Primeiro de outubro de 1990. A então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (PT), anuncia uma nova proposta de governo: a tarifa zero. De autoria do secretário de Transportes Lúcio Gregori, o projeto pretendia garantir a gratuidade total do transporte coletivo a partir de 1o de julho. O projeto, definido por Lúcio como político e não técnico, visava garantir o direito de ir e vir para toda a população que gastava, em 1986, cerca de 22% do seu salário em transporte. A tarifa zero seria financiada por um Fundo de Transporte, que recolheria uma porcentagem do orçamento, em especial do IPTU, que sofreria um reajuste progressivo. Ou seja, o custeio do transporte seria baseado no conceito de forte distribuição de renda: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos e quem não tem nada não paga.
22 de outubro. O projeto começa a ser discutido na Câmara Municipal, onde encontra resistência até mesmo de vereadores do próprio Partido dos Trabalhadores. Na Câmara, o projeto definha, enquanto os debates na sociedade e dentro do PT fervilham. Pesquisa DataFolha divulgada no mesmo dia 22 de outubro pela Folha de S. Paulo, mostra 45% dos 1.077 entrevistados eram contrários à proposta, enquanto 43% eram favoráveis. No entanto a parcela mais pobre da cidade se mostrou favorável. Dos entrevistados que recebiam de 1 a 5 salários mínimos, 50% apoiava o projeto, contra 38% contrários. Dentre os entrevistados que recebiam mais de 10 salários mínimos por mês, 54% rejeitaram a proposta. Já em dezembro, após dois meses de debates, à pedido da Prefeitura, o instituto Toledo & Associados realizou nova pesquisa de opinião em que se constatou os números de 65,3% favoráveis, 27,6% contrários e de 7% que não sabiam responder. Dos entrevistados, 82,4% tiveram a clareza de explicar que a aplicação da tarifa zero exigiria um aumento no IPTU.
Dentro do PT os argumentos dos militantes contrários ao projeto eram dos mais variados. Desde a falta de discussão interna antes do anúncio do projeto, até curiosas comparações com a inexistência deste tipo de gratuidade nos países do chamado socialismo real. “Será que a gratuidade educa ou deseduca as massas?”, argumentava um diretor do sindicato dos metroviários da época.
Com a derrota do Projeto Tarifa Zero na Câmara, o governo municipal abriu nova frente de batalha: a municipalização do transporte coletivo. Tratava-se da retomada, pelo poder público, da administração do sistema. Desta forma, as decisões sobre a quantidade de ônibus, os horários e as linhas não estariam mais nas mãos das empresas que operavam pela lógica de mercado (colocando menos ônibus em linhas consideradas não-rentáveis, de periferia, por exemplo). A prefeitura pagava um valor determinado para que as empresas, subordinadas às decisões do poder público, pusessem seus ônibus nas ruas. Uma espécie de fretamento. Com o desgaste gerado pela recusa em relação ao Projeto Tarifa Zero, os vereadores aprovaram a lei de Municipalização em maio de 1991.
Nota de Lúcio Gregori: Esta entrevista é um relato de memória e não um relato histórico. Ela não se fundamenta, pois, em documentos, recortes de jornais, gravações etc. Muitas pessoas que viveram o mesmo processo poderão ter outros registros em suas memórias e outras conclusões sobre o que é dito aqui. O governo de Erundina, primeiro do PT da época numa cidade de porte como São Paulo, foi antes de tudo muito emocionante para todos que dele participaram.Mesmo aqueles que, em meu relato, se mostraram contrários ou resistentes à tarifa zero tiveram uma atuação empolgada e comprometida com o melhor para a cidade e sua população. Objetivei escancarar uma discussão sobre os inúmeros tabus e preconceitos que impedem a adoção do transporte coletivo pago indiretamente, fora as dificuldades políticas objetivas. Passados 18 anos da proposta, é gratificante saber da cidade de Hasselt, Bélgica, onde existe a gratuidade nos coletivos desde 1997. Com incríveis resultados positivos, que constam no site www.tarifazero.org. Comprova-se que é factível, que traz enormes vantagens para a sociedade como um todo e restaura a esperança de alcançá-la em nosso país.
