Mobilidade urbana num período de contradições pela governabilidade

por Lúcio Gregori

A mobilidade urbana é uma questão central para as sociedades contemporâneas e nelas desempenha diferentes funções.

Assim como a saúde é vista como indispensável para “ganhar a vida”, a educação como fundamental para “progredir na vida”, a casa própria como “propriedade contra o imponderável” e a segurança pública para “defender a propriedade e a segurança física”, a mobilidade pode ter seus próprios significados e representações.

A mobilidade física, posto que elemento fundamental para a mobilidade social, tal como nos casos citados, também adquire seus próprios significados com diferentes formas, concretas ou imaginárias. Ela poderá significar “liberdade para acessar o que quero e/ou preciso”. E poderá representar “rapidez“ e “agilidade”, e assim por diante.  Continue reading “Mobilidade urbana num período de contradições pela governabilidade”

Para seguir adiante

Gostaria de ser menos vulnerável, mas não consigo. Essa conjuntura me abala bastante. Perco a cabeça e me deprimo. Pra transformar um quinhãozinho das coisas no sentido de ampliar um pouco as possibilidades de viver – possibilidades que o partido do dinheiro não permite – é preciso um esforço imenso. Imenso.

Todo mundo que militou/milita mais ou menos sabe o quanto a vida fica dura. As reuniões, os estudos, os enfrentamentos, internos e externos, são muito excitantes e nos levam a conhecer potências bastante vivas, mas também nos desgastam. Os espaços se misturam, na camaradagem, amizade, amor. Eventualmente tudo desmorona ao mesmo tempo. A luta toma nosso tempo. Aliás, a vida sob o capitalismo é uma máquina de roubar nosso tempo de vida, que já não é lá muito longo. Continue reading “Para seguir adiante”

Tarifa zero e o nonsense

Outro dia desses tropecei numa matéria com declarações do secretário de Transporte de São Paulo, Jilmar Tatto (aqui: http://viatrolebus.com.br/2015/10/tatto-fala-sobre-tarifa-zero-e-subsidio-ao-transporte-publico/). Entre os assuntos, a tarifa zero. Não estão lá as perguntas, nem muito de contexto, apenas algumas breves declarações do secretário. Melhor seria se as perguntas estivessem lá, mas é crível que estas tenham sido as falas do secretário, coerentes com outras declarações ao longo dos anos. Me parece, como sempre, que entram em cena desculpas que operam na superfície para impedir que os motivos mais profundos sejam revelados. Motivos que passam pelo bom andamento dos negócios dos parceiros e também pelo receio do significado que poderia ter na vida dos mais pobres e na vida política caso estes conquistassem o direito de realmente se deslocarem livremente nas cidades. Fala de empresa pública como fosse dele, uma empresa pública particular da vontade do próprio defensor das empresas privadas. A secretaria suportaria que a própria população determinasse as políticas de transporte universalizado? Vejam: Continue reading “Tarifa zero e o nonsense”

Aumento de tarifa cancelado em Belo Horizonte

bh

Mais uma vitória! Viva a luta da população, do Tarifa Zero BH e doMovimento Passe Livre – BH! Na torcida para que este importante passo inspire a luta que deverá seguir. Empresários e seus defensores no governo certamente não tardarão em responder este revés.

Justiça cancela aumento de passagens de ônibus em Belo Horizonte

por Bárbara Ferreira

O reajuste de 9,7% havia sido autorizado pela prefeitura no início de agosto, a partir de um pedido do Setra

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Invertendo prioridades: uma política que possa unificar o campo de esquerda

Só uma correção a respeito do artigo abaixo: o MPL tentou, e tenta, fazer esse movimento político de inversão a que se refere Reginaldo, apontar a idiossincrasia do sistema de tributação e redistribuição de riqueza no Brasil, onde os muito ricos pagam pouco imposto em proporção aos seus rendimentos e o Estado não aplica o suficiente do PIB em serviços públicos essenciais. Perversão total. Esta política se apresenta na frase em que o movimento busca sintetizar sua missão, ao mesmo tempo pontual e ponto nodal dos conflitos da nossa sociedade arcaica de classes: “Tarifa zero paga pelos ricos”.

