E desdobra-se a vida

Sempre damos um jeito de argumentar que o aspecto fundamental do transporte está nos hifens de transição do modelo “casa-escola/trabalho-casa”. Ou seja, que o transporte é elo vital para o acontecimento dinâmico da vida, numa dimensão maior do que a das obrigações produtivas, apesar desta ser inegável. Também defendemos reiterada e repetidamente que a transformar em realidade o sonho de um transporte gratuito, acessado por todos, em qualquer lugar, em qualquer hora e custeado pelas classes favorecidas que se beneficiam dele, é uma questão política, não técnica.

Pois foi isso que, indiretamente, argumentou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em entrevista à Revista Brasileira de Psicanálise (vol. 46, nº 2, 2012). Saca só:

Se você tem um transporte público disponível, você sai do trabalho, pega o metrô, ou vai pegar o próximo dois minutos depois, e encontra um amigo que vai para o bar. Você então vai junto beber e conversar, aí ele te convida para um teatro. Você telefona para sua mulher. Ela vem de metrô e vocês vão ao teatro. E desdobra-se a vida. Seria um inferno uma outra situação em que isso não pudesse ocorrer. Portanto, a questão da arquitetura não é só formal, é também do ponto de vista de uma previsão para evitar o desastre humano.

Fundaram, por exemplo, uma Cidade Universitária. Mas como pode ser cidade no meio do mato? Você tem uma universidade gratuita, e quem não tem automóvel não pode ir. É um plano maligno.

A cidade deseja a presença dos estudantes; a cidade vive disso. No dia que o metrô chegou até a Praça da República, e os meninos podiam ir de metrô naquela escola modelo, extinguiram a escola da Praça da República e a transformaram na sede burocrática da Secretaria de Educação. Portanto, o que há de mal na cidade é também parte de um projeto. A grande questão da arquitetura é política. A grande questão do desenho da cidade é política.

@camarada_d

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