TarifaZero.org

uma cidade só existe para quem pode se movimentar por ela

Siga-nos no Twitter Acesse o nosso Flickr Siga-nos no Facebook Acesso o nosso Vimeo Feed


Pensar a luta espacialmente

September 06, 2009 por: grazi categoria: grazi, vídeos

Olá, pessoas! Esta é a primeira entrada deste blog dentro do tarifazero.org. Sejam todos e todas super bem-vindos:

Essa aí é uma das ações que tive a alegria de registrar, durante a histórica luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 24 de novembro de 2006[1]. Naquele dia vários ônibus tiveram suas portas traseiras abertas, para a população do Terminal Parque Dom Pedro poder voltar para casa sem ter que pagar. Ainda assim, muita gente preferiu entrar pela porta da frente do ônibus e passar pela catraca. A polícia entrou no terminal e atirou bombas e balas de borracha nos manifestantes, deixando alguns feridos gravemente.

Quando a gente fala sobre transporte gratuito (ou “passe livre”, ou “tarifa zero” – é tudo a mesma coisa), precisa ter em mente que essa luta implica a quebra de uma série de paradigmas. As pessoas estão tão acostumadas com a existência de uma catraca dentro do ônibus e com as catracas na entrada do metrô que acham normal pagar por um serviço supostamente público. Achamos normal que mais de 37 milhões de brasileiros sejam excluídos do direito ao transporte porque não podem pagar pelas tarifas. Consequentemente, é normal que essas pessoas sejam excluídas de outros serviços “públicos”, porque muitas vezes não é possível chegar até uma escola ou até um hospital a pé. A prefeitura acha normal ceder o controle sobre as linhas de ônibus para os empresários donos dos ônibus. Prefeitura e empresários, juntos, acham normal aumentar as tarifas todos os anos, aumentando também a exclusão de pessoas do sistema de transporte “público”. Os 10% mais ricos acham normal concentrar 75% da renda brasileira. Nós achamos normal um banco lucrar 1,105 bilhão de euros em um único ano e fazer  árvore de natal gigante (leia-se propaganda) com renúncia fiscal, ao invés de pagar mais impostos. O Jockey Clube de São Paulo, um dos símbolos da elite endinheirada, acha normal não pagar IPTU para a prefeitura, acumulando hoje uma dívida de 146,6 milhões de reais.

E se vem alguém dizer que nada disso é normal, que as catracas precisam ser retiradas, que ônibus e metrô precisam ser gratuitos, que a distribuição de renda/uma reforma na cobrança de impostos é necessária (de modo que os ricos sejam mais taxados, que os bancos sejam mais taxados, para que esses impostos subsidiem os custos do transporte coletivo), que o controle sobre as linhas de ônibus deve ser municipalizado e gerido com participação popular, essa pessoa será tida como louca. E talvez seja essa loucura toda que faça da luta do Movimento Passe Livre uma luta revolucionária. Como disse certa vez o Lúcio Gregori: “a tarifa zero muda tudo, muda tudo”.

O que eu gostaria de pensar com vocês neste blog é esse “muda tudo”. O que muda na cidade se os ônibus passarem a ser gratuitos?

É claro que junto com a gratuidade precisa haver um aumento na frota de ônibus, ou então vocês logo vão imaginar vários ônibus lotados e aí não será muito diferente da situação atual! Além disso, aqui seria legal a gente se permitir imaginar tudo o que a gente quiser imaginar. Como podem funcionar as linhas de ônibus? Atualmente a maioria das linhas seguem trajetos lineares, será que seria mais interessante haver mais linhas circulares, passando mais dentro dos bairros, deixando as pessoas mais perto de onde querem ir? Que percurso você gostaria de fazer de ônibus na sua cidade? Gostaria de parar um pouco para encontrar alguém, antes de seguir até seu destino final? Gostaria de não ter destino certo, como alguém que anda a pé e pode sempre variar seu percurso, se perder um pouco, encontrar coisas interessantes pelo caminho? De ir bem longe, conhecer outros cantos da cidade? E os próprios ônibus, podem ser diferentes? Como seriam as portas de entrada e de saída? E se tivermos ônibus menores, porém em grande quantidade, diminuindo o tempo de espera nos pontos de ônibus? E como você gostaria que fossem os pontos de ônibus?

