Para seguir adiante

Gostaria de ser menos vulnerável, mas não consigo. Essa conjuntura me abala bastante. Perco a cabeça e me deprimo. Pra transformar um quinhãozinho das coisas no sentido de ampliar um pouco as possibilidades de viver – possibilidades que o partido do dinheiro não permite – é preciso um esforço imenso. Imenso.

Todo mundo que militou/milita mais ou menos sabe o quanto a vida fica dura. As reuniões, os estudos, os enfrentamentos, internos e externos, são muito excitantes e nos levam a conhecer potências bastante vivas, mas também nos desgastam. Os espaços se misturam, na camaradagem, amizade, amor. Eventualmente tudo desmorona ao mesmo tempo. A luta toma nosso tempo. Aliás, a vida sob o capitalismo é uma máquina de roubar nosso tempo de vida, que já não é lá muito longo.

E assim, ao ver ao vivo que ainda é tempo de sérgio buarque de hollanda, darcy ribeiro, caio prado jr e florestan fernandes; que ainda é aquele brasil de sua elite brutal e colonialista, assassina e estúpida, tomando o brinquedinho na hora que bem entender, seja durante o governo, seja para derrubar o governo… Penso no que será o futuro breve.

Como levar em consideração, em primeiro lugar, a necessidade e o desejo de viver. No que apostar? Por que, afinal, tocamos a vida e a luta adiante? Estou falando em níveis bastante cotidianos mesmo: ouvir música, estudar, conversar, ter amigos. Depois, ou ao mesmo tempo, como desejar o impossível e ponderar as expectativas? Como encarar a dura realidade mas também não aceita-la? Como usar todas as forças possíveis ao nosso favor? Como disse um amigo ontem, toda possibilidade de produzir um instante de vida nos interessa. Ele falava das coisas que podem surgir em janelas de liberdade, como por exemplo foi o caso do ‘nascimento’ da psicanálise entre reinados autoritários e o nazifascismo. Nesse sentido, toda janela pode e deve ser aproveitada. Todo equipamento público que oferece serviços e assim interrompe um ciclo de vida voltado apenas para o trabalho. Todo estudo para desalienação e não para formação imediata e sem crítica. Todo movimento social independente para poder ser verdadeiro e forte e congregar pessoas que sofrem isoladas. Toda interdição às coisas policiais e judiciais que utilizam a lei para cometer o crime contra a população pobre, como diria a música dos Specials, e não para protege-la da violência do interesse dos mais ricos. Toda possibilidade de redesenhar a cidade, seja dentro ou fora de governos, para que existam espaços e deslocamentos públicos, de convívio, conversa e brincadeira permanentes e protegidos do interesse do uso do mercado. Erotizar essa parada, no sentido de mais aproximação.

Fazer valer nosso tempo e protege-lo da invasão do mercado de deus e da família tão invocado hoje por esses elementos recalcados que retornam e retornam para empobrecer nossa democraciazinha inibida na meta, mas que pode vir a ser muitas outras coisas.

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