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[SP] Pesquisas sobre o transporte coletivo: números na contramão

February 02, 2010 por: xavier categoria: xavier



Nessas últimas semanas foram publicadas duas pesquisas que, pela diferença de resultados e conclusões entre elas, nos deixaram de cabelo em pé – para dizer o mínimo.

Uma delas dizia que “77% reprovam o transporte público em São Paulo”. Já outra, divulgada uma semana depois, destaca que o índice de aprovação verificado entre os usuários do transporte municipal alcançou a marca de 76% (ou 50% – a divergência em relação a esses índices será esclarecida mais à frente).

Diante dessas informações, ficamos atônitos. Parece até que vivemos em mundos diferentes – duas cidades completamente distintas. Mas, as pesquisas são sobre São Paulo mesmo. O que isso quer dizer, afinal? Em qual pesquisa confiar? Será que tem alguém “mentindo”?

Não se trata apenas de verdade, ou mentira.

Procuremos entender um pouco mais do que essas pesquisas nos permitem enxergar.

77% Reprovam o transporte coletivo…

A primeira pesquisa, encomendada pelo Movimento Nossa São Paulo ao Instituto Ibope revela, entre outros dados, que para 62% das pessoas entrevistadas as estratégias implementadas na tentativa de melhorar o trânsito não foram satisfatórias. Além disso, de acordo com o mesmo estudo, 77% dos paulistanos reprovam e consideram absurdo o tempo de deslocamento médio que são obrigados a enfrentar todos os dias nos transportes coletivos. Alguns dados apontam que os usuários desses meios de locomoção ficam, segundo estimativas, 2 horas e 43 minutos diários dentro dos ônibus, trens e metrôs. Eis um dos motivos, dentre vários, para tal índice de reprovação apontado nessa pesquisa – que pode ser consultado integralmente aqui.

Além disso, a população que depende do transporte coletivo também direcionou suas críticas para a falta de pontualidade dos ônibus da capital, considerada péssima para 64% dos entrevistados. A pesquisa foi realizada na primeira quinzena de dezembro de 2009 e ouviu 1512 pessoas. Cabe destacar, ainda, que a mesma pesquisa aponta que para 80% das pessoas entrevistas o tamanho da malha de metrô é insuficiente para suas necessidades diárias de deslocamento pela cidade.

Dessa forma, os dados apresentados por esse estudo indicam uma forte insatisfação dos paulistanos em relação a qualidade do transportes coletivos da cidade.

… mas, 76% aprovam

Já as reportagens que destacam a melhoria dos transportes coletivos municipais, com base nos dados da pesquisa realizada anualmente pela Toledo & Associados para a Agência Nacional dos Transportes Públicos (ANTP) e que conta com o apoio da São Paulo Transportes (SPTrans), apresentaram uma divergência entre si na exposição dos resultados.

O portal da Prefeitura da cidade de São Paulo anunciou, com grande destaque em sua página inicial, que o sistema municipal de ônibus é considerado excelente, bom e razoável por cerca de 76% dos entrevistados. Segundo o comentário da Prefeitura sobre os resultados, esse índice subiu 10 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, o que corresponde a um aumento de 25% na aprovação do sistema pelos usuários.

Mas, uma pergunta fica no ar: agregar os dados e índices de aprovação tudo junto, em excelente, bom e razoável (ou seja, percepções bastante distintas entre si), realmente reflete a qualidade e percepção dos paulistanos em relação ao transporte coletivo na cidade?

A mesma pesquisa ainda aponta que os ônibus municipais que utilizam os corredores exclusivos de circulação são os mais bem avaliados – 58% dos usuários consideram excelente ou bom essa modalidade.

A Prefeitura, em nota oficial, afirma que “os resultados da pesquisa da ANTP refletem os grandes esforços que têm sido realizados pela Secretaria Municipal de Transportes, em conjunto com a SPTrans e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para melhorar a qualidade dos transporte coletivo em São Paulo”.

De acordo com a Toledo & Associados, a pesquisa foi realizada – partir de entrevistas coletadas em novembro do ano passado – com 2.352 moradores da capital e da região metropolitana de São Paulo, e a margem de erro é de dois pontos percentuais.

Repercutindo a mesma pesquisa, o Portal de notícias G1 da Globo.com apresentou uma aproximação diferente em relação aos dados divulgados. Segundo a reportagem, os resultados das entrevistas apontam sim para uma melhoria da imagem dos ônibus – mas a aprovação ainda é baixa, atingindo a marca de apenas 50% (dos entrevistados que consideram o transporte excelente ou bom).

Para além dos dados agregados de forma diferenciada em relação ao Portal da Prefeitura, a reportagem do G1 também informou que outros seis setores do transporte público na região metropolitana foram avaliados – e todos eles, com exceção do metrô, apresentaram relativa melhoria da imagem na opinião dos usuários. Os trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), os corredores de ônibus, os micro-ônibus municipais, os ônibus metropolitanos e os ônibus nos outros municípios da Grande São Paulo – além dos já citados ônibus municipais e metrô – foram objeto de avaliação dos paulistanos na pesquisa.

