[Madri, ES] Contra aumento, grupo sabota metrô

Por Luisa Belchior

Madri, 8h28. Treze carros do metrô em nove linhas diferentes param ao mesmo tempo, depois de terem os freios de emergência dos trens acionados por um grupo que consegue se infiltrar nas instalações da companhia de transporte. Uma hora depois, as redações de jornais e televisões recebem um comunicado anônimo reivindicando a autoria do ato.

O episódio aconteceu na manhã desta quarta-feira aqui na capital espanhola. A “sabotagem”, chamada assim pelos autores, foi uma forma de protesto pelos aumentos nas tarifas de transportes madrilenhos. A partir do dia 1º de maio, o preço do metrô vai ter um reajuste médio de 11%, variando de acordo com o tipo de tarifa.

Todos os trens estavam parados nas estações na hora, então não houve feridos nem confusão. Mas sim atrasos, que duraram cerca três minutos. Foi o tempo que, segundo um funcionário do metrô relatou ao jornal “El País”, os maquinistas demoram para identificar a sabotagem e acionar novamente o movimento dos trens. O Metrô afirmou que a paralisação criou atrasos que afetaram a cerca de 8.000 usuários do transporte que usavam aquelas linhas no momento.

O tal grupo ainda não foi identificado. A polícia pensava se tratar de membros do movimento dos indignados –aquele que tomou as praças de Madri em protestos e acampamentos há cerca de um ano. Mas representantes dos indignados negaram qualquer ligação com o ato.

Suspeitou-se ainda de outro movimento que saiu às ruas neste fim de semana contra o aumento das tarifas. Chamado “Yo No Pago” (eu não pago), o grupo defende que, enquanto o governo não voltar atrás com os aumentos, as pessoas não paguem para usar o metrô –simplesmente pulando a roleta das estações.

Na carta, porém, os autores da sabotagem dizem ser um movimento independente e anônimo. O departamento de segurança do metrô disse já ter identificado três dos autores através de imagens das câmeras internas. A presidente da Comunidade de Madri (cargo similar ao de governador no Brasil, só que com mais autonomia), Esperanza Aguirre, do Partido Popular, avisou que eles vão sofrer sanções administrativas e, talvez, penais.

Mas o grupo já afrimou que “não estamos dispostos a aceitar que nos privem do acesso a uma necessidade tão básica quanto a de poder mover-se pela cidade em que vivemos, e faremos o que seja necessário para frear este escandaloso e intolerável aumento de preços”.

Quando eu cheguei em Madri, em 2009, o bilhete simples para a zona A, a mais central, custava 1 euro, e o tíquete de dez viagens saía por 7,40 euros. Por 46 euros, se comprava o bilhete mensal, que dava acesso ilimitado ao metrô e ônibus da cidade durante o mês corrente.

Hoje, ainda antes do aumento de maio, o tíquete simples está 1,50, o de dez viagens custa 9,30 e o mensal, 47,60.

Mesmo com o aumento, o metrô de Madri ainda não é dos mais caros entre as capitais europeias, mas começa a encostar. Um exemplo: o bilhete para o ônibus do aeroporto, por exemplo, vai saltar para 5 euros. Barato? Sim, se comparado à tarifa aplicada em Paris, de 9,25 euros, ou em Londres, de até 18 euros. Caro? também, quando se sabe que os madrilenhos pagam, atualmente, 2 euros pelo transporte.

A diferença do próximo reajuste é que, pela primeira vez, os preços vão variar de acordo com a distância percorrida pelo passageiro. O bilhete simples, por exemplo, vai custar até 2 euros, dependendo de quantas estações se percorra. O mensal salta para 51,30 e o combinado de dez viagens –o que eu uso– salta para 12 euros. É a crise entrando no meu orçamento –e no dos cerca de dois milhões de usuários do metrô.

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