Um imenso cordão

Depois de duas semanas de manifestações, de 6 a 19 de junho, São Paulo conseguiu: teve um aumento nas tarifas do transporte revogado. E revogou com uma luta honesta, extremamente democrática, que é a forma de luta do Movimento Passe Livre. Nessa semana foram muitas as cidades que viram suas tarifas serem reduzidas: Porto Alegre, João Pessoa, Campinas, Cuiabá, Foz do Iguaçu, Manaus, Paranaguá, Vinhedo, Valinhos, Pelotas, Caxias do Sul, Rio de Janeiro. Sinto que São Paulo coroa esse momento por ter este movimento, que desde antes de seu berço se caracterizava pelo interesse por uma cidade verdadeiramente democratizada, sem exclusão; que lutava e luta para consolidar vitórias e direitos e também apresentar outra forma de fazer política. Sem burocracia e hierarquização, sem usar as pessoas para fins obscuros conhecidos por poucos.

Diferente deste grupo plantado, falso, conservador, que a mídia desejou criar como última cartada para desmobilizar as manifestações. Antes, tentaram desqualificar a luta como fosse vandalismo. Não adiantou, a população percebeu que não era verdade. Depois, acusando o movimento de ter uma contraditória origem de classe média (acusação que supõe não haver beleza na solidariedade, e que estimula o individualismo, o cada um por seu interesse mesquinho). Não adiantou, o movimento demonstrou que sua opção é de classe, no melhor sentido do termo: tem como objetivo a superação das condições de miséria da maior parte da população. O terceiro caminho foi a repressão policial e a criminalização: o governo se enroscou na própria corda e trouxe a solidariedade de milhares que sentiram nojo de ver tamanha semelhança com alguns dos piores anos da história recente do Brasil, os anos da ditadura civil-militar.

Me lembro das conquistas da Campanha pelo Passe Livre/MPL em Florianópolis, da inspiração da Revolta do Buzu em Salvador, todas as demais campanhas em outras cidades e agora peço que me deem licença para dedicar uma canção para o Movimento Passe Livre, de todos os lugares, de ontem, de hoje e de amanhã. Mas hoje invisto meu afeto, carinho e admiração pelo Movimento Passe Livre de São Paulo, que já havia dado tantas contribuições pra luta e agora abriu perspectivas tão incalculáveis quanto os benefícios da tarifa zero. Que ensinou o que é transporte aos tecnocratas, o que é informação aos jornalistas, o que é democracia aos homens de Estado. Quem dirá que é impossível lutar pela lei da tarifa zero? Ninguém.

Formar um imenso cordão e então, ver o vendaval, ver o carnaval sair.

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