Viva 26 de Outubro !

Viva 26 de outubro!

Lúcio Gregori

Hoje, dia 26 de outubro é dia nacional de luta pela Tarifa Zero.

Não posso deixar de escrever algo a respeito e propor algumas ideias.

Em quinze de outubro de 2005 tive meu primeiro encontro com o Movimento Passe Livre. Depois disso tem sido 11 anos de encontros com o movimento.

Aprendi muita coisa nesse tempo e com esses encontros. Talvez a principal tenha sido rever meus conceitos e ideias a respeito do Estado e da forma pela qual se dá a produção e reprodução do seu poder e, ao mesmo tempo de sua fraqueza diante do outro poder chamado Mercado. Como se ambos fossem    anônimos. Mas aprendi nesse tempo, que o Estado e o Mercado  são abstrações conceituais para manter um povo unido como país.  Mas ao mesmo tempo percebi como essas abstrações estão ancoradas em realidades muito estruturadas e muito fortes. Mais ainda: como nesse mundo, a um só tempo abstrato e concreto, não há lugar para certas pessoas, como os jovens, os velhos e os subalternos.

A mobilidade é hoje para mim decididamente um tema que, como poucos,   pode desnudar essa imenso jogo de cena que é a chamada organização social e suas derivadas concretudes.

As sistemáticas manifestações do MPL, toda vez que acontece um reajuste tarifário, sempre reiteraram a necessidade de se ter outro entendimento sobre mobilidade via tarifa zero e tiveram  em 2013  seu ponto mais alto até aqui.

Já li centenas de textos, interpretações e análises  sobre as “Jornadas de Junho”. Raramente se referem ao núcleo central que as  disparou . Ou ao resultado final que foi a revogação do aumento das tarifas em mais de cem cidades no país e a aprovação da PEC que incluiu o transporte como direito social na Constituição Federal, artigo sexto. Fica a pergunta, porque será? Convido-os a responderem.

Quem sabe o MPL precise trabalhar essa questão para calibrar sua atuação.

Com a possível aprovação da PEC 241, o horizonte de aporte de recursos federais para garantir a observância  do transporte como direito social fica muito longe, se não impossível de ser concretizado.

Isso significa que a luta pela Tarifa Zero, passa necessariamente pela luta mais ampla pelos serviços públicos efetivamente de qualidade e para todos e, agora,  pela luta contra a PEC 241.

Nesse sentido, penso que a questão da mobilidade, com seus significados profundos no imaginário da sociedade e no relevante papel que desempenha na manutenção das diversas segregações, nas e das periferias, as raciais, em relação aos  pobres ,aos jovens, etc.,  pode e deve ser um elemento central de luta política mais ampla.

A Tarifa Zero pode ser a um só tempo, um desafio para ser entendida e, ao mesmo tempo, uma proposta com alto conteúdo pedagógico e, ao final, de fácil entendimento. O lema, “por uma vida sem catracas” tem um altíssimo potencial de discussão sobre as citadas conceituações de Estado, Mercado e sociedade em geral.  Ou seja, tem um alto potencial transformador.

Há uma difícil intersecção entre um movimento popular e o que está estabelecido no mundo da organização política e social, seja no âmbito do Estado ou do Mercado.

Como resolver e atuar tendo em vista tudo isso?  Eis uma boa questão a ser discutida.

Não se tenha dúvida. Quando associados de maneira radical como agora, o Estado e o Mercado  sabem muito bem como fazer os arranjos institucionais, legais e de repressão, para fazer valer o interesse daqueles que os dominam. Está aí PEC 241 que de modo bárbaro, para dizer o mínimo, restringe (por vinte anos!) os gastos públicos, exceto aqueles destinados ao pagamento de juros da dívida pública.

Na linguagem do MPL, “uma catracada prá valer”.

Diante disso, reivindicar Tarifa Zero precisa estar associado a questões mais amplas colocadas pela conjuntura, ou soará como um “despropósito”.

O que e como fazer? Sinceramente não sei.

O que se pretende aqui é jogar isso para discussão.

Viva 26 de outubro!Abaixo as catracas! Viva a Tarifa Zero!

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