“A passagem vai aumentar de novo?! Não acredito!”

Mais de um mês sem escrever para esse blog.
Será que foram as rodadas finais do Campeonato Brasileiro? Não, nem é pra tanto…
Falta assunto? Com certeza não.
Aumento da tarifa de ônibus da cidade de São Paulo bem perto de acontecer. A Secretaria Municipal de Transporte dando grana para os taxis ficarem mais baratos. Vigas do Rodoanel caindo por aí. O Metrô querendo inaugurar a Linha 4-Amarela com um mês de catraca livre (e se a população quiser mais depois? Azar o deles, e sorte a nossa!). Quanta coisa rolando e tal…
Então, o que acontece? Não sei ao certo.
Após o acorrentamento dos militantes do Movimento Passe Livre São Paulo na Secretaria Municipal de Transportes, iniciamos a articulação de grupos, movimentos sociais e indivíduos na Rede Contra o Aumento da Tarifa.
Até aqui, tem sido interessante. Várias idéias, iniciativas e atividades. Muita disposição.
Nossa bateria do Movimento Passe Livre (que anima os atos – afinal, barrar o aumento é uma questão de ritmo!) finalmente foi retomada. O Exército Clandestino Insurgente de Palhaços Revolucionários (uma de nossas armas contra o tédio e seus poderosos senhores de terno e gravata, ricos em distribuir armadilhas e obstáculos para o livre trânsito das pessoas pela cidade) está organizando seu batalhão e suas intervenções.
Panfletagens em terminais, dentro dos ônibus, em locais de grande circulação, escolas públicas.
Acordando cedo, conversando com muita gente – vendo a indignação que existe nessa cidade da São Paulo.
Dia desses, bem próximo de um ponto de ônibus bastante movimentado, estava entregando panfletos – e divulgando a manifestação de 26 de novembro.
Uma moça, de nome Marcela, pega um dos panfletos e se encaminha até a faixa de pedestre. O sinal está fechado – então, sobra um pouco de tempo para passar os olhos sobre o papel que havia acabado de lhe entregar. Ela não quis nem conversar, parecia estar apressada. Mas, como o sinal não colaborava, lá estava ela – esperando o desfile da hegemonia da sociedade do automóvel ser freado por alguns instantes, quando o semáforo fechasse para eles.
Eu continuava a panfletagem. Conversava com algumas pessoas – que se mostravam surpresas com notícia. “Nem sabia!”, dizia um jovem rapaz. “Os caras também não facilitam, né? Pô, ta muito caro já. E os busão tão sempre lotado. Fico revoltado, viu mano. Todo dia, para ir e voltar do trabalho é lata de sardinha”, completava o seu amigo.
Dona Ana, que também se interessou pelo que os garotos estavam conversando, pediu um “papelzinho” – como ela disse pra mim. Leu atentamente – ao ponto de me repreender, dizendo “Calma menino! Deixa eu ler, daí falo contigo!”. Esperei, então.
Pouco tempo depois, Dona Ana resolve conversar com esse garoto estabanado e ansioso – no caso, eu mesmo.
“Então menino, eu trabalho no prédio aqui ao lado. Li aqui o que vocês estão protestando. E é muito importante mesmo. Tem como você me dar mais alguns desses aqui? Aí eu posso conversar com o pessoal do café e da limpeza lá do prédio, que trabalham comigo. Vou falar para as minha filhas também irem na manifestação. Elas trabalham lá no centro, bem perto da onde vocês vão ta. Pode ser?”.
Pode sim, Dona Ana – respondi sem pestanejar. É claro.
Ela então agradeceu – e eu fiquei todo abobado, e emocionado em ver essas pessoas que se indignam e estão com a gente.
Tem de tudo numa panfletagem. Gente que se empolga. Que pede mais alguns, “para distribuir lá na escola e no bairro”. Gente que não está nem aí para você. Que é indiferente, e fica brava por estar com pressa. Pega o panfleto, nem lê ou conversa. E tem também gente como a Marcela – lembram dela?
Pois então, ela voltou. O semáforo tinha aberto para os pedestres – vitória! Mas, ao invés de ela avançar apressadamente antes que os carros ganhassem a vez novamente, lá estava a Marcela ao meu lado.
“Então, eu sou do telemarketing aqui do lado. E nem tem vale-transporte, nem nada. E, de final de semana, eu quero sair com minha mãe e com as minha amigas – mas é caro. Esse bilhete aí, que dura oito horas nos fins de semana, ajudou um pouco. Mas, com o que ganho, continua muito caro”, contava Marcela. “Aí você vem e me fala que a passagem vai aumentar de novo?! Não acredito!”.
Nem eu – viu Marcela, pensei. Não dá mais mesmo. É inaceitável.
Nossa conversa foi breve, pois ela estava sim com pressa. Disse para ela panfletar como quisesse, que divulgasse a idéia. Deixei alguns panfletos – já que a Marcela falou que ia “jogar a idéia nas meninas do trampo”.
E, assim, seguimos a panfletagem.
Uma idéia nos estimula – ajuda a superar as dificuldades e, muitas vezes, o sono e cansaço de todos os dias: barrar o aumento é inevitável.
Assim, o desânimo perde terreno, e dá lugar para a luta por um transporte público de verdade. Toda essa movimentação – a cidade fervilhando, nossos corpos e coração nas ruas – fez com que eu pensasse em retomar esse espaço de reflexão, comunicação, opinião e conversa.
Então, é isso.
Estou de volta, agora mais constante – assim espero.
***
Post-Scriptum 1: para terminar, gostaria de expressar aqui minha solidariedade ativa ao preso e refugiado político Cesare Battisti, em luta pela sua liberdade. Para que as pessoas possam acompanhar notícias diárias e análises críticas sobre esse caso – tão deturpado por algumas “agências de informação” da imprensa brasileira –, sugiro que entrem nos sítios do Comitê de Solidariedade ao Cesare (Cesare Livre!) e no Passa Palavra, dentre outros, que deram espaço para o tratamento sério que a questão merece.
PS 2: Para saber mais do ato, vocês podem conferir o chamado aqui (clica em cima!).
(Imagem do panfleto entregue pela Rede Contra o Aumento)





http://www.valordatarifa.blogspot.com
2,50 não dá! Passe livre já !
Luta em Guarulhos
1Ótimo artigo,uma ótima forma de demonstrar que as pessoas que estão nessa luta desde as panfletagens até outros atos, também sentem na pele o que é deixar de se divertir em bares ou parques,para poderem ir para as ruas manisfestarem uma coisa que nada mais de direito delas .
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