A real politik da Catraca Livre

Ontem dormi na esperança de um dia de liberdade na cidade. E, em certa medida, sabia que hoje teríamos isso, dada a decisão do Sindicato dos/das Rodoviá[email protected] (SindRodô-DF) de realizar a operação Catraca Livre. Mas já sabia também que minha esperança defrontaria-se inevitavelmente com a realidade, que é um pouco mais complexa. Sigamos com uma breve análise da mobilização e do dia de hoje.

As greves rodoviárias, empresários e aumentos de tarifas


As mobilizações de trabalhadores/as rodoviários/as, em todo o Brasil, seguem um esquema de aumentos de tarifas. É uma história conhecida, onde a categoria luta por reajustes salariais, melhorias nas condições trabalhistas, e isso serve como desculpa para que donos de empresas, dada a expressão pública da falta de recursos para os transportes, pressionem um aumento tarifário que supostamente atenda às reivindicações. Assim aumenta-se um pouco o salário e muito a tarifa, favorecendo o lucro de empresários do transporte coletivo.

De forma articulada ou não, os proprietários de ônibus sabem tirar proveito de greves em suas empresas. Jogam a conta pra sociedade. Pois qual outro setor empresarial consegue tornar tão pública sua crise de recursos, ou melhor, sua necessidade de lucrar mais? Quem mais dá conta de, regularmente, nomear uma crise trabalhista como um “aumento de insumos” que justifique taxar mais seus usuários? É da crise da mobilidade urbana que os empresários fazem seu lucro crescer.

Em muitos locais do Brasil essa fórmula já é clara no imaginário popular. E foi justamente a partir de uma mobilização de rodoviárias/os no princípio de 2005 que o MPL-DF saiu definitivamente às ruas em jornada contra o aumento das tarifas, antecipando a disputa. Lançamo-nos às ruas por conhecermos bem essa contradição.

Contradição, aliás, que não diz respeito só aos empresários. Pois o sindicato dos rodoviários/as do Distrito Federal tem em sua trajetória grandes lutas e também muitas denúncias. Desde quando começamos o MPL-DF sempre ouvimos inúmeros causos de acordos entre patrões e sindicato por cima da categoria, truculência contra as oposições sindicais, personalismo/hierarquia, fraudes eleitorais e tudo aquilo que as organizações burocráticas nos oferecem. No decorrer da luta já realizamos contato com a atual diretoria (que é a mesma desde há muito), alguns grupos da oposição (que a seu devido tempo, apresentaram também seus vícios/oportunismo) e relações diretas com trabalhadores por meio de panfletagens, catracaços etc. Realizamos, inclusive, um seminário conjunto com metroviários e uma oposição rodoviária. E, de fato, a conclusão é de que a categoria tem um poder incrível que desperta os mais diversos desejos de domínio. É estratégico para o controle do Distrito Federal que esta categoria esteja devidamente domesticada.

Sobre a atual diretoria, um fato importante: na última eleição sindical da categoria (2009), sua propaganda de detratação de uma das chapas concorrentes baseava-se no fato da chapa de oposição fazer também oposição ao (ex) secretário de transportes da gestão Arruda, Roberto Fraga. A diretoria vitalícia do Sindrodô apresentava como uma de suas virtudes o apoio dado pelo secretário de transportes à sua gestão. E, eleita, ela fez um amplo processo de negociações, paralisações que findaram em um acordo de aumento salarial e de vale-refeições. O acordo ocorreu em setembro. E a Caixa de Pandora explodiu em novembro, depondo governo, secretários e algumas pessoas/coisas mais. Inclusive o acordo da categoria.

