Por que será?

Sábado, 29 de agosto de 2009.

O Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo tem uma atividade  a que chamam de formação e me convidam para participar da mesma. O centro da atividade é uma exposição de Mariana Fix, arquiteta, sobre a questão das chamadas operações urbanas, em particular a operação urbana “águas espraiadas”, na zona sudoeste da cidade de São Paulo. A mim caberia, digamos, comentar a exposição e estabelecer relações com os transportes coletivos.

Ouvi a excelente apresentação de Mariana, rica em detalhes, fotos, explicações sobre o funcionamento e evolução das operações urbanas em São Paulo e como elas acabam por serem “comandadas” pelos interesses imobiliários, em que pese o discurso de melhoria da cidade na região onde ocorrem. Tais operações são feitas sob projeto e coordenação da Emurb, (Empresa Municipal de Urbanização) uma empresa pública da prefeitura de São Paulo.

Mariana mostrou as estratégias, freqüentemente cruéis, para remover moradores e favelados nas áreas sob intervenção. Enfim, uma exposição completa e muito bem fundamentada.

Ao final da exposição eu me pergunto: o que comentar?

Não sou especializado nesse assunto e, mais ainda, estou afastado das lides profissionais há anos. Resolvo, rapidamente, fazer uso de minha faixa etária e conseqüente experiência, pelo simples fato de ter passado por diversas situações ao longo da vida profissional. Primeiramente, evidencio o avanço que os estudiosos de hoje de questões urbanas, como Mariana, têm em relação à minha geração. Fundamentação teórica, muita pesquisa, dados, enfim, muita profundidade e embasamento.

Disse que fui o primeiro diretor de planejamento da Emurb e que, naquele momento, se pensava que ela seria uma operadora municipal para garantir duas coisas: que as intervenções da prefeitura obtivessem o melhor resultado para a cidade, evitando-se os seus possíveis futuros impactos negativos e que a apropriação das vantagens propiciadas pelas ações municipais também o fossem pelo poder público.

De modo simples: o metrô, na ocasião, era de responsabilidade da prefeitura e procuravam-se intervenções no entorno das estações, em particular nos então terminais, para garantir que não viessem a ser áreas problemáticas pelo impacto de mudança brusca de uso, com o aporte de milhares de pessoas em trânsito nas estações. Em resumo, não deixar a solução “a mercado”, mas sim por intervenção do poder público.

Daí surgiram os projetos de Santana, Vergueiro (onde hoje é o Centro Cultural Vergueiro), Conceição e Jabaquara (esta última sendo, hoje, o terminal dos ônibus que vão ao litoral). Não é o caso de entrar nos detalhes aqui.

Proponho a minha conclusão de que, ao longo do tempo, acabou prevalecendo a solução “a mercado” e, como Mariana demonstrara, o interesse privado e não o público. Como quase tudo no país. Uma tristeza… e uma sensação de ingenuidade, despreparo, incompetência, ou sei lá o quê, dos muitos que atuamos nessa área na época de então. Do modo como são as coisas no país, todos os caminhos acabam numa solução de mercado, foi minha conclusão.

Aqui cabe sem dúvida a propriedade do princípio de Lampedusa (não literal); “é preciso que tudo mude para que tudo permaneça com está”.

No caso, a vitória dos interesses privados.

No diálogo com os participantes e com Mariana, surge a questão da habitação e do recente plano “Minha casa, minha vida”. Sobre este, Mariana já escreveu texto muito interessante mostrando que o plano serve, sobretudo, aos interesses da indústria de construção e empreendedores imobiliários.

Nesse momento me passa pela cabeça uma questão que parece relevante, de resto um modo habitual no modo pelo qual formulo raciocínios; a partir de interação e da dialética inerente aos debates. Pergunto aos presentes por qual motivo inexistem movimentos de transportes reivindicativos como existem movimentos por habitação, saúde e, é claro, pela reforma agrária? O MPL é exceção.

Será por que no caso da habitação, por exemplo, em que pese o caráter de enfrentamento e reivindicação, a casa própria é símbolo forte, tanto de proteção, maternal, digamos assim, como também se trata de um patrimônio? Um símbolo básico em nossa sociedade.

Não por outro motivo o mote “Minha casa, minha vida”. Forte e impactante.

Provoco um pouco mais, e pergunto por que no âmbito das forças ditas progressistas, existem lideranças e várias referências intelectuais fortes no urbanismo ligado à habitação, a própria Mariana Fix um exemplo, e não existe o mesmo em transportes coletivos urbanos?

Termino propondo o seguinte raciocínio, para provocar reflexão e debate: se o que se pretende no lado progressista da sociedade são transformações de profundidade e com rapidez para eliminar a pobreza e melhor equilibrar a disputa entre os que tem mais e os que tem menos ou praticamente nada, então os transportes coletivos urbanos apresentam respostas muito mais rápidas quando se instala a sua crise. Esta fica escandalosamente evidente, enquanto a crise habitacional é menos sentida. A crise dos transportes urbanos mexe com todos. E instantaneamente. Basta ver o dia de greve ou interrupção de qualquer dos serviços de transportes.

Dou como exemplo dessa característica explosiva de gerar crise a última pane no metrô de São Paulo. Parece que uma falha elétrica, que durou cerca de uma hora, provocou uma enchente de pessoas nas estações, uma coisa estarrecedora.

Seriam oportunidades de abrir debates sobre o assunto e reforçar reivindicações. Se assim for, o arco dito progressista das forças políticas deveria apresentar muitos movimentos, muito intelectuais orgânicos e muita capacidade de mobilização para ganhos expressivos nos transportes coletivos urbanos.

Parece que não tem.

Por que será?

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