Vamos começar a convergir para o transporte.
Certo. Eu estou lá de secretário de Serviços e Obras [na Prefeitura de São Paulo, 1989] e o transporte da metrópole estava absolutamente e totalmente caótico. Porque a história do transporte de São Paulo era um caos. Quando entra a Erundina, a primeira secretária, o primeiro pessoal que assumiu o transporte era bastante ideologizado. Tinha uma coisa assim: “Precisa estatizar”. E não deu, não era assim, chegar e falar “está estatizado”.
Chegaram a desenvolver algum projeto, alguma ação, ou ficaram tocando como era?
Tentaram. Eu não sei exatamente como foi, mas eles tentaram de uma certa maneira fazer uma mudança. Politicamente estava muito difícil, pois, na verdade, não havia apoio da Câmara.
Não tinha movimento reivindicando?
Isso. Foi um período muito difícil pro transporte. E também era um pessoal que, de certa maneira, não tinha experiência de poder executivo. Como é que você faz pra gerenciar essas coisas? Precisa ter um pouco de experiência.
Bom, o fato é o seguinte: a primeira secretária foi Teresa Lajolo, uma pessoa muito entranhada dentro do partido, muito ligada ao sindicato dos trabalhadores do transporte, acho que a principal base eleitoral dela. Foi a primeira secretária. Por várias razões ela não estava sendo feliz na situação e, também, a bomba que ela tinha recebido era muito grande. Erundina, de alguma forma, não gosta e pede para ela sair. Quando virei secretário, ela me deu a maior força na municipalização.
Como pela primeira vez o pessoal estava assumindo cargos executivos, pintou aquela idéia da eficiência. “O cara precisa ser arrojado, precisa ser meio empresário pra saber como é que faz”, entendeu? E tinha um cara, um pequeno empresário, chamado Ademar Gianini, que tinha uma fábrica de talheres, coisa assim. E isso ganhava corpo no governo, que o cara precisava ser muito prático, precisava ser meio estilo empresário, meio atiradão, nesse sentido de empreendedor.
Então a Erundina substitui Teresa Lajolo, que era de origem sindical, ligada aos condutores de veículos e cobradores, e a quem estavam vinculadas as estatais. A Secretaria de Transporte tinha duas estatais: Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que cuida do tráfego e a Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC) que cuida do transporte coletivo. Na verdade, cuidava da parte do osso do sistema, o filé mignon ficava com as empresas privadas. É uma bomba. Trânsito e transporte urbano em São Paulo. Teresa não estava indo bem, por todas essas razões. Erundina a substitui por Ademar Gianini, que é esse empresário.
Ele fez alguns contratos experimentais da chamada municipalização, que é o fretamento de ônibus. Você paga pelo serviço feito pelo empresário. Ele fez uns contratos preliminares dizendo o seguinte: “Se você comprar ‘x’ ônibus eu pago pra você a prestação de serviço”. Era um contrato por dentro da concessão que já existia. Depois, já como secretário, verifiquei o que isso possibilitou. Era realmente uma mudança interessante que tinha que ser ampliada.
Nessa época existia no PT um Grupo de Trabalho sobre Transportes, que tinha feito um estudo detalhado. Chamava-se “Municipalização dos Transportes”. O termo municipalização vem em contraposição, como alternativa à palavra estatização. Municipalização não é nem a estatização no sentido clássico e nem o regime de concessão. Você contrata os ônibus por serviço prestado. Uma vez contratado, a tarifa e a arrecadação são todas suas e, no limite, você põe os ônibus a operar onde você bem entender.
Já que você entrou nessa peleja entre municipalização e estatização: como já conversamos outras vezes, no fim das contas, para a população, para o sujeito que vai andar de ônibus pouco importa se o ônibus é estatal ou privado. Importa quanto custa a tarifa ou se não custa, se vai chegar direito e em segurança no objetivo ou se não vai. Mas quais são as diferenças entre estatização e municipalização?