Todo esse panorama foi relatado pra que pudéssemos entender como, ao que parece, a operação “Catraca Livre” foi deflagrada: como não houve avanço desde as negociações do ano passado, a mobilização rodoviária seguiu num crescente desde o início do ano, chegando à assembléias expressivas que pressionavam pelo meio de luta constituído historicamente como vitorioso para a categoria: Greve. E, no início da semana passada, foi deflagrado um indicativo de greve para esta segunda-feira, 14 de junho. Como preparativos, operação tartaruga (ônibus lentinho quase parando) na sexta, anúncios públicos e convocação de uma assembléia para o domingo passado, 13 de junho. A Justiça se manifestou, afirmando que a greve deveria garantir 60% da frota rodando. Ou isso ou o sindicato estaria obrigado a pagar multa de 100 mil reais ao dia.

Essa pressão chegou até o novo governo, o tampão Rogério Rosso, eleito pelos/as parlamentares mensaleiros do Distrito Federal. Este iniciou um diálogo com o sindicato, que não se sabe bem em que grau está. E sinalizou, de alguma forma que também não sabemos, que há alguma saída negociável ao conflito. Resultado: na assembléia de ontem, onde a mobilização pela greve era grande, o sindicato tomou a palavra e sugeriu que, ao invés de paralisar as atividades, fosse deflagrada a operação “Catraca Livre”, onde a categoria circularia toda a frota sem cobrar passagem. A proposta, colocada em votação, foi vencedora. Mas parece que sem muito consenso nem discussão prévia, pois de imediato muitos/as anunciaram que não iriam aderir.  Enfim, avalio que a decisão da Catraca Livre foi tomada mais pelo sindicato que dirige a categoria do que pela expressão da organização e consciência da base.

O dia de Catraca Livre


E aí voltamos para o começo do dia de hoje, quando acordei. Haviamos marcado, alguns companheiros, de sair e registrar o dia de catraca livre com uma filmadora. Mas logo cedo um deles liga dizendo que não tinha catraca livre nenhuma e que todo mundo tava pagando o ônibus. Até segunda avaliação, cancelamos a correria de filmar a ‘tarifa zero na prática’. Logo na sequência, recebo a mensagem de celular vinda de um outro companheiro com quem havia marcado uma atividade para o fim da manhã. Ela era simples e clara: “Vou tentar chegar de tarde. Sem ônibus. Abrs”.

Sem sair de casa ainda, fui à busca de informações. Para descobrir que empresários dos transportes não impediram explicitamente a circulação dos veículos, mas dificultaram em alguns locais; que funcionários da viação Amaral foram coagidos a assinar um termo de compromisso sabendo das implicações (demissão) de circular passageiros sem tarifa; que alguns rodoviários não atenderam por medo; que outros só abriam a porta trazeira pra quem pedia pra andar de graça; que alguns amigos se recusaram a pagar as passagens e pularam roletas; que, ao fim da tarde, fiscais desviaram rotas de ônibus, mandaram pras garagens e impediram parte da catraca livre; que usuários fizeram um grande protesto espontâneo na rodoviária fechando uma das principais vias da cidade (eixo monumental) com fogo e quebrando dois ônibus. Que, por fim, o sindicato se reuniu ao fim da noite e, com promessa de reunião com o Sindicato das Empresas (Setransp) para terça e um dia que marcou a cidade, decidirem suspender a mobilização temporariamente.

A mídia cobriu a mobilização com linhas distintas. Enquanto uma rede de TV afirmava que a mobilização causava confusões na cidade, outra culpava a desorganização do sindicato uma vez que nem toda categoria aderiu ao protesto. Curiosamente todas, em uníssono, condenavam o possível aumento de tarifas ao fim da reportagem.

Saí de casa na metade do dia rumo ao meu compromisso. O ônibus demorou muito mais que o comum, e nesse período vi alguns cobradores chamando as pessoas a entrarem por trás, enquanto outros seguiam normalmente. Infelizmente o ônibus que eu peguei não tinha aderido à greve, e fiquei injuriado sem minha catraca livre. Nem na ida, nem na volta. Troquei algumas palavras com os motoristas e cobradores, mas nenhum deles pareceu sensibilizado ao meu dia de catraca livre. Frustração da brava!!!

