Do “Fora o Vintém” à tarifa zero!

por Camila S. Betoni

Como muitos outros episódios em que o povo comum é protagonista, a Revolta do Vintém não fez parte das “grandes narrativas da história”, foi até hoje pouco estudada e não há muitos registro sobre o que aconteceu nos últimos meses daquele ano. De todo jeito, com as poucas informações que tenho, gostaria de lembrar desse episódio, mas sem rigor científico, tendo como fonte o pouco que li e exercendo certa imaginação sobre os fatos. Faço isso como homenagem ao Movimento Passe Livre, por sua semana oficial de lutas, marcada anualmente pelo 26 de Outubro.

“Vive o pobre amargurado,
Mas vá pagando o vintem,
Si quizer ser transportado,
Quando vae e quando vem.” 

Quero contar uma história que se passou há mais de um século, mas que pelos seus detalhes me soa extremamente familiar.

Em 1879 o Rio de Janeiro ainda era a capital do Brasil imperial. No fim de Outubro desse ano, o parlamento havia aprovado uma lei que instituía a cobrança de imposto no valor de 25 réis – equivalente a um vintém na moeda da época – sobre o trânsito de passageiros de vias férreas em toda a cidade. O reflexo disso foi o aumento em 20% no valor das tarifas pagas pelos passageiros dos bondes de tração animal, que funcionavam como principal meio de transporte urbano no espaço carioca. O aumento foi provocado pelos impostos do governo e reproduzido pelos donos de bondes, mas quem teve que pagar a conta final foi a população urbana, que precisava se locomover pelo único transporte “público” existente na cidade (quem paga o aumento é quem usa? já vi isso antes…).

No dia 15 de novembro, se pronuncia pela primeira vez um personagem central do episódio. O jornalista republicano José Lopes da Silva Trovão escreve um artigo no jornal Gazeta da Noite incentivando que o povo reaja ao reajuste da passagem. No meio de novembro, Lopes Trovão escreve novamente convocando o povo carioca a participar de uma manifestação frente à sede do palácio imperial para exigir o fim do imposto e a revogação do aumento. Certa vez, um professor me disse que esse episódio tinha grande importância histórica porque possivelmente marcava a primeira vez que uma manifestação popular era chamada publicamente por um veículo aberto da imprensa no Brasil.

Atendendo ao chamado feito pelo jornalista, no dia 28 de dezembro cerca de 5 mil pessoas compareceram, ao cair da tarde, para uma manifestação na frente ao Campo de São Cristóvão cujo o grito de ordem era “Fora o Vintém!”. A revolta foi contida pelas autoridades que impediram que a população entregasse uma carta de protesto dirigida ao imperador. Em resposta, convidaram Lopes Trovão a sentar-se, como líder da revolta, em uma mesa de negociação junto ao governo. O jornalista se recusou e redigiu um manifesto dirigido ao soberano do governo, onde o convidava a ir ao encontro direto com o povo nas ruas. Convite recusado, claro… Depois disso, passam a circular pela cidade textos e panfletos incentivando o povo a boicotar as tarifas (pena que na época não tinha ainda catraca pra pular!) e partir para a ação direta, destruindo os trilhos e os próprios bondes.

Focos de revolta foram tomando a cidade aos poucos, até que no dia 1 de Janeiro (já vi esse filme antes!) de 1880 o aumento entra finalmente em vigor. A essa altura, a Gazeta da Noite já havia convocado uma manifestação pública para o mesmo dia. Dessa vez a concentração seria no Largo do São Francisco, local de partida e chegada da maioria dos bondes (já vi isso antes com certeza!). Do dia primeiro até o dia 4 de Janeiro, conta-se que a cidade toda foi tomada por uma onda de rebeliões, mas o palco principal do conflito era a rua Uruguaiana, bem no centro da cidade. Os trilhos utilizados pelos bondes foram destruídos e os próprio bondes foram tombados no meio das ruas. Os manifestantes armaram barricadas em pleno centro carioca. Houve também desentendimento com os condutores, e algumas mulas que puxavam os bondem foram mortas por facadas. Acionada pelo governo, a polícia reagiu lançando balas contra a população nas ruas e invadindo a sede da redação do jornal Gazeta da Noite, baleando os jornalistas que se encontravam lá dentro. Apesar da iniciativa policial, a situação só foi abafada no quarto dia da revolta com a ajuda do exército. Estima-se como saldo a morte de três pessoas e o ferimento de quase trinta.  Alguns meses depois o aumento foi revogado como resultado direto do medo frente a novos motins populares, isso porque as empresas de transporte resolveram elas mesmas pagarem os reajustes feitos pelo império.