Teoricamente o transporte público é estatal porque no sistema capitalista transporte público não é bom business. Tanto que eu brinco com quem acha que deve ser estatal, que chamem o Bush, expert em estatização de transporte. Nos Estados Unidos todo o transporte público é estatal. Eu já falei isso várias vezes para você. Chama um empresário americano e fala: “Vamos fazer um negócio? Montar uma empresa de ônibus?”. Ele certamente falaria: “Você está louco, eu estou fora. Vou vender chave, radinho, qualquer coisa. Transporte público? Estou fora, isso é coisa pro Estado cuidar”. Porque é um business que não dá dinheiro, por definição. Então, como resolver isso? Não sei. A cada momento que passa da minha vida, sou menos estatizante. Mas não no sentido liberal.
Municipalização é: num Estado que não tem recursos para bancar tudo, que já perdeu disputas anteriores – o transporte já perdeu disputas anteriores para outros lobbys, como o lobby da saúde. As verbas da saúde não são destinadas apenas porque a saúde do ser humano é fundamental, ou porque a educação é essencial para nossos jovens e criancinhas. Tem um lobby, há interesses por trás de montão, que sustenta isso e quer mais. E o transporte coletivo já perdeu essa batalha há muito tempo. Aliás, perdeu também para o lobby da indústria de automóveis. Então a municipalização é uma forma de contornar, numa determinada circunstância, essas coisas todas. Por que o Estado, que já não tem dinheiro para nada, vai ter que fazer uma capitalização maluca, comprando, no caso de São Paulo, 13 mil ônibus? É uma nota preta. Para que empatar essa grana?
Na municipalização ao empresário cabe só executar o serviço?
Ao empresário você diz o seguinte: “Quanto custa o seu ônibus ao dia? Com motorista, cobrador, lavado, blábláblá”. Estou simplificando, não é? “Custa mil reais”. “OK, no fim do mês eu te pago 25 mil reais (hipotéticos) pelo ônibus”. Agora a gente vem e fala: “Esse ônibus vai operar aqui, aquele vai operar lá”.
Isso não seria uma forma de bancar os empresários de ônibus?
Eu também achava que o esquema de fretamento de ônibus era uma forma de subsidiar empresário. Até que numa reunião do Conselho Político de Governo, Paul Singer [secretário de Planejamento] esclarece esta questão para mim. Ele dá uma aula sobre isso e eu me convenço. Falo, “puta, meu, eu estava pensando errado” – desculpa o palavrão – “eu estava pensando errado, isso não tem nada a ver. Isso não é subsídio para empresário ‘p’ nenhuma”. É uma coisa que a prefeitura faz o tempo todo. Quando você contrata seringas para aplicar injeção você está fazendo isso.
Material escolar…
Não está subsidiando ninguém, está comprando e pagando. E também não tem cabimento o Estado começar a fabricar carteirinha, fabricar giz, no nosso sistema aqui não bate. E muito menos fabricar caixões de defunto, que foi o que caiu no meu colo. Quando eu era secretário de Serviços e Obras, tinha uma fábrica de caixões lá. Depois posso até contar passagens, digamos, funestas a respeito disso. Contrabando de cocaína em caixão, uma loucura.
Então, Ademar Gianini vira secretário de Transportes e ele é profundamente vinculado ao esquema Articulação [corrente interna do PT, sendo seus maiores articuladores Lula e Zé Dirceu]. E, exatamente por ser empresário e empreendedor, ele acaba fazendo gestões que não são do agrado de Erundina. Ele não pôs mão em dinheiro, coisa nenhuma, mas suponho, cria constrangimentos para a Erundina. Ela era uma pessoa extremamente séria. Passou qualquer coisa perto dela, ela chia. E eu estou lá na minha Secretaria cuidando das minhas coisas. Pensava que aquela Secretaria não tinha punch. [Continua]