Enfim…


E com essa sensação de incertezas chegamos ao fim do dia de Catraca Livre. Para nós, usuários/as ativistas da área de transportes, esse método de luta sempre foi apresentado como o mais coerente: seja pela união tácita que gera entre usuários/trabalhadores contra patrões/governos, pelo seu caráter de greve gestionária tão sonhado por nós jovens militantes libertários ou, claro, pela idéia da tarifa zero vinda de baixo. Sempre torcemos e propagandeamos esta como a mais radical e interessante alternativa de luta à categoria rodoviária.

Mas, claro, trata-se de uma categoria composta por pessoas com uma história/memória de lutas, com trajetória e ação própria. E lembra-se que há uma década, quando foi tomada essa estratégia de greve, o resultado foi negativo e uma enorme multa foi aplicada sobre o grupo. E esta estratégia surge justamente apresentada pela direção burocrática, em oposição à proposta mais conhecida e segura, que é a da greve. Por se tratar de uma tática pouco empregada e vinda de cima, obviamente ela não terá adesão total nem sucesso imediato. E pode ter adesões a cada momento, numa crescente até ser assumida pela categoria. Assim como pode ser cada vez mais rejeitada e apagada mais uma vez das possíveis ferramentas de luta à disposição.

A parte que nos cabe nesse caso é bem complicada. Pois ainda que apoiemos a idéia da catraca livre, não nos cabe apoiar um processo em que ela foi usada como ferramenta de manobra política. E, ainda que sejamos favoráveis à continuidade dessa ferramenta de ação, nossas ações devem ser no sentido de fazer com que qualquer ação de trabalhadores e trabalhadoras seja fruto de suas próprias formulações e idéias, sem imposições de cima. Pois, enfim, quem arcará com os benefícios e riscos dessa medida serão eles e elas. E segundo que agirem por meio de terceiros ataca os princípios da autonomia, horizontalidade e independência que construímnos a duras penas e tanto prezamos.

A questão central é que, ainda que por processos atropelados, uma parte significativa da categoria aderiu ao protesto da catraca livre, e isso representa que essa tática tem alguma aceitação e possibilidade de se desenvolver. Podemos manter a propaganda da idéia e avançar na discussão junto à sociedade, avançando na constituição do caldo de cultura necessário pra um desejado momento em que usuários/as e trabalhadores/as dos transportes lutem juntos/as contra o empresariado e governo.

O momento é propício na cidade, pois na sucessão da crise política temos uma gritante crise dos transportes no DF onde (1) o projeto Brasília Integrada está em ruinas, caminhando lentamente e sob inúmeras investigações; (2) o passe livre estudantil está em discussão profunda pois não foi implementado de forma satisfatória; (3) e com ele a emnpresa de bilhetagem eletrônica chamada “Fácil” é questionada em todas instancias (4) o sistema metroviário está sob investigação por seu antigo diretor ter participado da caixa de pandora e o sindicato avança na luta por mais contratações; (5) a greve acelera um relógio da crise rodoviária, problemas com veículos e disputa sobre aumentos de tarifas.

A necessidade de uma intervenção popular que faça com que nesta crise dos transportes tenhamos saldo a trabalhadores/as, usuários/as é fundamental. E a mobilização espontânea de hoje tanto soma-se às (também espontâneas) que recentemente tivemos na cidade em defesa do passe livre como também demonstra que o imaginário de lutas desenvolvido há alguns anos pelos movimentos sociais na cidade geraram frutos. Trata-se, finalmente, de articularmos propostas de transformação definitiva desta situação.

Para isso, apresentamos desde já a nossa contribuiçãp: chama-se tarifa zero. A cidade pôde parar pra pensar um pouco na proposta, hoje. E esse avanço já é sinistro demais.

Todavia, agora, vou dormir com a frustração de não ter sido um dos felizardos/as que viveu na prática a Catraca Livre. E vou seguir lutando para que, no futuro, essa tática seja novamente empregada, mas vinda de baixo e sob organização coletiva. E que ela me ajude a ir às reuniões e protestos do MPL-DF.

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