos uma prática já difundida entre as pessoas. A principal crítica que recebemos é que “pegar metrô de graça é moralmente inaceitável”, mas esta é uma questão que não estamos muito interessados em discutir. O fato de muitas pessoas andarem de graça, arriscando-se nas catracas e no controle dos guardas, é razão suficiente para demonstrar que algo está errado na forma como o transporte é administrado hoje. Nós queremos que os ricos paguem e não estamos muito preocupados com o que eles pensam sobre isso. Nosso foco é, e sempre foi, as pessoas que trabalham e usam o transporte público. Nós atuamos na base, para organizar pessoas em sua vida cotidiana. Encontrando pessoas no metrô, participando de reuniões com sindicatos, organizando trabalhadores do transporte público, organizando ações e o p-kassan [o fundo].  Estes são os nossos métodos para atingir os nossos objetivos.

Levantamos recursos para manter um site [http://planka.nu], com muitas informações sobre Transporte e notícias atualizadas; um banco de dados, que organiza o p-kassan [membros, pagamentos, multas] e gera estatísticas de estações de metrô onde mais pessoas foram pegas pelo controle, de modo que as pessoas evitem estas estações, entre outras estatísticas; mantemos um escritório de administração da campanha; e um telefone móvel onde qualquer pessoa pode nos localizar a qualquer momento.

Como nosso trabalho com free riding e o fundo p-kassan está funcionando como queremos, começamos a trabalhar também em outros projetos. Um deles é o ombudsman do transporte público, que ajuda usuários a resolver problemas com o sistema de Transporte. Principalmente em questões judiciais, como as ameaças e agressões dos fiscais/guardas às pessoas que não tenham pago a passagem. Os fiscais cooperam com a polícia, perseguindo pessoas “ilegais” (2) [estrangeiros sem passaporte]. Quando alguém sem documentos que não tenha pago a passagem é pego pelos fiscais, os mesmos chamam a polícia, que prende a pessoa e a envia para seu país natal, onde será presa. Uma forma de evitar esta situação é comprar passagens para essas pessoas. Com a verba levantada pelo p-kassan, o planka.nu está cooperando com algumas organizações no apoio às pessoas sem passaporte, comprando passagens para que elas tenham uma vida mais segura na Suécia.

Temos hoje um governo de direita tanto em Estocolmo como na Suécia, que está aumentando os preços das passagens. Nós provavelmente não teremos um transporte público de verdade por aqui tão cedo, mas continuamos a lutar por aquilo que achamos estar certo. E obtivemos sucesso ao colocar em pauta esta importante idéia sobre justiça no transporte público.

NOTAS

(1) O Movimento Passe Livre (MPL) utiliza uma expressão parecida: “Passe livre já”. [N. da E.].

(2) Ver Florian Schneider/kein mensch ist illegal [nenhuma pessoa é ilegal], “New rules of the new actonomy 3.0”, em Okwui Enwezor et al. [ed.], Democracy unrealized. Ostfildern-Rui: Hatje Kantz, 2002. [N. da E.].

Artigo retirado da revista Urbânia 3 (São Paulo: Editora Pressa, 2008). É livre a reprodução não-comercial desde que autor e fonte sejam citados e esta nota incluída. http://arte-esferapublica.org

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