Duas observações podem ser feitas – com base nas informações que o Portal G1 destaca: a primeira delas é que, a despeito da melhoria de imagem apresentada na pesquisa, o sistema de transporte coletivo ainda é considerado péssimo ou ruim por um número considerável de seus usuários. Além disso, a reportagem também alega que os dados apresentados pelas entrevistas – que foram realizadas em novembro, bem antes do aumento das tarifas dos ônibus municipais de São Paulo – indicam que o impacto do preço das tarifas é considerado alto por mais da metade dos paulistanos. Provavelmente, esse índice seria muito maior agora – caso a pesquisa fosse realizada após o reajuste das passagens do começo desse ano.

Por fim, um último dado a ser considerado: para 88% dos entrevistados o transporte coletivo deveria ser a prioridade dos governos (estadual e municipal) nos próximos anos para reduzir o trânsito e resolver os problemas de mobilidade urbana na cidade – contra apenas 4% dos que defendem que o poder público direcione seus investimentos para o transporte individual. Para os entrevistados, dentre as medidas que poderiam ser adotadas pelos governos, pode-se destacar: aumentar as linhas de metrô e trem (74%); construir mais e ampliar os corredores de ônibus (73%) e fiscalizar melhor o trânsito (46%).

Fechando as contas

Para além do que foi apresentado até aqui, cabe ainda fazermos um comentário – que expressa um posicionamento claro sobre o assunto que estamos tratando. Não dá para fundamentarmos – assim entendemos – nossas políticas públicas de transporte coletivo, trânsito e mobilidade urbana apenas com a realização de pesquisas de opinião. Não bastasse a reduzida quantidade de pessoas que foram ouvidas nos inventários aqui apresentados, os problemas que a população enfrenta diariamente em seus deslocamentos são muito mais complexos do que os números deixam transparecer.

Agora, que fique claro: as pesquisas têm, sim, uma importância significativa na verificação das tendências e indicadores que podem auxiliar e fornecer subsídios para a construção de políticas públicas. Dessa forma, não se trata de contestar o caráter, a realização ou a funcionalidade dos questionários e resultados divulgados. Mas sim de, ao menos, justamente encararmos as pesquisas da forma como aqui apresentamos: ou seja, como instrumentos que evidenciam indicadores de opinião, índices de aprovação, tendências e dados brutos – que merecem um tratamento minucioso e inclusão de outras variáveis, não apenas quantitativas, para a sua devida e correta interpretação.

Um outro transporte – para uma outra cidade

Uma última ordem de considerações também merece ser levada em conta.

Não há como não se sentir desconfortável com a abordagem que as pesquisas oferecem. Os modos de apresentação do questionário e de seus resultados nos dão a impressão de que as pesquisas se reportam as pessoas que utilizam os transportes coletivos apenas como consumidores. Como se os transportes e meios de locomoção fossem um mero serviço, ou um produto qualquer da prateleira do supermercado.

Mas, assim entendemos, o transporte é muito mais que isso. Transporte é, na verdade, um direito (que permite o acesso de fato a outros direitos fundamentais, como a saúde, educação e cultura) de todas e todos – e não pode ser pensado ou entendido enquanto fonte lucro das empresas, mas sim como uma necessidade básica e diária da população.

Claro que, nas atuais circunstâncias, não é nada fácil imaginarmos que o sistema de transporte coletivo possa ser encarado de outro modo – que não como uma mercadoria, como tem sido desde sua origem.

Entretanto, algumas experiências já existiram (como no Projeto Tarifa Zero, apresentado por Lucio Gregori para São Paulo no Governo de Luiz Erundina) e existem – como em Hasselt (Bélgica), e em várias outras cidades pelo mundo –, provando assim que um outro transporte é possível.

Por esse motivo que, nesse momento em que as pessoas estão protestando contra mais um aumento das tarifas na cidade de São Paulo, é importante encararmos essas pesquisas aqui divulgadas como verdadeiros convites para nossa reflexão e ação.

Assim, fazendo coro ao que camarada d.ressaltou aqui nesse site, concordamos que a

Tarifa Zero já não é apenas um apenas um capricho, ou uma luta basicamente ideológica sobre distribuição de renda e aplicação prática do direito de ir e vir. Estamos chegando ao ponto em que a tarifa zero será a principal e inevitável resposta para um cenário urbano em que as pessoas não conseguirão mais se deslocar sem ficar abarrotadas, cada uma com seu carro adquirido com financiamento fácil e sem impostos”.

Talvez, mais do que provocarem confusão e dúvidas, as duas pesquisas que não se encontram em seus resultados podem, na verdade, deixar às vistas que o transporte coletivo – da forma como está organizado na atual concepção vigente em nossas cidades – está na contramão dos interesses e anseios da população.

***

post-scriptum: certa vez ouvi, não lembro de quem, uma frase engraçada – “A estatística é a arte de torturar os números até que eles digam a verdade – ou seja, o que a gente quer ouvir” –, que realmente marcou…

ps2: não aceitem o aumento da tarifa na cidade de São Paulo e não deixem de se manifestar. Nessa quinta-feira, a partir das 17 horas, tem mais um Ato que a Rede Contra o Aumento está organizando. Mais informações no site da Rede. E acompanhem também o twitter da Rede Contra o Aumento.

[Foto: Fabiana Parajara]

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