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Ato contra aumento da passagem de ônibus acaba com presos e feridos no centro de São Paulo

January 14, 2010 por: admin categoria: notícias

Júlio Delmanto

Como há muito se esperava, em 4 de janeiro o prefeito Gilberto Kassab (DEM) anunciou aumento de 17,39% no preço das passagens de ônibus da capital paulista. O valor subiu de já altos R$ 2,30 para impressionantes R$ 2,70, sendo que, no período entre 2006 e 2009, a inflação foi de 15,36%. A Rede Contra o Aumento da Tarifa já vinha se articulando desde o final do ano passado, e promoveu, na última quinta-feira, 7, um ato de rua no centro de São Paulo. A reação do poder público infelizmente foi previsível: porrada.

A concentração aconteceu em frente ao Teatro Municipal, de onde as cerca de 300 pessoas saíram em marcha rumo ao Terminal Parque Dom Pedro II aos gritos de “Aqui é o povo unido contra o aumento do busão” e “Ei, Kassab, vai tomar no cu”. Apesar da agressividade nas palavras de ordem, o ato seguia absolutamente pacífico. As únicas contravenções foram uma ou outra pichação com dizeres como “2,70 é crime” ou “estou cansado de ser enganado”. A reação dos pedestres era de apoio não muito participativo, e a polícia acompanhava, apontando perigosa e desnecessariamente suas motocicletas para as pernas dos manifestantes.

Nos aproximamos do Terminal pela Rangel Pestana e a polícia decidiu fechar o acesso já ali. Ligeira confusão, e o informe – posteriormente confirmado – de que uma pessoa teria sido atropelada por uma viatura. Um policial, tenente, apontou sua arma para um grupo de manifestantes que “ameaçadoramente” formavam uma corrente, de braços dados, para evitar outros atropelamentos. O tal tenente manteve esse procedimento durante toda a operação, agredindo verbalmente diversos participantes do ato.

Após esse primeiro entrevero, meia volta, e o ato segue outro caminho para chegar ao terminal. Aumenta muito o número de viaturas, que agora seguem atrás da manifestação (algumas com sirenes ligadas). Ao chegarmos em frente ao terminal, parte das pessoas começa a entrar e então os homens e mulheres de farda começam a fazer o que manda seu treinamento: agredir a população. Num intervalo entre jatos de spray de pimenta (arma proibida em diversos países por ser extremamente tóxica, ainda mais quando atirada de perto), bombas de gás e pancadas de cassetete em quem quer que fosse. Pergunto a um policial qual é o problema. “Por que não podemos entrar no terminal?”. “Quem está na manifestação deveria saber”, responde o policial sem identificação. “Pois eu não sei. Por que não pode?”, questiono. “Eu não sei! E não te interessa!”, ele responde, já gritando. “É claro que interessa, por isso estou perguntando”, respondo, tentando dialogar antes que ele ameace me bater. Um outro policial pede que eu me afaste.

Mais à frente, um jovem está sendo espancado no chão. Um policial com o joelho em seu peito. Nossa fotógrafa Gabriela se aproxima para documentar o ataque covarde, e começa a ser agredida por um policial alto e branco: “Você está tirando foto da cara de policial, você tá louca?”, berra transtornado, assumindo sua condição de ilegalidade. Ele a empurra, gritando cada vez mais alto. O jovem espancado é enjaulado no porta-malas da viatura, ao mesmo tempo em que um fotógrafo toma um chute na cara por tentar registrar a cena. Outro rapaz, cabeludo, recebe um jato de spray de pimenta direto no rosto, a poucos centímetros de distância.

Alguns policiais usam escudos, outros capacetes. Pedestres e usuários do terminal também apanham, algumas senhoras gritam apontando seus guarda-chuvas. A passarela que sai do terminal vira refúgio, e algumas pessoas atiram coisas lá de cima, entre elas um sapato. Como reação, bombas são jogadas para todo lado, e o “efeito moral” de uma delas corta minha panturrilha. Bombas de gás também cortam o ar, e quem queria só pegar um ônibus pra voltar pra casa agora não consegue nem respirar. Há grupos de policiais agredindo pessoas dentro e fora do terminal, e alguns chegam a subir na passarela, onde havia um manifestante para cada 20 pessoas que não tinham nada a ver com o protesto. Os seguranças dentro do terminal colaboravam com a violência, também portando cassetetes. Um policial barrigudo derruba sua arma no chão, mostrando não só falta de responsabilidade como também de preparo – e se a arma disparasse?

Saldo final do ato: quatro detidos (um menor de idade), dois por “desacato”, dois por “resistência à prisão” (detidos sem razão, ainda são incriminados por supostamente resistirem). Todos foram encaminhados à 1ª DP, e dois prestaram queixa contra a polícia por agressão. Um policial estava com o pé ferido. O jovem atropelado foi atendido no pronto socorro e liberado, com ferimento no rosto. Uma menor teve a cabeça aberta por uma paulada de cassetete e recebeu pontos; uma universitária recebeu três balas de borracha, sendo duas nas costas, e apresentava ferimentos no rosto. Depoimentos apontam que na confusão dois homens negros, possivelmente moradores de rua, foram algemados e levados em viaturas.

Em entrevista ao UOL, a assessoria da polícia afirmou que a repressão aconteceu porque os manifestantes estariam ocupando o terminal para liberar as catracas dos ônibus. No entanto, a violência ocorreu imediatamente após a entrada de uns poucos membros do protesto no terminal, sem que houvesse tempo para liberar catraca nenhuma. Além disso, a repressão atingiu em sua maioria pessoas que não entraram no terminal. Muitas delas sequer participavam do ato. Sem falar na absoluta desproporcionalidade da suposta reação.

Façamos apenas um exercício, imaginando como seria a manifestação sem a presença da polícia. Supondo que houvesse de fato a liberação de uma ou outra catraca – o que poderia facilmente ser coibido pela segurança do próprio terminal, afinal para que ela existe? –, qual outro problema haveria? Havia necessidade do destacamento de tantos policiais para a operação? A polícia precisa necessariamente se portar com agressividade em cem por cento de suas ações? Reação violenta e inconsequente é a melhor maneira de conter pequenos distúrbios no meio de uma manifestação absolutamente pacífica?

Bombas de gás e spray de pimenta em meio à grande concentração de pessoas, muitas delas sem qualquer relação com o protesto, é uma atitude sensata por parte de quem supostamente zela pelo interesse público? Quem causou mais desordem, os manifestantes ou a polícia?

Saldo final desse (e de todo) contato com a polícia: ódio, sentimento de injustiça. Não fica difícil imaginar o que sente quem tem esse tipo de contato diariamente nas periferias e zonas rurais do país, onde tantos e tantos crimes são praticados impunemente por violentos e desumanizados agentes do Estado. Não fica difícil também entender de onde vêm os versos cantados por MV Bill: “quando o ódio dominar, não vai sobrar ninguém / o mal que você faz, reflete em mim também/ respeito é pra quem tem”.

Retirado do site da revista Caros Amigos.

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