Tarifa zero e o nonsense

Outro dia desses tropecei numa matéria com declarações do secretário de Transporte de São Paulo, Jilmar Tatto (aqui: http://viatrolebus.com.br/2015/10/tatto-fala-sobre-tarifa-zero-e-subsidio-ao-transporte-publico/). Entre os assuntos, a tarifa zero. Não estão lá as perguntas, nem muito de contexto, apenas algumas breves declarações do secretário. Melhor seria se as perguntas estivessem lá, mas é crível que estas tenham sido as falas do secretário, coerentes com outras declarações ao longo dos anos. Me parece, como sempre, que entram em cena desculpas que operam na superfície para impedir que os motivos mais profundos sejam revelados. Motivos que passam pelo bom andamento dos negócios dos parceiros e também pelo receio do significado que poderia ter na vida dos mais pobres e na vida política caso estes conquistassem o direito de realmente se deslocarem livremente nas cidades. Fala de empresa pública como fosse dele, uma empresa pública particular da vontade do próprio defensor das empresas privadas. A secretaria suportaria que a própria população determinasse as políticas de transporte universalizado? Vejam:

O Secretário disse ainda que no futuro a tarifa zero pode ser uma realidade, no entanto, a atual gestão não tem planos para isto. Para tornar a medida viavél, na avaliação de Tatto, seria criada uma empresa pública de transportes.

“Temos de tomar cuidado porque empresa pública tem um custo maior, como por exemplo com o salário do funcionário público, que é maior. Logo, a iniciativa privada, ao ver isso, vai querer equiparar o recebimento por este custo maior no sistema como um todo para sua lucratividade” – disse Tatto.

Pedi ao Lúcio Gregori que fizesse um comentário e ele respondeu o seguinte:

Às vezes me parece que a questão da Tarifa Zero mexe com o bom senso e a inteligência das pessoas, suprimindo-os. Sinceramente essa declaração do secretário dos Transportes de São Paulo me parece confirmar essa hipótese.

Para implementar tarifa zero não é necessário que seja criada uma empresa pública. O sistema de contratação por custos também permite a tarifa zero, é óbvio. Contratação por custo operacional e taxa interna de retorno é como um fretamento. O poder público paga a empresa de ônibus esse custo pelo serviço prestado. Pode não cobrar esse custo integralmente do usuário (como na tarifa subsidiada), ou não se cobrar nada (que é a tarifa zero). O mesmo que faz o SUS, o Departamento de Trânsito. Quem pinta as faixas de pedestres nas ruas, fabrica, coloca e faz manutenção das placas de trânsito, fornece oxigênio para os hospitais do SUS etc? Empresas contratadas. E tudo isso é Tarifa Zero.

A segunda parte da declaração fica difícil de comentar porque não faz nenhum sentido. Se tem uma empresa pública com tarifa zero, onde fica a iniciativa privada ? Ao dizer que a empresa pública paga mais por que são funcionários públicos, de fato o secretário parece dizer que é melhor pagar menos, contratando empresas privadas. E aí, segundo um não-raciocínio, não dá pra fazer Tarifa Zero.

Realmente temos de tomar cuidado com a Tarifa Zero. Ela provoca, digamos, nonsense nas autoridades. Sabe o que fica parecendo? Que há uma enorme preconceito com a tarifa zero. A cada momento aparece um impeditivo. E cada impeditivo mais nonsense do que outro.

Freud explica esse tipo de preconceito…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *