Nota Pública do Movimento Passe Livre São Paulo em Solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre e aos Ciclistas em geral

“Sai da frente! Eu quero passar!” Buzinas, motoristas raivosos e a pressa de quem não consegue esperar…

Em nossa incansável jornada de luta contra o aumento das tarifas aqui na cidade de São Paulo, já passamos por situações muito desconfortáveis, para dizer o mínimo. Para além da agressividade da Polícia Militar de SP, que reprimiu por duas ocasiões as pessoas que protestavam pacificamente nas ruas, também tivemos, diversas vezes, desentendimentos e discussões acaloradas com motoristas impacientes e que não gostavam de esperar a passagem de nossas manifestações.

Na opinião desse congestionado cortejo de carros, nossos atos sempre “atrapalham a sua vida e o seu direito sagrado de ir e vir”, dentre outras argumentações do mesmo gênero.  Enquanto isso, em nenhum momento esses senhores e senhoras motorizados parecem estar dispostos a compreender que, pelo abusivo preço das tarifas praticado em todo o Brasil, mais de 37 milhões de pessoas (segundo os dados do Instituto de Pesquisas Ecônomica Aplicada – IPEA) também não conseguem exercer esse mesmo direito de se locomover pela cidades… Por esse motivo, as pessoas estão, há várias semanas, organizando protestos e fechando ruas em São Paulo: afinal de contas, não dá mais para aceitar uma concepção de transporte coletivo que está claramente na contramão dos interesses e anseios da maioria da população que utiliza os trens, ônibus e metro para o seu deslocamente diário.

O pior, nessa história de bate-bocas e conflitos entre manifestantes e motoristas, é que, não poucas vezes, tivemos o desprazer de presenciar as tentativas de motos e carros avançarem para cima de nossos Atos. Um desastre poderia ter acontecido, certamente…

Na vedade, nós, do Movimento Passe Livre São Paulo, não conseguimos até agora encontrar palavras, frases, poesias ou parágrafos que consigam expressar, de fato, o nosso espanto e repúdio em relação ao que aconteceu com os ciclistas que estavam em manifestação pacífica da última sexta-feira, 25 de fevereiro, na Bicicletada (Massa Crítica) de Porto Alegre (RS). Naquela fatídica ocasião, um motorista acelerou e avançou seu carro contra mais de uma centena de pessoas que pedalavam na rua José do Patrocínio. Pelo menos 20 ciclistas ficaram feridos durante essa ação. Por esse motivo, expressamos aqui a nossa torcida por melhoras na saúde e pela recuperação desses ciclistas que foram brutalmente atingidos pelo automóvel.

Sobre isso, gostaríamos apenas de pontuar duas questões: em primeiro lugar, a bicicleta é um meio de locomoção previsto em lei e seu condutor tem todo o direito de circular pelas ruas com total tranqüilidade e segurança. Cabe lembrar, inclusive, que o Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 58, prevê que a circulação de bicicletas, “quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes” deve acontecer “nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação (…) com preferência sobre os veículos automotores”.

Todavia, nossa experiência diária infelizmente contraria todas as resoluções apresentadas acima. Dados do próprio Governo Federal indicam que cerca de 40 mil pessoas perdem a vida todos os anos no trânsito brasileiro. Um outro índice alarmante: no Estado de São Paulo, colisões e atropelamentos são as maiores responsáveis pela morte de jovens. Isso tudo para deixar evidente que o ocorrido em Porto Alegre não é, simplesmente, fruto do “acaso”, ou mera “fatalidade” e “acidente”.

Outro ponto que merece nossa atenção: como entender a “impaciência” dos motoristas diante de “congestionamento” de bicicletas, como o promovido em Porto Alegre? Não há muito o que se entender mesmo… E, para piorar o quadro, os ciclistas dessa e de outras localidades também sofrem agressões e ameaças diárias no seu deslocamento pela cidade. Fato curioso esse, já que grande parte do tempo desperdiçados pelos motoristas decorre não por culpa da atuação de ciclistas, pedestres ou transportes coletivos, mas sim como consequência justamente da presença de outros carros na via pública…

Por esses e outros motivos que, uma vez por mês, milhares de pessoas (em várias localidades do Brasil e do Mundo) saem com suas bicicletas, em Massa Crítica, para protestar e exigir respeito e espaço para esse meio de locomoção em nossas cidades. Assim, esses milhares de ciclistas, com sua criativas formas de questionamento à ditadura do automóvel e à carrocracia, também defendem e reafirmam a dignidade de pedestres, cadeirantes e passageiros de transporte coletivo.

Talvez, a melhor forma de expressarmos solidariedade nesse momento difícil para vocês aí da Massa Crítica de Porto Alegre é reafirmando – não com minutos de silêncio, mas sim em alto e bom som – que não descansaremos um só segundo enquanto nossas cidades não foram transformadas de vez.

Nosso 8° Grande Ato Contra Aumento das Tarifas (quinta-feira, dia 03/03) se iniciará na Praça do Ciclista da cidade de São Paulo. Nessa oportunidade, expressaremos nossa solidariedade por meio de uma bela homenagem aos ciclistas de Porto Alegre e de todo Brasil. O transporte público e a bicicleta são amigos nessa luta por mudanças no modelo de Mobilidade Urbana e por um verdadeiro e efetivo Direito à Cidade.

Para que ninguém se esqueça, vamos dizer claramente e juntos: por uma vida sem catracas nos ônibus, trens e metros! Por uma cidade onde seja viável e seguro andar com nossas bicicletas! Uma cidade só existe para quem pode se movimentar por ela!

Movimento Passe Livre São Paulo, dia 03 de março de 2011.

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