arquivo de October, 2009
Entre catracas e correntes

Coletivo Passa Palavra
São Paulo, 26 de outubro.
Integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo, e apoiadores, realizaram uma manifestação e se acorrentaram dentro da Secretaria de Transportes na manhã desta segunda-feira. (more…)
Militantes do MPL protestam contra aumento nas tarifas e pela tarifa zero dentro da Secretaria de Transportes
Ouça entrevista com Lucas Legume, do MPL SP:
Militantes do Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo se acorrentaram dentro da Secretaria de Transportes, na manhã desta segunda-feira. Os militantes do MPL tinham como objetivo repudiar o aumento nas tarifas de ônibus que está sendo anunciado para janeiro de 2010, além de defender a criação de um Fundo de Transporte, a municipalização e a tarifa zero e para questionar o privilégio do poder público ao automóvel, como a construção da Nova Marginal. (more…)
Notícias
Rondonópolis – Movimento discute passe livre com secretário
Conforme Robson Arruda, o prefeito na reunião de domingo acatou uma série de reivindicações do movimento quanto ao passe livre estudantil, após o protesto feito pelos estudantes da cidade, na semana passada. Entre as garantias do poder público, segundo o representante, está a inclusão do ensino técnico e profissionalizante da Secitec, desde que tenha carga horária de 800 horas; inclusão do meio passe junto ao passe livre; acréscimo de mais 30 minutos para embarque e de mais 30 minutos no retorno das aulas; e direito de o aluno usar três linhas diferentes – não duas no itinerário. [leia mais]
Amigos, amigos, negócios à parte. Ou, amigos, amigos e negócios sobretudo
Vejo as dúvidas e perguntas de André Caon Lima sobre tarifa zero em Hasselt e os comentários de Affonso ao texto do Xavier “Ônibus aumentarão em 2010 – Pra Quê?”.
Como disse em vários encontros com o pessoal do MPL, sempre que se fala em tarifa zero devemos nos preparar para receber uma coleção de frases feitas, ou ditos chamados de populares, para questionar, contestar ou mesmo desqualificar a proposta.
Almoço de graça não existe e queijo de graça só na ratoeira, o que você dá é o que você recebe (citado como what you give is what you get), foram apresentados nesses questionamentos. Eu acrescentaria, por exemplo, o que é de graça não se valoriza; se é ruim pago, imagina de graça e tantos outros ditos que vão na mesma direção.
Na realidade esses ditos, resumem um pensamento fundamentado numa determinada forma de organização econômico-social. E são difundidos de geração em geração para ajudar a cimentar esse modo de sociedade.
No fundo esses ditos escondem frequentemente, uma total ausência de solidariedade.
Por isso, Paul Singer, que citei anteriormente, ao falar do programa de economia solidária propõe o amigos, amigos, e negócios sobretudo, do título acima, para sintetizar a proposta do programa, mostrando o quanto ele não é descolado da realidade e da importância dos negócios. Só que num outro modo de sociedade.
Não consigo, porém, falar dessas coisas com muita seriedade, dado o seu humorismo intrínseco.
Eu diria ao Affonso que se um dia passar fome (o que não lhe desejo em hipótese alguma) e alguém lhe oferecer um sanduíche de queijo será uma pena, pois a seguir o seu próprio raciocínio… morrerá de fome!
Envie suas propostas para o plano municipal de transporte de São Paulo!
Clique aqui e preencha o formulário com as suas propostas para o transporte e a mobilidade urbana da cidade de São Paulo. Prazo: 21/10, esta quarta-feira.
Nilda
No contexto do último Dia Mundial Sem Carro e do debate em torno do Plano de Circulação Viária e Transportes para a cidade de São Paulo alguns ambientalistas afirmaram que o transporte coletivo não é a melhor solução para que haja mobilidade urbana, pois é movido a motor e, assim, também é poluente[1], diferente de meios mais “sustentáveis”, como simplesmente andar a pé ou usar uma bicicleta. Para comentar esta questão vou contar uma história real[2].
Nilda, 42 anos, moradora do Jardim Miriam, trabalha como empregada doméstica desde que chegou a São Paulo, aos 22 anos, vindo de Serra Talhada (PE). Nilda acorda às 6h, arruma a casa, dá café da manhã para as filhas Leticia e Juliana. Às 6h40 leva Juliana, a mais nova, para a escola. As duas caminham a pé por 20 minutos. Às 7h Nilda caminha mais 10 minutos, passando por uma subida leve, para pegar o ônibus Princesa Isabel e em aproximadamente 50 minutos chega ao Campo Belo. Ali ela caminha mais 15 minutos do ponto até a casa onde trabalha. Antes, quando morava no Jardim Noronha, o trajeto era ainda mais puxado: caminhava de sua casa até o ponto por 20 minutos, passando por ladeiras pesadas e não asfaltadas, pegava uma perua por 20 minutos até o Terminal Varginha e ali o ônibus Largo São Francisco por mais 1h40 até finalmente chegar ao Campo Belo, com mais 15 minutos de caminhada. No trabalho, Nilda varre, passa pano, lava louça, lava roupa, limpa banheiros, arruma todos os cômodos, cuida de duas cachorras, rega plantas e cozinha para cinco pessoas. No final do dia, mais ou menos 17h30-18h, Nilda caminha mais 15 minutos até o ponto e leva mais ou menos uma hora para voltar para seu bairro.
