Quando a proposta toma corpo e vira movimento

mpl df

Quando eu comecei a participar e ajudar a organizar o movimento passe livre no DF, lá em 2004, eu pensava em duas coisas: primeiro a idéia era tocar o terror na capital federal fazendo ação direta; e depois usar essa desculpa aí do passe livre para estudantes como reivindicação pra reclamar dos transportes que aqui são incrivelmente péssimos. E, de fato, passados quase 5 anos, de fato tocamos o terror no DF e esse tal passe livre estudantil virou desculpa pra tudo e todos/as na cidade, até a direita agora pira com esse lance de estudante andar de graça, mundo louco!

Mas pra mim a coisa ficou mais sinistra: depois de uns anos de movimento fazendo ditos e não ditos na capital, de reuniões, cabelos perdidos, prisões/libertações de compas, debates calorosos e festas memoráveis, vivemos no MPL local e nacionalmente um momento de maturidade. Se ainda somos um movimento de juventude, não somos mais um movimento de moleques/molecas. Feliz ou infelizmente a maior parte do movimento JÁ passou dos 20 e poucos anos.

E, finalmente, as propostas que abordavam timidamente o tema dos transportes coletivos avançaram pra pensar a mobilidade urbana, o direito à cidade, a luta contra a cidade burguesa e a vinculação do debate dos transportes com a expropriação capitalista do trabalho e do espaço. Acabou que nos convencemos tão bem do tal do passe livre que passamos a querer mais. À minha parte, dediquei-me em especial neste último período a estudar a segregação espacial na cidade que ocorre por meio do racismo.

Voltando ao debate próprio do movimento, esta etapa que agora iniciamos tem uma nova proposta prática, um novo incentivo pra gente meter a mão nas engrenagens da cidade, novamente: a Tarifa Zero nos transportes coletivos. Ela já foi experimentada em São Paulo no começo da década passada, vindo de uma experiência de governo que se pretendeu de esquerda; existe também em outras cidades-exemplo do capital de bem estar; tem alguns princípios soltos por aí em um monte de políticas públicas vinculadas aos transportes e mobilidade urbana; e, por fim, importantíssimo, está na base de uma porrada de movimentos sociais que em toda história lutaram por justiça e liberdade de ir e vir (sem o ranço liberal, claro).

A tarefa do MPL nesse momento é apreender todas estas referências com seus devidos pesos e desenvolver a proposta com nosso tom: anticapitalita, de base, desde o movimento social, rumo a uma sociedade nova, libertária, socialista e tudo mais. O tarifazero.org (por compilar e fazer dialogar esse tanto de referências e reflexões) é uma iniciativa excelente nessa mediação entre as vontades do movimento e o conteúdo que já temos. E vamos pra cima deles, sem nos deixarmos cooptar nem esmagar. Lutar sempre!

Eu vou contribuir aqui nesta parte das colunas pessoais fazendo principalmente 3 coisas: comentando notícias de jornais e outros veículos informativos referentes à mobilidade urbana; fazendo a vinculação da mobilidade urbana/direito à cidade com a luta antiracista; trazendo algumas análises das movimentações políticas relacionadas à mobilidade, tanto as de baixo quanto as de vima. Claro, se ocorrerem outras situações de extrema relevância coloco aqui. Mas o centro será a Tarifa Zero & cia…

E, por fim, pra homenagear os craques do passado, termino com um trechinho de uma música do Raulzito, que morreu faz 20 anos, esse ano. O maluco beleza (que também teve seus problemas de mobilidade com a linha 743) disse, lá pelos idos de Rockixe, que agora “Eu to tão lindo porém bem mais perigoso: aprendi a ficar quieto e começar tudo de novo. O que eu quero, eu vou conseguir…”

Vídeo do Rockixe no Youthube:

Saudações Catraqueiras
Paíque – militante do MPL-DF

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