É importante recordar o fato de que, junto com a questão da tarifa dos bondes, outras questões surgiam em meio à revolta. O Brasil estava marcado nesse momento pelas ideias republicanas e também pelas lutas abolicionistas. Apesar dessa última não aparecer explicitamente nos documentos disponíveis, a questão de direitos civis é tocada em alguns momentos pelos documentos da imprensa que já falam, por exemplo, em algo como o “direito do povo em manifestar-se”. Um episódio como esse e tantos outros, silenciados por alguns historiadores, vai contra a ideia generalizada de que nós somos o país dos que aceitam pacificamente as opressões.

Quando li sobre essa história não pude evitar lembrar dos/as compas do Movimento Passe Livre. A percepção da importância do transporte na cidade, a repressão vinda da polícia e as táticas de ação direta usadas pelos rebeldes do final do século 19, me lembraram muito algumas coisas que o MPL ajudou a construir nos últimos anos… não só em termos de debate de ideias, mas principalmente em termos de cultura política autônoma. Por outro lado, a relevância da imprensa nesse momento, representada pela figura de Lopes Trovão, me fez pensar sobre o papel do Centro de Mídia Independente e da importância que é, para os movimentos populares, existir meios de comunicação que se aliem de alguma forma à sua luta, divulgando, noticiando e registrando os eventos. Afinal de contas, essa história do Fora o Vintém não teria chegado a nós se não pelos arquivos dos jornais da época. Fossem só jornais de situação, teríamos uma visão diferente da revolta, talvez parecida com aquela que a grande mídia faz do nosso MPL. Temos hoje no site do CMI uma documentação super ampla da história do MPL, que inclui notícias, vídeos e jornais impressos. Em alguns momentos a solidariedade entre os dois coletivos foi de importância fundamental (tanto pra um quanto pra outro). Mesmo com todas as fragilidades que temos tanto no MPL quanto no CMI hoje, acredito que juntos, os dois coletivos quando trabalharam em parceria acabaram por contribuir para a construção de uma outra forma de fazer política, protagonizada em outro momento pela juventude (que agora já se encontra um pouco mais velhinha e produz novas reflexões e engajamentos).

É claro que as décadas que separam o Fora o Vintém da Tarifa Zero abrigam em si diferenças históricas abismais entre os dois momentos. Já não somos tão republicanos, nosso projeto de democracia acabou se revelando um tanto insatisfatório. A autonomia política, de forma geral, aparece como demanda ampla que serve de base para a luta de democratização real da cidade ou da comunicação. Da mesma forma, a revolta não se lança contra a cobrança de impostos por parte do governo, mas sobre a própria lógica lucrativa em que é regido tanto o sistema de transporte coletivo urbano, quanto o sistema de comunicação.  A luta de forma geral se dirige contra a mercantilização do mundo (isto é, das terras, da cidade, do corpo, das palavras). Além de tudo isso, hoje não ficaria muito bem se nas manifestações do MPL alguém resolvesse atacar as pobres mulas que carregavam os bondinhos.

De todo jeito, como voluntária do CMI, resolvi trazer essa história como homenagem ao Movimento Passe Livre, que foi importante não só pra mim, mas para toda uma geração de militantes, como exemplo de luta e prática política.

Sinto às vezes uma tendência triste, provocada por um vazio que se abre quando nos debruçamos apenas a contemplar o presente que, sozinho, tem forma de um abismo abandonado. Nessas horas é preciso recuperar a história para dizer: sempre existiu, sempre existirá a revolta popular! Que seja contra os bondes e as tarifas, as pessoas estarão nas ruas!

Lundu*

Si o povo se levantou,
Fez o povo muito bem,
Si depois se acovardou,
Foi por cauza do vintem.
Si nos bondes a passagem
Pagar mais o povo tem,
Si brigarem na viagem,
Foi por cauza do vintem.
O Brazil adiantado
Caminhava muito além,
Si hoje vê-se atrazado,

Foi por cauza do vintem.
Foi tudo de cabo a rabo
Por um dinheiro xenxem,
Si o povo fez o diabo
Foi por cauza do vintem.
Adeos, amigo Xingu,
Requiescat in pace, amen;
Si escrevi este lundú,
Foi por cauza do vintem.

*Publicado na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1895. Apresenta alguns versos de um Lundu, uma canção de origem africana. A autoria dessa é desconhecida.

Retirado de http://www.midiaindependente.org/eo/blue/2012/10/513378.shtml

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