Como alertou Henri Lefebvre, no livro Direito à cidade, nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática[2]. Ainda assim, para quebrar um paradigma tão enraizado como é a lógica privatista do transporte “público” na nossa sociedade, é necessário todo um novo imaginário. Junto com a tarifa zero pode vir uma cidade inteiramente transformada. Precisamos recuperar as idéias de uma cidade socialista e, juntos, pensá-la espacialmente. Como diz o David Harvey, podemos “agir como arquitetos de nosso próprio destino em vez de como ‘impotentes marionetes’ dos mundos sociais e imaginativos que habitamos”[3].

O vídeo de abertura deste blog pode ser uma pista da produção de um espaço socialista. E está aí para lembrar que somos capazes de gerir as coisas por nós mesmos, com autonomia. É possível fazer com as próprias mãos o que achamos que deve ser feito.

Somos muitos mais do que eles.

notas

[1] Veja aqui mais informações sobre esse ato. Naquele ano não conseguimos revogar o aumento da tarifa, mas as ruas do centro de São Paulo foram ocupadas por aproximadamente três semanas e a gratuidade no transporte coletivo foi novamente pautada na sociedade paulistana, fazendo com que nas eleições de 2008 alguns candidatos mencionassem a tarifa zero no transporte coletivo (Ivan Valente-PSOL e, surpreendentemente, Gilberto Kassab-DEM). O prefeito Gilberto Kassab havia sofrido uma série de escrachos durante os protestos de 2006 e, provavelmente traumatizado, teve como principal bandeira popular de reeleição o congelamento da tarifa de ônibus por dois anos, com propaganda na TV que mostrava um bolo de aniversário comemorando um ano sem aumento. Dentre esses escrachos destacou-se o protesto na inaguração da reforma da Rua Oscar Freire, rua de comércio de luxo que recebeu 4,5 milhões de reais de verbas públicas para obras como instalação de fiação subterrânea e calçada nova. Os cartazes dos manifestantes apontavam a Oscar Freire como “símbolo da desigualdade social” e lembravam que “os trabalhadores que reformaram essa rua não podem pagar o ônibus”.

[2] Henri Lefebvre. O direito à cidade. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

[3] David Harvey. Espaços de esperança. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

2 Comments to “Pensar a luta espacialmente”


  1. xavier says:

    Olá,

    Penso que a proposta colocada por esse blog – o que “muda tudo” com a Tarifa Zero – pode contribuir efetivamente para a mudança de paradigma na forma de organização e circulação na cidade.

    Nesse sentido, gostaria de sugerir que uma das questões importantes a serem pensadas coletivamente por nós seria a disposição interna dos ônibus – afinal, mais do que conforto, um melhor aproveitando de seu espaço interno concretiza uma melhoria na qualidade de vida e dignidade dos usuários.

    Quem sabe, com as catracas sendo retiradas – e com as tarifas deixando de existir – não podemos pensar num modelo de transportes que contemple melhor às nossas necessidades – como a implementação de ônibus circulares nos bairros, outro exemplo interessante.

    Enfim, são caminhos – que podem ser percorridos experimentalmente, já que a proposta de gratuidade fornece meios para a mobilidade, inclusive, das idéias.

    Abraços e parabéns pelo belo texto.

    1
  2. marcos paulo says:

    penso que movimentos sociais e principalmente de nós jovens estudantes, tem que se articular em todo Brasil… não basta ficar pensando somente em São Paulo, Nós aqui em Teresina… temos que nos articular, e fazer deste movimento um clamor público de ordem generalizada… aqui, em um dos mais intensos protestos contra o aumento da passagem, forçamos, através de ônibus quebrados e queimados, suspender por 60 dias o aumento,… estamos aguardando a decisão do prefeito… mas já estamos prevendo outro ato de mesma, ou maior proporção aqui na capital do Estado do Piaui .. link dos prostestos a seguir, confira http://www.youtube.com/watch?v=3yX4cnHunqE

    2

2 Trackbacks/Pingbacks

  1. Urbanidade » Blog Archive » Lançado o blog Tarifa Zero 14 09 09
  2. Urbanidade » Blog Archive » Lançado o blog Tarifa Zero 21 02 11

comente: