Mais carros no horizonte

Na contramão absoluta do consenso atual sobre a crise da mobilidade, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), representante de classe da indústria do automóvel, com generoso auxílio do governo, solta a seguinte bomba:

Aumentar em 62,3% a quantidade de automóveis particulares até 2020. Para cada mil habitantes seriam 250 veículos (hoje são 154). Para realizar essa irresponsabilidade com nossas cidades e capacidade de se deslocar e viver nas mesmas, serão investidos 21 bilhões de dólares até 2015. Haja rua, asfalto, viadutos, remoções de comunidades e bairros pobres, elevados, emissão de gás, transporte coletivo precarizado, saúde comprometida, tempo perdido em trânsito, prestações pagas, industriais e demais ricos se deslocando de helicóptero com seus bolsos recheados, financiamento de campanhas para eleger representantes desta indústria no Congresso etc.

Segue matéria publicada na Folha de SP: 

Veículo por habitante vai crescer 62% no Brasil, planeja setor

VENCESLAU BORLINA FILHO

A indústria automotiva brasileira pretende aumentar em 62,3% a taxa de motorização até 2020. A intenção é passar dos atuais 154 para 250 veículos por 1.000 habitantes, de acordo com estimativa da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Para isso, o setor planeja investimentos de US$ 21 bilhões até 2015 em ampliações e em novas fábricas. A produção anual, que neste ano foi projetada em 3,74 milhões de unidades, deve saltar para 6,3 milhões em dez anos.

Considerando o mesmo percentual e a renovação da frota, as montadoras poderão produzir ao menos 37 milhões de novos veículos no período. Ao final do período, o país poderá registrar uma frota de 69 milhões de veículos.

O aumento da produção considera o crescimento da economia previsto para 2011, estimado em 4% pelo setor, e outros fatores como a oferta de crédito e o aumento de renda da população.

Segundo a Anfavea, 60% das vendas de veículos são feitas por meio de operações de crédito.

Além disso, o crescimento está relacionado aos pacotes lançados pelo governo para incentivar a produção e evitar a demissão de trabalhadores. A última medida aumentou o IPI para carros importados a partir da segunda quinzena de dezembro.

De acordo com dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a taxa de motorização no Brasil cresceu 30% entre 1998 e 2008 baseada na popularização e no aumento do crédito.

No México, o crescimento verificado foi de 75% no mesmo período. Já a vizinha Argentina tem taxa de motorização maior que a do Brasil.

Para o presidente mundial da Renault-Nissan, Carlos Ghosn, não há dúvidas de que o Brasil tem potencial para superar a taxa de motorização de países da Europa, como Portugal, atualmente com 495 veículos por 1.000 habitantes.

“O Brasil tem condições de atingir a relação de 500 veículos por 1.000 habitantes. O brasileiro gosta de carro, e o país ainda tem muito a crescer no setor”, disse.

Para especialistas consultados pela Folha, a meta é ambiciosa.

“Parece mais um desejo do que algo que seja possível”, diz Arthur Barrionuevo, professor e economista da FGV (Fundação Getulio Vargas).

“Não creio que, nem mesmo num prazo razoável de dois ou três anos, o nível de crédito possa se expandir a ponto de viabilizar um aumento substancial da demanda de veículos no Brasil”, diz Júlio Manuel Pires, professor de economia da USP.

Com mais veículos nas ruas, a lógica é que o tráfego se torne cada vez mais complicado, principalmente nas grandes cidades. Porém, para a Anfavea, a culpa não pode ser atribuída somente à indústria automotiva.

Segundo a associação, a questão deve ser analisada e associada a outros fatores, como a qualidade do transporte coletivo, sua eficiência, o adensamento populacional e a condição da infraestrutura viária (ruas e avenidas).

CARGA PESADA

No começo do mês, Ghosn esteve no Brasil para anunciar R$ 3,1 bilhões na construção da primeira fábrica da Nissan no país e a ampliação da unidade da Renault em São José dos Pinhais (PR).

Em entrevista à Folha, o executivo criticou o preço do aço brasileiro, a falta de infraestrutura e a alta carga tributária. “A tributação é muito grande no Brasil. De 40% a 48% do que se paga num carro é tributo”, disse.

“A gente compra aço coreano feito com minério brasileiro porque custa bem menos do que o aço brasileiro. Esse é um problema que temos de resolver porque nosso interesse é baixar o preço do carro no Brasil.”

Retirado de http://www1.folha.uol.com.br/mercado/995221-veiculo-por-habitante-vai-crescer-62-no-brasil-planeja-setor.shtml

 

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