Quem tem medo da política?

Janeiro, em geral, mês de férias dos estudantes e trabalhadores da educação e mês preferido de prefeitos e governadores para aumento na tarifa dos transportes. Chego em São Paulo no domingo e vou me atualizar sobre o que está acontecendo na cidade. Me deparo com um texto, uma opinião do Estadão1, que só não denomino como realismo fantástico, por que seria profundamente injusto com as belas obras literárias assim classificadas.

Penso se vale a pena escrever sobre isso e me recordo de algo que venho conversando há algum tempo: temos que começar a levar a sério os absurdos com os quais nos deparamos. Afinal, se até pouco tempo achávamos motivo de chacota escutar pessoas defendendo a ditadura militar, julgando ser somente um pequeno grupo de lunáticos, em 2015 vimos muitos desses pelo Brasil se manifestando em vias públicas e publicando suas selfies com a tropa de choque.

O texto traz várias pérolas e fico imaginando como os profissionais do Estadão, nada ingênuos – para usar um termo deles – devem ter se divertido o escrevendo. Aqui, me deterei em duas que julgo ser importante debatermos. A primeira se refere a descoberta de que o MPL é “uma organização politizada”. O que será que o Estadão pensava que o movimento fosse até esta data? Um bloco de carnaval? Um clube de ladies? É óbvio que um movimento social que coloca em disputa uma concepção sobre o que é a cidade e quem deve ter direito a ela é politizado. O que está em jogo aqui é uma ação orquestrada de governantes e parte significativa da imprensa em desqualificar a palavra política para que só eles possam fazê-la. Parte dessa desqualificação é colocar como sinônimo de política os partidos (“é preciso convocar amigos, grupos políticos – e pensar que o MPL se vangloria de ser apartidário”), sabendo da impopularidade dos partidos políticos no Brasil. Bem sabem os jornalistas do Estadão que os partidos políticos, em uma país que se diz democrático, são somente uma das muitas esferas de participação política e está longe de ser a mais importante quando se fala em transformação social e atendimento às reivindicações populares. Qual a intenção do jornal em colocar como contradição o fato do MPL ser apartidário –ou seja, não ser ligado a nenhum partido – e se relacionar com grupos políticos (partidos ou não) nas mobilizações contra o aumento? O que teme o Estadão ao ver a população participando politicamente, exigindo fazer parte das decisões que afetam as suas vidas?

Isso nos leva à segunda questão: a violência. Nota-se que, apesar de falar bastante sobre violência, não há uma linha sequer sobre a atuação da polícia militar a comando do governador Geraldo Alckmin, cuja as imagens dos descalabros que cometeu – e sempre comete – circularam pela internet. Aqui sim seria correto o uso da palavra cúmplice. Mas essa cumplicidade talvez não seja estranha a história desse jornal, não? É interessante notar também que esse texto nos remete ao inesquecível editorial da Folha de São Paulo, publicado em 13/06/2013, que, um pouco antes de classificar militantes do MPL quase como heróis, denominou-os, dentre outras coisas, de “jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária”.

O Estadão afirma ser violento o “bloqueio de vias importantes” e classifica as instruções que o movimento publicou sobre como fazer travamento de vias como atividades de uma “guerrilha urbana” (PS. Começo a achar que quem escreveu esse texto é esse mesmo pessoal que diz que vivemos um regime comunista no Brasil, chama o material sobre diversidade nas escolas de Kit Gay e afins, notam a semelhança? Na parte em que define os militantes como “frios e calculistas” pensei que estava lendo um roteiro do Chapolin Colorado).

PS. a parte, é só olharmos para a História e vermos como os poucos instrumentos que a população tem para se fazer ouvir sempre são classificados como violentos. Afinal, quem quer deter para si o monopólio de participação política, também quer definir quais ações são legitimas. Mas, concordemos com o jornal, e classifiquemos a “deliberada ação de complicar o trânsito” como violenta. Teremos que admitir que não há grupo mais violento do que aqueles que estão à frente das gestões públicas. A deliberada total falta de investimento real no transporte coletivo em São Paulo é que “complica o trânsito”, que impede a circulação das pessoas. Isso sem falar nas denúncias de desvios milionários, como no caso dos cartéis do metrô, das quais não temos nenhuma notícia de investigação. Poderíamos falar das enchentes, dos buracos, das inúmeras árvores caídas. Tudo isso decorrente da deliberada falta de ação do poder público. Para não ficarmos só na falta de ações, poderíamos falar sobre as que são realizadas: o que para mais o trânsito, um ato de duas horas ou a praça de guerra montada pela polícia, cujo o inimigo a ser exterminado é a população, a mando do governo do Estado? Fechar estação de metrô pode, parar o trânsito para os carros, não. É isso? E nem vou entrar na questão da tarifa, que como sabemos, exclui milhões de pessoas do acesso à cidade e nas taxas de lucros dos empresários de transporte.

O que o Estadão sugere para a população (e aqui eu não estou incluindo a FIESP e seus afins, tá?) que nunca é ouvida por aqueles que são ditos seus representantes? Fazer um abaixo assinado? Online ou no método antigo, mesmo?

Recentemente, centenas de escolas públicas foram ocupadas contra o projeto de reorganização do ensino que fecharia dezenas de escolas no Estado de São Paulo. Nem as ocupações fizeram com o que o governo do Estado se dispusesse a conversar. Quem se importa se pobre está tendo aula ou não, não é mesmo? Foram os atos de ruas – fechadas para carros, mas abertas para as pessoas – somadas as ocupações, que fizeram com que os estudantes fossem ouvidos e o governador fosse obrigado a recuar do seu projeto arbitrário. O Estadão, o prefeito e o governador sabem disso. Por isso atacam os protestos de rua tão veementemente.

Há uma terceira questão – que merecerá uma discussão à parte – que é a espontaneidade. Para o Estadão, como para muitos, parecem ser legítimos “os protestos espontâneos, puros, ditados pela indignação”. Por que os indignados não podem estar organizados? Quem tem medo da organização da população?

Por fim, ao ler os comentários dos leitores do Estadão que o referido jornal selecionou para publicar em sua página, fica a pergunta de quem é que realmente “se deixa usar como massa de manobra”, já que não há entre os selecionados empresários de transporte e gestores públicos. O Estadão bem sabe como a massa que ele manobra é bem útil aos seus propósitos.

1 A verdadeira face do MPL, Opinião, O Estado de São Paulo, 17/01/2016.

One Reply to “Quem tem medo da política?”

  1. É isso aí Marina.
    Eles têm pelo menos três medos: de povo entender de política; dos jovens não Katakata, desnudarem as velhas tramas e de perderem o monopólio da dita informação.
    No fundo , no fundo, já eram.
    Virginia Woolf já não dava bola pra eles…Ninguém mais tem medo de lobo mau.

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