Violência e imaginação – Quando o cotidiano desce do ônibus

por Luiza Mandetta e Leonardo Cordeiro

Entre as bombas e as barricadas de junho, outro momento pulsa, velado. O que os instantes capturados das ruas pelas câmeras carregam, mas não mostram, é o suor derramado em tantos   ônibus, em tantos trens, por tantas horas, todos os dias. O sangue que jorrou era o mesmo que sempre correu – silencioso embora ardente – nas veias e artérias da cidade-máquina.

Derrame? Coágulo? O distúrbio congênito que vinha se agravando afinal interrompeu o fluxo. Não eram mais os ônibus, as motos, os automóveis que tomavam as ruas. Eram as pessoas. A pé. E forçavam as outras a descer para o asfalto. O burburinho do interior dos vagões cresceu e invadiu as ruas. Se os trens não aparecem nas fotos, o dia a dia de empurrões, aperto, espera e humilhação, e também de sonho, devaneio, conversa e riso, certamente ecoa em cada uma delas.

Pulsavam nas ruas, dilatadas, distendidas, a violência e a imaginação do momento do transporte. Momento que é lugar. Continue reading “Violência e imaginação – Quando o cotidiano desce do ônibus”

Deslocamento é lugar*

* Publicado originalmente na revista Urbânia 4, de Graziela Kunsch (fevereiro de 2011), este artigo foi escrito no contexto do ciclo de debates em torno de projeto editorial da revista Urbânia 4, realizado no Centro Cultural São Paulo em outubro de 2010.

Talvez o aspecto mais interessante ao discutir o problema da mobilidade urbana é que ela abre a perspectiva de que o caminho é tão importante quanto o destino. Ir para um lugar já é, objetivamente, um lugar em si e, portanto, temos de refletir sobre isso com atenção. É preciso pensar também em termos contextuais: nossa organização social atual está voltada para os centros urbanos, as cidades, que recebem números cada vez mais significativos de novos membros.

De acordo com um recente relatório da ONU na América Latina, em 2010 poderemos ser 172 milhões de brasileiros e brasileiras a viver em cidades. No mundo todo 200 mil novos moradores de cidades engordam a conta diariamente. E as cidades estão voltadas para a produção e administração da riqueza. Vivemos, enfim, sem precisar falar de outra forma, em um sistema econômico e político do tipo capitalista, baseado em divisões de classe, em que a grande maioria das pessoas deve produzir e consumir. Continue reading “Deslocamento é lugar*”