Transporte coletivo urbano e luta de classes: um panorama da questão

2. IMPLODIR A EQUAÇÃO: CLASSE, CIDADE E TRANSPORTE

Mas não se trata apenas disso. O habitat humano das cidades, como qualquer outro, é ao mesmo tempo produtor e produto de relações sociais; é tabuleiro e jogador do jogo de forças sociais e políticas dentro de sociedades historicamente condicionadas; resulta daquilo que estas forças sociais e políticas põem-se a si mesmas como projeto de mundo, de cidade, de vida, e ao mesmo tempo condicionam a realização de tais projetos. Não obstante, a questão eminentemente política dos transportes, essencial a qualquer projeto de desenvolvimento das cidades, é mascarada pelos gestores dos transportes como uma questão “técnica”, isenta e separada da política, com a qual não guardaria relações. É o que se vê nos debates públicos sobre o assunto, quando os técnicos ligados às empresas de ônibus tratam a questão desta forma. Técnica, pelo contrário, não é um conjunto de saberes, práticas e instrumentos “neutros” frente a uma dimensão “política” do conviver humano separada de si, mas é o próprio modo de “fazer-se” de determinada sociedade (CASTORIADIS, 1973). Muito embora a acepção neutral da técnica seja componente indissociável do discurso dos gestores dos transportes, em especial quando pretendem manter tal como está a situação de crise de mobilidade e opressão de classe que tentaremos delinear a seguir, a acepção instituinte da técnica abarca a primeira e fornece-nos a chave para elucidar o desenvolvimento do setor de transporte público e seus possíveis rumos. Antes de prosseguir, é necessário identificar tanto os atores políticos envolvidos neste setor da produção econômica – as prefeituras, os empresários de transportes, os trabalhadores do setor e os passageiros, sendo que os empresários de outros setores atuam eventualmente neste conflito – quanto as relações entre eles.

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