Nilda
No contexto do último Dia Mundial Sem Carro e do debate em torno do Plano de Circulação Viária e Transportes para a cidade de São Paulo alguns ambientalistas afirmaram que o transporte coletivo não é a melhor solução para que haja mobilidade urbana, pois é movido a motor e, assim, também é poluente[1], diferente de meios mais “sustentáveis”, como simplesmente andar a pé ou usar uma bicicleta. Para comentar esta questão vou contar uma história real[2].
Nilda, 42 anos, moradora do Jardim Miriam, trabalha como empregada doméstica desde que chegou a São Paulo, aos 22 anos, vindo de Serra Talhada (PE). Nilda acorda às 6h, arruma a casa, dá café da manhã para as filhas Leticia e Juliana. Às 6h40 leva Juliana, a mais nova, para a escola. As duas caminham a pé por 20 minutos. Às 7h Nilda caminha mais 10 minutos, passando por uma subida leve, para pegar o ônibus Princesa Isabel e em aproximadamente 50 minutos chega ao Campo Belo. Ali ela caminha mais 15 minutos do ponto até a casa onde trabalha. Antes, quando morava no Jardim Noronha, o trajeto era ainda mais puxado: caminhava de sua casa até o ponto por 20 minutos, passando por ladeiras pesadas e não asfaltadas, pegava uma perua por 20 minutos até o Terminal Varginha e ali o ônibus Largo São Francisco por mais 1h40 até finalmente chegar ao Campo Belo, com mais 15 minutos de caminhada. No trabalho, Nilda varre, passa pano, lava louça, lava roupa, limpa banheiros, arruma todos os cômodos, cuida de duas cachorras, rega plantas e cozinha para cinco pessoas. No final do dia, mais ou menos 17h30-18h, Nilda caminha mais 15 minutos até o ponto e leva mais ou menos uma hora para voltar para seu bairro.
Será que propor para a Nilda usar bicicleta no lugar do ônibus não seria tornar a sua rotina ainda mais pesada? Muitos trabalhadores usam bicicleta para trajetos como os da Nilda, porque não podem pagar pela tarifa do ônibus. Mas se houvesse transporte coletivo gratuito e de qualidade o que será que esses trabalhadores escolheriam? Precisamos lembrar que essas pessoas não usam bicicletas de marcha, nem bicicletas dobráveis, e que mesmo as bicicletas mais simples são um custo bastante alto para quem vive de 0 a 3 salários mínimos.
A realidade social da Nilda é a de uma pessoa que sequer aprendeu a andar de bicicleta. Nunca foi ao cinema. Nunca foi a um show de música. Pelo o que ela se lembra, esteve três vezes no Parque do Ibirapuera. Para a sua filha operar das amígdalas ela foi algumas vezes até o Hospital Menino Jesus, na Bela Vista, pois é o único hospital público com bons especialistas nesse tratamento. Ela e Juliana levavam quatro horas para ir e voltar de lá, usando uma perua e depois o ônibus Parque Dom Pedro: “Tinha que sair bem cedinho de casa”. Fora esse episódio ela praticamente não se lembra de usar serviços públicos de Saúde. Diz que quase não sai do bairro, por causa do preço dos ônibus, vai mais na casa das vizinhas mesmo. Raras vezes ela, Nicinha e Zelda vão até o forró Guarapirão. Pegam o ônibus Sto. Amaro, descem no Largo Treze (30min) e de lá pegam qualquer perua que passe na estrada de Guarapiranga, depois da ponte do Socorro (40min + 10min caminhada). Nos feriados e finais de semana a Nilda começou a ver mais a família, por causa da ampliação do Bilhete Único para 8 horas. Para ver Lola, sua cunhada, ela pega uma condução até o Shopping Interlagos e depois outra (com os tempos de espera do ônibus leva ao menos 1h30). Elas calculam o tempo de ficar juntas para Nilda não perder a gratuidade na volta para casa. “Passear é muito difícil”, desabafa.
Entendemos que a solução ideal para o caso da Nilda (e para o Plano de Circulação Viária e Transportes) seria articular o uso de um meio de transporte “sustentável” (como suas pernas ou a bicicleta até pontos de ônibus/estações de metrô) com transporte coletivo gratuito, de qualidade e movido da forma mais ecológica que a ciência puder inventar. A mobilidade sustentável é totalmente desejável, desde que junto com ela seja exercido o direito que a Nilda e todas as pessoas atualmente excluídas têm de se movimentar pela cidade.
[1] O que bem poucos sabem é que um ônibus emite 4,5 vezes menos CO2 por km que um automóvel particular, apesar de ter capacidade para transportar um número incrivelmente maior de passageiros.
[2] Texto produzido para o jornal PASSE nº3, que pode ser baixado no CMI, no site do MPL São Paulo e aqui no TarifaZero.org .
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Estou de pleno acordo, exceto por um detalhe: a mobilidade sustentável não se reduz aos modos de transporte com propulsão humana. Entre os princípios da mobilidade sustentável, estão:
- prioridade das pessoas sobre veículos
- prioridade dos modos não motorizados sobre os motorizados de transporte
- prioridade dos modos coletivos sobre os individuais de transporte
- distribuição equitativa de ônus e bônus entre as pessoas, pelas opções que elas fazem entre os modos de transporte
O transporte público é um dos pilares da mobilidade sustentável, não está em contradição com ela.
Esta minha observação em nada diminui a força do argumento central do texto. Afinal, a universalização do direito à mobilidade (e, portanto, à cidade) passa pela complementariedade entre modos e isso é um elemento estruturante da sustentabilidade.
1É como eu li num artigo do Slavoj Zizek publicado na Piaui: sem se colocar em questão a relação incluídos/excluídos, a ecologia se transforma num problema de desenvolvimento sustentável, perdendo todo o seu caráter subversivo. É dessa forma que os grandes monopólios se passam por “ecologicamente corretos”. Precisamos reconsiderar o conceito de “proletário”…
2Caro Paulo Cesar – e todos que acompanham essa iniciativa:
Penso que, justamente conforme apontado por sua argumentação, a intenção do texto da Grazi é ressaltar a importância da complementaridade entre os meios de se movimentar pela cidade – sejam eles motorizados ou não.
Daí que podemos vislumbrar, em minha opinião, a contribuição decisiva que o Movimento Passe Livre apresenta: diante da crise de mobilidade urbana que vivemos – no qual os grandes meios de comunicação teimam em chamar especialistas que não utilizam os transportes de massa, e apontam a bicicleta ou andar a pé como a única saída -, algumas propostas são apresentadas e construídas coletivamente. Por usuários e trabalhadores do sistema de transporte coletivo.
E, principalmente – e daí toda a riqueza do texto -, levando em conta uma diversidade de situações e contextos de nossas cidades contemporâneas.
Por esse motivo, tenho acordo com as questões importantes que foram levantadas pelo seu comentário. E penso que elas evidenciam a importância de fazermos dessa questão um debate público – e não seqüestrado por especialistas, técnicos e empresários.
Para que assim todos que moram e constroem nossas cidades todos os dias possam agir coletivamente.
Abraços,
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