Trabalho de Base. Resenha do documentário A Partir de Agora

por Leo Vinícius

Assisti no último fim de semana ao documentário  A Partir de Agora – As jornadas de junho no Brasil de Carlos Pronzato. Vou tecer aqui alguns comentários.

Certamente vale assistir A Partir de Agora. Acho que o documentário traz todos os elementos que estiveram implicados no desenrolar das manifestações de junho de 2013, através da fala dos entrevistados. No entanto, eu, particularmente, se dominasse o ofício de fazer documentários, gostaria de fazer um documentário mostrando as movimentações e táticas usadas dos dois lados na luta explícita de classes que ocorreu em junho de 2013. E nisso, esse meu hipotético documentário, contribuiria para aquilo que um dos entrevistados apontou como uma de suas principais preocupações: como será lembrada as lutas de junho, como uma vitória histórica da capacidade de organização de um movimento que luta por transporte público e gratuito, ou uma manifestação de gente enrolada na bandeira do Brasil “contra tudo que está aí” ou contra os políticos?

O triste é ver que muita gente de esquerda, e até da extrema-esquerda, assimilou o conto que foi martelado pela imprensa e por muitos “cientistas” sobre a multiplicidade de reivindicações, que as tarifas foram só um estopim, tentando interpretar o que foi uma consequência de uma tática da burguesia através da grande imprensa como uma multiplicidade que teria partido inteiramente de uma autonomia popular.

O que fica registrado na história não é algo neutro politicamente. A lição sobre militância, trabalho de base, organização, tática e estratégica, estão contidas na história de que junho de 2013 foi acima de tudo um movimento por redução de tarifas do transporte que não veio do nada, e que tem uma longa história de organização por trás. Mas essa lição não está contida na história de que foi um levante de “insatisfação popular”. Foi luta de classes ou uma aula de educação moral e cívica? É isso que está em jogo nas duas versões. A Fiesp enrolada na bandeira do Brasil é o melhor símbolo de a quem interessa que essa segunda versão distorcida prevaleça.

Relativamente bastante foi falado sobre o MPL, e também sobre o PT. E nisso acho que há uma peça no quebra-cabeça que não aparece no documentário. O que aconteceu em junho de 2013 foi por fora do PT, mas não veio totalmente de fora do PT. Importante na constituição do MPL como movimento articulado nacionalmente, a Campanha pelo Passe Livre existente em Florianópolis desde 2000 foi pensada e construída por militantes de um corrente da esquerda do PT. As campanhas pelo passe livre que existiam em diversas cidades e que se ligaram formando o MPL também possuíam militantes de partidos, inclusive do PT. E a formação de militantes numa organização política, com tudo de aprendizado sobre análise da realidade, sobre tática, disciplina, enfim, sobre luta de classes prática, acabou sendo incorporada ao MPL. Quando esse aprendizado vindo de uma organização política vai ao encontro da juventude independente, temos o que vimos*. A autonomia não vence sem trabalho de base, estratégia, pé na realidade, disciplina e responsabilidade. É essa lição histórica de junho de 2013 que a grande imprensa e muitos “cientistas” tentam ocultar.

* Sobre a relação dessa juventude ligada ao PT, indo ao encontro de um juventude independente e apartidária, na constituição do MPL, ver “Um Movimento Heterodoxo” de Pablo Ortellado em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/12/296635.shtml;

e o Capítulo 5 da tese de Leo Vinicius em http://www.bdae.org.br/dspace/bitstream/123456789/1475/1/tese.pdf

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