Será que propor para a Nilda usar bicicleta no lugar do ônibus não seria tornar a sua rotina ainda mais pesada? Muitos trabalhadores usam bicicleta para trajetos como os da Nilda, porque não podem pagar pela tarifa do ônibus. Mas se houvesse transporte coletivo gratuito e de qualidade o que será que esses trabalhadores escolheriam? Precisamos lembrar que essas pessoas não usam bicicletas de marcha, nem bicicletas dobráveis, e que mesmo as bicicletas mais simples são um custo bastante alto para quem vive de 0 a 3 salários mínimos.
A realidade social da Nilda é a de uma pessoa que sequer aprendeu a andar de bicicleta. Nunca foi ao cinema. Nunca foi a um show de música. Pelo o que ela se lembra, esteve três vezes no Parque do Ibirapuera. Para a sua filha operar das amígdalas ela foi algumas vezes até o Hospital Menino Jesus, na Bela Vista, pois é o único hospital público com bons especialistas nesse tratamento. Ela e Juliana levavam quatro horas para ir e voltar de lá, usando uma perua e depois o ônibus Parque Dom Pedro: “Tinha que sair bem cedinho de casa”. Fora esse episódio ela praticamente não se lembra de usar serviços públicos de Saúde. Diz que quase não sai do bairro, por causa do preço dos ônibus, vai mais na casa das vizinhas mesmo. Raras vezes ela, Nicinha e Zelda vão até o forró Guarapirão. Pegam o ônibus Sto. Amaro, descem no Largo Treze (30min) e de lá pegam qualquer perua que passe na estrada de Guarapiranga, depois da ponte do Socorro (40min + 10min caminhada). Nos feriados e finais de semana a Nilda começou a ver mais a família, por causa da ampliação do Bilhete Único para 8 horas. Para ver Lola, sua cunhada, ela pega uma condução até o Shopping Interlagos e depois outra (com os tempos de espera do ônibus leva ao menos 1h30). Elas calculam o tempo de ficar juntas para Nilda não perder a gratuidade na volta para casa. “Passear é muito difícil”, desabafa.
Entendemos que a solução ideal para o caso da Nilda (e para o Plano de Circulação Viária e Transportes) seria articular o uso de um meio de transporte “sustentável” (como suas pernas ou a bicicleta até pontos de ônibus/estações de metrô) com transporte coletivo gratuito, de qualidade e movido da forma mais ecológica que a ciência puder inventar. A mobilidade sustentável é totalmente desejável, desde que junto com ela seja exercido o direito que a Nilda e todas as pessoas atualmente excluídas têm de se movimentar pela cidade.
[1] O que bem poucos sabem é que um ônibus emite 4,5 vezes menos CO2 por km que um automóvel particular, apesar de ter capacidade para transportar um número incrivelmente maior de passageiros.
[2] Texto produzido para o jornal PASSE nº3, que pode ser baixado no CMI, no site do MPL São Paulo e aqui no TarifaZero.org .
Conteúdo relacionado:
Muito além das ciclovias [menciona o exemplo da cidade de Portland, onde as bicicletas são aceitas no trens, bondes e até nos ônibus municipais, que possuem racks para levar duas bicicletas na frente]
Meia hora a menos [sobre a integração bicicleta-ônibus graças à instalação de bicicletários]
Ventos do sul [sobre a integração bicicleta-metrô em Porto Alegre]
Prezado Paulo César:
Li seu artigo Quem tem medo da Tarifa Zero? e não consegui postar o comentário abaixo.
Por isso ele segue aqui.
Parodiando uma vez mais Herivelto Martins em Que Rei Sou Eu?, pergunto: Que Conselho das Cidades É Esse?
Pobre de uma nação e seu povo que tem um Conselho assim.
Se, de fato, a retirada do assunto “gratuidade dos transportes” se deu por algo como “a Tarifa Zero pode levar pessoas que fazem pequenos deslocamentos a pé ou de bicicleta a fazê-los de ônibus, onerando o sistema com novas e desnecessárias viagens” é de pasmar. Até os elementos do reino mineral sabem que um sistema de ônibus, gratuito ou não, é dimensionado para as horas de pico, o que acaba determinando o seu custo. No entre pico a frota é menor. Ponto.
Recomendo aos zelosos conselheiros que leiam a monografia publicada pela Fundação João Pinheiro, de autoria do prof. João Luís da Silva , que faz um estudo econométrico/matemático sobre a tarifa zero e conclui que ela torna o sistema mais eficiente e, proporcionalmente, mais barato que o sistema tarifado.
Mas como não dá para levar a sério tanto disparate, essas considerações do Conselho das Cidades me fazem lembrar uma crônica que li. Nela, o autor sonhava que aqueles que têm proposições que infernizam a vida de milhões de pessoas, deveriam passar o resto de suas vidas às voltas com elas. Caso, por exemplo, do atendimento automático de telefone que fica tocando um musiqueta com propaganda e aí, a linha cai. Ou os saquinhos de supermercados que são dificílimos de desgrudar uma face da outra, e assim por diante.
Pois penso o mesmo com relação aos ilustres membros do tal Conselho das Cidades, tendo em vista suas proposições sobre a tarifa zero.
Eles deveriam passar o resto de suas vidas em Hasselt na Bélgica, onde existe a tarifa zero no sistema de ônibus, entrando e saindo dos ônibus gratuitos a cada um ou dois quarteirões ou até mais um pouco, para verificarem interminavelmente que:
1- Os seres humanos inteligentes não fazem isso.
2 – Graças a essa inteligência, em Hasselt não existe Conselho das Cidades e o sistema de tarifa zero implantado em 1997, transporta hoje 1300% de passageiros a mais e com uma mobilidade invejável. O que jamais atingiremos nas cidades brasileiras, graças aos nossos atilados conselheiros urbanos.
Como diz um colunista: Pode?