Certa esquerda ou não o percebeu, ou percebeu e se movimentou também politicamente para desqualificar a demanda de que os direitos sociais tenham prioridade sobre as limitações da inclusão pelo mercado, que estes direitos sejam ampliados e custeados pela elite protegida pelo Estado. Convencê-la também poderia humildemente estar entre os nossos planos, levando em consideração a complexa mediação de projetos de sociedade na qual assumiram responsabilidade. Mediação que carece da força do lado esquerdo no momento. Muito por responsabilidade dos processos deste campo, que já são conhecidos pelos textos e por experiência; processos que enfraqueceram a força social popular independente, e falo mesmo da força social do próprio partido. De qualquer forma, venho pensando em como pode ser importante abrir uma porta para que setores hoje desqualificados e descartados como governistas, mas que não fazem parte da máquina propriamente dita e aspiram emancipações à esquerda, somem-se a essa perspectiva estratégica crítica. Pode ser uma aposta ingênua, mas não tem jeito, cresci ouvindo Sham 69. If the kids are united, they will never be divided…

Levo em consideração que nossa responsabilidade é com o futuro, mas também com as gerações do presente.

Que os super-ricos paguem a conta ou como tirar a classe média da influência da direita

Nos últimos anos, os bilionários brasileiros e seus cães de guarda na mídia perceberam que podiam conquistar o ressentimento da classe média para jogá-la contra os pobres, os nordestinos, os negros, tudo, enfim, que se aproximasse dos grupos sociais que fossem alvo de políticas compensatórias, de redistribuição. E contra governos e partidos que tomassem essa causa. E a esquerda, de certo modo, assistiu a essa conquista ideológica sem ter resposta. Uma resposta política: a criação de movimentos reformadores que fizessem o movimento inverso, isto é, colocassem essa classe média contra os altos andares da riqueza. Nós não soubemos fazer isso”, escreve Reginaldo Moraes, em artigo publicado por Brasil Debate, 10-09-2015. Continue reading “Invertendo prioridades: uma política que possa unificar o campo de esquerda”

Deslocamento será considerado trabalho pela União Europeia

Notícia interessantíssima direto do velho continente (no final do texto): Tribunal de Justiça da União Europeia considera que o deslocamento faz parte do trabalho e não apenas a realização da atividade. Sim, a decisão se limita a determinados tipos de trabalhos (os trabalhos que não são realizados em escritórios), mas coloca esta questão da mais alta relevância, tanto para as políticas de transporte como para as políticas trabalhistas, no devido lugar. O significante está exposto, tal como agora o transporte figurar entre os demais direitos essenciais na Constituição Federal brasileira. Passo importante para elaborá-lo política e intrapsiquicamente, para deslocar o significado de trabalho e deslocamento, com perdão dos trocadilhos. Continue reading “Deslocamento será considerado trabalho pela União Europeia”

Transporte agora é no texto o que sempre deveria ter sido: um direito

Excelente notícia que o Lúcio Gregori acaba de trazer: segunda votação da PEC 74, a emenda constitucional que insere o transporte entre demais direitos essenciais, rolou e a aprovação foi por unanimidade. Será promulgada dia 15.

Imensa vitória estratégica. Um instrumento precioso para a população e seus movimentos demandarem políticas de acesso universal à cidade!

Vitória da luta de junho de 2013 – daquele junho de 2013 anterior ao manejo oportunista da direita – que colocou a PEC em andamento depois de dois anos de lentidão burocrática.

Sem luta a vida não muda.

A notícia que gostaríamos de ler: “Haddad retoma o para o poder público o sistema de transporte”

Como disse Luiza Erundina em janeiro de 1989 no discurso publicado aqui ontem: “só haverá uma solução definitiva do problema dos transportes coletivos quando esse serviço for inteiramente municipalizado, e a Prefeitura, junto com o povo, puder exercer seu controle total sobre essa atividade essencial de uma grande metrópole.”

Haddad, mais controle público, não o contrário, é o que apontará para a socialização do transporte coletivo em São Paulo.

