São Paulo em luta pela mobilidade urbana

Costuma-se dizer que no Brasil o ano só começa depois da folia do Carnaval. Há, exatamente em função desse mito, a reprodução de uma ilusão – sustentada pela idéia de um imaginário coletivo – de que o novo ano que se inicia só começa a valer de fato após o esperado feriado de Carnaval. Essa assertiva tem uma dose de realidade, especialmente quando deixamos aqueles compromissos ou tarefas perfeitamente adiáveis para final de fevereiro, ou no caso deste ano de 2011, para meados de março.

Renata Sampaio

Mas, a obviedade dos fatos nos faz sublinhar que ano começou em um sábado, dia 1º de janeiro (data na qual nem todos são agraciados com o direito ao merecido descanso após as festividades de Reveillon). Em São Paulo, já no dia 05 de janeiro, fomos lembrados pela experiência cotidiana posta pela necessidade de mobilidade pela cidade de que nem todos nossos “compromissos ou tarefas” poderiam ser adiados para depois do Carnaval. Isso porque no dia 05 de janeiro de 2011 as passagens de ônibus em São Paulo chegaram ao exorbitante patamar de R$ 3,00, em um reajuste de 11,11%, que tornou a tarifa em São Paulo a mais cara do país; irracional do ponto de vista social, mas perfeitamente racionalizável quando levamos em conta o imbricamento complexo que envolve o plano do econômico com o político. Esse assombro aparece como uma espécie de “déja-vu” do ano de 2010, quando em 04 de janeiro, também na gestão do prefeito Gilberto Kassab (DEM), houve um reajuste da tarifa de ônibus que aumentou a passagem de R$ 2,30 para a já inviável tarifa de R$ 2,70.

A insatisfação generalizada pela conjunção de uma tarifa abusiva e não condizente com os rendimentos da maioria da população trabalhadora, das péssimas condições nos ônibus (marcada especialmente pela superlotação), que colocam cotidianamente a humilhação e a exploração que pode ser sentida no corpo e na mente daqueles que precisam acordar cada vez mais cedo para que possam chegar a tempo no emprego, sob o risco de perdê-lo, fez com que um número expressivo de paulistanos, sobretudo estudantes, não esperasse o Carnaval chegar e fosse às ruas protestar a urgência da redução da tarifa em São Paulo.

Desde o dia 13 de janeiro do presente ano – apenas uma semana após a validação do reajuste – milhares de pessoas tem se manifestado nas ruas contra o aumento da passagem, ainda que a grande imprensa, intencionalmente relapsa na cobertura dos fatos, insista em afirmar que o número nunca ultrapasse a casa das centenas de manifestantes. Ao todo, já foram realizados nove grandes atos chamados pelo Movimento Passe Livre, concentrados na região central da cidade, alguns dos quais com grande repressão policial. Os atos tem tido alguma repercussão e, diante das sucessivas mobilizações, uma Audiência Pública foi realizada em 12 de fevereiro para discutir o aumento das passagens, cujo resultado foi a explicitação (mal explicada) de fraudes nas planilhas sobre o aumento. O escancaramento do reajuste como decisão política e econômica e não estritamente econômica, como se quer fazer supor, além das dificuldades de negociação com a população interessada na redução da tarifa, coloca a necessidade de continuidade das mobilizações.

A escassez de uma cobertura séria e aprofundada desses acontecimentos por parte da mídia dominante, procura emudecer mais de dois meses de ininterruptas mobilizações que colocam no centro do debate a questão do transporte, mas acima de tudo refere-se às questões da mobilidade urbana e das possibilidades de apropriação da cidade, negada de antemão pelo próprio processo de produção capitalista do espaço urbano, que coloca uma necessária contradição entre produção social (ou socializada) da cidade e sua apropriação privada. As coberturas midiáticas de massa procuram deslegitimar e subestimar a radicalização, ou melhor, a potência dessas mobilizações, ao relacionar sugestivamente tais protestos como iniciativas de um número reduzido de jovens estudantes (a maioria universitários) e, portanto, sem legitimidade (numérica) social. Procuram associar inconseqüência e juventude como binômio inquebrantável, cuja expressão mais significativa seria aquela relacionada aos transtornos que tais mobilizações causam no trânsito da cidade, afetando o “direto sagrado do ir e vir” do paulistano médio. Quem nunca ouviu em algum noticiário variações da máxima: “não somos contra o direito que o povo tem de se manifestar, desde que isso não afete o direito de ir e vir do cidadão”.

