Por que o valor das tarifas de transporte subiu em São Paulo?

por Pablo Ortellado

A pergunta é menos estranha do que parece. Para além das questões contábeis e do ônus crescente do subsídio ao tesouro do município e do Estado, o aumento das passagens contraria uma demanda popular expressa em junho de 2013 e deveria representar um grande risco político. Se é assim, por que a tarifa foi aumentada?

O principal motivo parece ser o entendimento, muito difundido na imprensa e no meio acadêmico, de que os protestos de junho de 2013 não foram fundamentalmente contra o aumento das passagens – para usar uma expressão da época, “não foi por 20 centavos”. Essa interpretação me parece contrária a uma série de evidências que filiam os protestos de junho de 2013 às revoltas de transporte que vêm acontecendo em todo o país pelo menos desde 2003.

Em 2003, dezenas de milhares de jovens bloquearam as ruas de Salvador contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. Foi a chamada “revolta do buzu”. Em 2004 e 2005, dezenas de milhares de pessoas protestaram e derrubaram o aumento nas passagens de ônibus em Florianópolis no que ficou conhecido como as “revoltas da catraca”. Ainda em 2005, no Distrito Federal, uma mobilização popular antes do anúncio do aumento impediu que ele fosse adotado. Em 2007, grandes protestos contra o aumento nos ônibus aconteceram em Maceió e Vitória. Em 2011 eles aconteceram em Teresina. E essa não é uma lista completa. Muitos desses protestos, como os de Salvador e Florianópolis, ainda que circunscritos à cidade, foram da mesma dimensão que os protestos de junho.

Editores e comentaristas na imprensa se perguntaram em 2013 como era possível que as pessoas se mobilizassem por uma questão, segundo eles, tão comezinha como o valor das passagens de ônibus – e essa incompreensão advinha da falta de atenção que os próprios meios de comunicação haviam dado aos protestos dos últimos dez anos que haviam acontecido fora do eixo Rio-São Paulo.

A explicação mais difundida para a motivação difusa dos protestos é a de que eles começaram contra o aumento das passagens mas só ganharam a opinião pública após a violência excessiva da polícia no dia 13 de junho e só se massificaram quando incorporaram em primeiro plano outras pautas como o combate à corrupção. O aumento das passagens teria sido apenas uma faísca – uma  faísca acidental.

Mais uma vez, há elementos persuasivos que contrariam essa explicação. No dia 13 de junho, antes da violência policial que afetou manifestantes durante a noite, uma pesquisa de opinião conduzida pelo DataFolha indicou que dois terços dos paulistanos consideravam o aumento das passagens excessivo e mais da metade da população da cidade (55%) apoiava os protestos que vinham acontecendo desde o dia 6. Esse grande apoio aos protestos, capturado pela pesquisa, precedeu a divulgação das cenas de violência policial contra manifestantes e jornalistas que chocaram a opinião pública no dia seguinte.

Na semana do dia 17 de junho, os protestos contra o aumento das passagens, que já estavam acontecendo em várias capitais, se ampliaram ainda mais e mobilizaram milhões de pessoas em todo o país. Outras pautas como o rechaço à classe política e à corrupção, críticas à Copa do mundo e a demanda por melhores serviços públicos se somaram à reivindicação por redução das tarifas de transporte, sem tirar dela sua dominância, como foi atestado por diversas pesquisas de opinião. A única pesquisa nacional realizada durante o auge dos protestos, nos dias 19 e 20 de junho, pelo IBOPE, indicou o preço das passagens de ônibus como a principal causa dos protestos, com larga margem à frente das outras demandas. Pesquisas locais conduzidas em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro deram resultados semelhantes. Foi essa clareza, aliás, que levou governantes de todo o país a revogar o aumento das passagens de ônibus, beneficiando 70% dos brasileiros que vivem nas grandes e médias cidades.

Apesar dessas evidências, formou-se depois uma espécie de consenso esclarecido em torno do papel acidental da demanda pela redução do custo das passagens nas manifestações de junho de 2013. É essa aposta que permite que o prefeito e o governador arrisquem agora um aumento não de 20, mas de 50 centavos.

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