Haddad transfere para empresas 29 terminais de ônibus

A gestão Fernando Haddad (PT) se valeu de um trecho do contrato de concessão do sistema de transportes de 2003 – que nunca foi aplicado – e, sem nenhuma publicidade nem debate, repassou a gestão dos 29 terminais de ônibus da cidade às concessionárias que operam os coletivos da São Paulo Transporte (SPTrans). Os terminais estão sendo operados pelas empresas desde o mês passado. Continue reading “A notícia que gostaríamos de ler: “Haddad retoma o para o poder público o sistema de transporte””

Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina

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Seguindo as pesquisas sobre o período em que surgiu o Projeto Tarifa Zero, topei com este livro de Ivo Patarra, O Governo Luiza Erundina – Cronologia de quatro anos de administração do PT na cidade de São Paulo. Patarra foi assessor de imprensa daquela prefeitura entre 1990 e 1992 e fez uma espécie de um diário rigoroso dos acontecimentos e não-acontecimentos daquela gestão. A amplitude de pautas do livro é tão grande quanto são os conflitos desta imensa cidade e será possível ter uma razoável dimensão das forças em disputa daquele período. Fica a recomendação da leitura completa deste livro, lançado em 1996 pela Geração Editorial, assim como o livro de Paul Singer (Um governo de esquerda para todos, editora Brasiliense), cujo capítulo sobre transporte está disponível na íntegra no site.

Mas o objetivo aqui é recuperar os trechos sobre transporte coletivo (tarifa zero, municipalização, ampliação da frota e da oferta) e as disputas em torno da arrecadação municipal e a opção daquele governo em tentar inverter a radical desigualdade tributária que ganhava corpo e consequêcia nos serviços públicos, na precária garantia de direitos essenciais. Questões ainda bastante concretas na nossa democracia parcial e desigual, atravessada pelos interesses de mercado que pairam acima do bem estar físico e psíquico de uma população impedida de desenvolver sua plena potência pelo desgaste de tempo necessário para uma não-vida de puro trabalho sem proteção e sem futuro. Continue reading “Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina”

A senha está em Silva Jardim

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Notícias do que poderia ser o impacto da ampliação de direitos no desenvolvimento econômico das cidades – o que não parece ser a prioridade dos representantes do nosso capitalismo escravocrata e regredido. Neste caso, resultados imediatos da tarifa zero na cidade de Silva Jardim, RJ: ao não precisar mais pagar a passagem para usar o transporte, o sujeito terá mais dinheiro para outras coisas da vida cotidiana, outras necessidades que ficavam de fora do orçamento curto deste país de extremos negativos.

Há de se lembrar que o modelo de transporte hoje ainda hegemônico (custeado pela tarifa de quem o utiliza) tem como resultado manter o deslocamento sempre entre os principais gastos de brasileiros e brasileiras, de acordo com as pesquisas de orçamento familiar do IBGE. Continue reading “A senha está em Silva Jardim”

Jovem baleado por funcionário da empresa de transporte em BH por desejar se deslocar pela cidade mesmo sem ter grana

No Rio, jovens pobres impedidos de circular pela cidade, na região metropolitana do Belo Horizonte, jovem é assassinado ao tentar se deslocar pela cidade mesmo sem ter dinheiro para pagar. Para além dessas tragédias escancaradas, muitas pequenas misérias silenciosas se repetem dia após dia, fruto do impedimento da vida circular.

Tarifa zero e transporte abundante custeado pelos setores mais ricos da sociedade é uma questão de bem estar, segurança, desenvolvimento econômico, político e amoroso para a população.

do R7: Jovem baleado por fiscal do Move morre em Belo Horizonte  Continue reading “Jovem baleado por funcionário da empresa de transporte em BH por desejar se deslocar pela cidade mesmo sem ter grana”

A rebeldia compensa!

Fala de Lúcio Gregori na abertura do evento Cidades Rebeldes no dia 9 de junho de 2015, a partir de 1 hora e 10 minutos.