Acontece que o sagrado direito de ir e vir já foi negado de antemão pela lógica que priorizou o espaço como o “espaço livre da mercadoria”, nas palavras de Guy Debord, e priorizou o transporte individual (baseado no automóvel) em detrimento do transporte coletivo, público e de qualidade. A prova mais dramática da negação desse direito de ir e vir não pode ser representada pelos transtornos causados na Avenida Paulista e no Centro da cidade em hora de rush pelos manifestantes em luta pela redução da tarifa de ônibus, ou como costuma dizer o Movimento Passe Livre, pela luta de uma “vida sem catracas”, mas pelo último acontecimento na Estrada do M’Boi Mirim, onde no dia 04 de março, trabalhadores precisaram dar vazão a uma insatisfação que os acomete todos os dias nas filas dos pontos de ônibus, na superlotação esmagadora dos transportes, nas incontáveis horas despendidas nos congestionamentos gigantescos em todo o trajeto em direção a um trabalho degradante, na maioria dos casos. A falta de perspectiva de melhora no transporte urbano – na verdade o que se vê é uma crescente piora – fez com que mais de dois mil trabalhadores, cujo direito de ir e vir lhes é negado pelos congestionamentos e alto pelo preço das passagens, interditassem a já interditada Estrada do M’Boi Mirim na tentativa de chamar alguma atenção do poder público para a situação insuportável que se transformou o deslocamento pela cidade de São Paulo.

O que está colocado tanto nas manifestações na região central quanto na realizada na Estrada do M’Boi Mirim é mais do que um grito de socorro por mudanças no sistema de transporte urbano a um desacreditado poder público como agente significativo na produção de uma cidade justa socialmente. O que também está colocado é a potência posta na e pela vida cotidiana de transgressão a um cotidiano extremamente dilacerado e degradado, inclusive em função da situação dos transportes, mas que não se resume estritamente por ela. Caberia em outro espaço uma crítica mais aprofundada e negativa envolvendo a lógica do processo de produção capitalista da cidade que nos levaria certamente a discutir em termos mais amplos a questão da mobilidade, dos transportes e dos movimentos sociais urbanos. Aqui, nos limitaremos apenas ao início de uma discussão que pretende sugerir outras de maior fôlego.

Nossa intenção é colocar na pauta de discussões desta semana, “curando-se” da ressaca do Carnaval, o assunto que vem ocupando as mentes envolvidas na luta pela redução da tarifa (na construção de uma luta ampliada pela Tarifa Zero) e o pensamento dos milhares de trabalhadores que desembolsam uma quantidade expressiva de seu reduzido salário com passagens de ônibus-trem-metrô, e que vem ganhando espaço crescente nas redes sociais desde o início do ano. Com a grande mídia destinando um pequeno espaço de informação e reflexão sobre essas mobilizações, enfatizando mais os transtornos causados pelos protestos do que explicitando os conteúdos das reivindicações (além dos controversos números de participação e informações sobre os atos), esperamos que este pequenino texto possa contribuir com a divulgação dessas mobilizações. A expectativa é a de que espaços como este na internet possam servir para a explicitação e para a reflexão crítica de outras tantas mobilizações que envolvem a luta cotidiana pela apropriação (ainda que residual, mas certamente significativa do ponto de vista do cotidiano) da cidade.

Nesta próxima quinta-feira, dia 24 de março de 2011, um novo ato em defesa da redução da tarifa de ônibus em São Paulo está chamado para às 17h, com concentração na Praça Oswaldo Cruz, Metrô Brigadeiro (em frente ao Shopping Paulista). Em Santo André, no ABC Paulista, a luta é ampliada e um ato de mesma natureza está chamado para às 14h na Câmara Municipal (em frente à Prefeitura). Fica aqui a dica para aqueles que começarão “de verdade” seu ano de atividades agora, para quem o ano já começou há mais de 70 dias, mas acima de tudo para todos aqueles que diante das contingências colocadas por uma vida que não nos pertence completamente, pode não ficar passivo diante do aumento indecente da tarifa de ônibus que vigora não só no município como em toda Região Metropolitana de São Paulo.[i]

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[i] Agradeço imensamente ao colega Rafael Pacchiega, do Movimento Passe Livre, que me ajudou com comentários e com o compartilhamento de informações, matérias e textos sobre a mobilização social referente à redução da tarifa de ônibus e da luta pela Tarifa Zero.

Retirado de http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=8356

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