“A rebeldia compensa. É uma conclusão que cheguei clara e firmemente depois de 2013. Compensou pela revogação do aumento da tarifa em mais de cem cidades. Mas tem outros exemplos que mostram que ela compensa porque o aparato político brasileiro dos partidos, inclusive os de esquerda, não está preparado para absorver a rebeldia, para entender e lidar com a rebeldia. Existe um movimento chamado Rede Butantã, que fez um grupo de mobilidade, e que fez um projeto detalhado do sistema de transporte coletivo desejado pela população naquele local. E protocolou esse estudo, através de debates na subprefeitura, na secretaria dos Transportes etc. Que resposta teve? Nenhuma! O aparato formal da participação popular no Brasil não sabe lidar com isto. Mas na outra ponta, o movimento de transporte Extremo Sul, associado ao Movimento Passe Livre, no fundão da Zona Sul de São Paulo, Marsilac e tantos outros lugares, fez uma rifa, com esta rifa contratou um transporte coletivo à tarifa zero que serviu à população durante um tempo. E mais, interviram, interrompendo uma aula que o prefeito de São Paulo dava na Universidade de São Paulo, pelo que foram seguramente muito criticados por muitos, por fazer um ato dessa natureza, convenceram o prefeito a ir a Zona Sul, ele foi, e como resultado disso a prefeitura vai criar uma linha de transporte coletivo. E mais, vai criar uma linha de transporte experimental por 180 dias à tarifa zero! Conclusão: a rebeldia compensa!”

 

A tarifa como controle social e o racismo neoliberal

por Movimento Passe Livre Rio de Janeiro

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Polícia Militar já declarou que vai aumentar seu efetivo de agentes para supostamente conter os arrastões nas praias na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na prática, a tal OPERAÇÃO VERÃO tem como meta promover revistas e coação nos ônibus vindos da Zona Norte, principalmente das favelas do Jacarezinho e do Complexo do Alemão. Não por coincidência, os principais alvos dela são os usuários negros desse transporte coletivo. E isso tem ocorrido não só no município do Rio, mas em outras cidades do Estado do RJ. Continue reading “A tarifa como controle social e o racismo neoliberal”

Agora iremos para onde quisermos, quando quisermos e com quem quisermos

Antes de conquistarmos essa coisa louca que é a tarifa zero, cada um e cada uma de nós era forçado pelo sistema do tédio e da exploração na vida urbana à apenas esta série de passagens obrigatórias: o transporte para a escola ou o trabalho, a deprimente caminhada da tarde rumo aos lugares de consumo, em que se consome aquela mercadoria de massa que é o tempo livre.

A própria existência era assim vivida em espaços fechados, predefinida pelos próprios espaços. E não existia a possibilidade, dentro da sua utilização “convencional”, de sair do esquema já definido. Catracas. Abstratas, mesmo sendo concretas. Agora iremos para onde quisermos, quando quisermos e com quem quisermos.

Tarifa zero e o (im)pacto social

por Daniel Guimarães

O chocante texto de Hildegard Angel sugerindo, como medida para reduzir a violência na cidade do Rio de Janeiro, a redução dos horários de ônibus nas linhas que ligam a Zona Norte às praias da Zona Sul revela um dos sentidos fundamentais da existência da tarifa do transporte público.

Penso que o deslocamento dos trabalhadores e trabalhadoras e de consumidores e consumidoras para os locais de produção de riqueza é a face pré-consciente, supostamente razoável, em uma sociedade que não condena essa violência disfarçada. Digo pré-consciente pois o discurso nunca é claro dessa forma, sugere-se que já hoje o transporte coletivo tem como finalidade garantir o direito de ir e vir da população. Uma verdade parcial, para ser otimista, pois a existência da tarifa e a baixa oferta de transporte em bairros distantes e em horários “improdutivos” impedem esse direito.

Mas acredito que o motivo profundo para a existência da catraca e da tarifa, a despeito de todas as possibilidades técnicas e políticas de bancar a tarifa zero, é o controle dos deslocamentos da população mais pobre. Para que os pobres, pretos e as pretas periféricas não acessem os mesmos lugares que a classe dominante, os patrões, a casa grande. São palavras duras e há quem diga que não fazem mais sentido, mas discordo: a tarifa é um elemento de controle territorial de classe. Continue reading “Tarifa zero e o (im)pacto social”