Vou responder para a SPTrans sim. Para o prefeito Fernando Haddad também

por Graziela Kunsch

Ontem, dia 14 de janeiro, recebi um email da SPTrans que tinha como remetente “Não responda” (no lugar onde aparece o nome de quem envia o email) e “[email protected]” como endereço de email. O texto do email era assinado pelo secretário municipal de Transporte de São Paulo, Jilmar Tatto, e defendia o uso do bilhete mensal, argumentando que ele é mais barato que o bilhete único comum. O que o secretário esqueceu de mencionar nesse email é que o bilhete mensal só ficou “mais barato” porque a prefeitura e o governo do estado aumentaram as tarifas nos ônibus, trens e no metrô em 50 centavos e deixaram o bilhete mensal – que tinha apenas 1% de adesão da população – congelado. Como resumiu o professor de políticas públicas Pablo Ortellado, “Bilhete mensal: antes era caro, agora ficou barato. Mas é o mesmo preço. Entendeu?”. Daniel Guimarães, aqui do TarifaZero.org, comparou a “promoção” do bilhete mensal com os preços da Black Friday no Brasil: “Tudo pela metade do dobro”. Também é divertido ler as respostas que o twitter do prefeito recebeu no dia 9. Enquanto acontecia o primeiro grande ato contra a tarifa, no centro da cidade, com aproximadamente 20 mil pessoas nas ruas, o prefeito comemorava um suposto aumento de 1.000% de adesão ao bilhete único. Por que será, né, prefeito?

Mas a minha maior motivação para escrever este pequeno texto foi a entrevista que Fernando Haddad deu para Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo. Não poderia deixar de comentá-la e respondê-la. Continue reading “Vou responder para a SPTrans sim. Para o prefeito Fernando Haddad também”

O que a Tarifa Zero, os bancos e as concessionárias de automóveis poderiam ter em comum mas ainda não têm

Por Graziela Kunsch
Colaborou Daniel Guimarães

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Escrevo este texto a partir da experiência da manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre no dia 19 de junho de 2014 em São Paulo e a sua repercussão na imprensa. Esclareço desde já que o texto é assinado por mim individualmente e que não falo em nome de ninguém. Busco apenas contribuir como pessoa que estava presente no ato e que ainda se choca com as distorções desleais feitas por alguns jornalistas dos veículos de imprensa hegemônicos, que estavam igualmente presentes. Farei uma reflexão sobre o que o ataque a agências bancárias e concessionárias de automóveis poderia ter a ver com a luta pela gratuidade no transporte, mas que no ato do dia 19 não teve; além de uma crítica à criminalização dos movimentos sociais. Escolhi me posicionar diante do que considero uma tática equivocada para o nosso momento atual, mas tenho a clareza de que a verdadeira violência é promovida pelo Estado, tanto pela sua polícia como pelas suas políticas públicas distorcidas, que servem mais a interesses privados.

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[São Paulo] Túnel Av. Paulista – Dr. Arnaldo: vídeo do ato por Tarifa Zero de 19/6

clique aqui se preferir ver diretamente no Vimeo, em janela maior

Comemorando um ano da revogação do aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus, trem e metrô na cidade de São Paulo, o Movimento Passe Livre realizou um ato por TARIFA ZERO e pela readmissão de 42 metroviários, demitidos por terem feito greve parcial. O ato aconteceu durante um dos jogos da Copa do Mundo mas, no lugar do mote “Não vai ter copa”, o movimento propôs a frase “Não vai ter tarifa”. Este pequeno vídeo mostra um dos momentos da manifestação.

Dez sugestões de perguntas para o Datafolha

Hoje, 29 de junho, a Folha de S. Paulo publicou uma pesquisa na qual 65% dos entrevistados seriam contra a tarifa zero no transporte público. Ocorre que a pergunta do Datafolha para os entrevistados não foi “Você é a favor da tarifa zero no transporte público?”, mas: “As prefeituras deveriam parar obras e serviços e investir dinheiro de impostos para cobrir o custo total do transporte ou deveriam manter investimentos em obras e serviços?”. Achando graça da cara de pau do jornal, faço aqui dez sugestões de reformulação da pergunta, para pesquisas futuras:

1. Você é a favor da tarifa zero no transporte público?
2. Você é a favor de um aumento no IPTU de bancos, shopping centers e mansões para subsidiar a tarifa zero no transporte público?
3. Você é a favor da tarifa zero no transporte público se o dinheiro vier da suspensão do pagamento da dívida com os banqueiros? Continue reading “Dez sugestões de perguntas para o Datafolha”

A luta por transporte é muita coisa!

Uma menina me perguntou no Facebook por que o Movimento Passe Livre, nas palavras dela, “exclui outras pautas”. Segue a minha resposta para ela:
Antes, esclareço que eu só posso falar por mim, o movimento são muitas pessoas. Dito isto, a luta imediata que me interessa é a revogação do aumento. Entenda que isso já é muita coisa! O transporte deve ser compreendido como um direito fundamental, que inclusive conecta/dá acesso a muitos outros direitos. No Brasil 37 milhões de pessoas estão excluídas do transporte chamado “público” e consequentemente excluídas das escolas “públicas” e dos hospitais “públicos” porque não podem pagar os ônibus para chegar a esses espaços. O mesmo vale para centros culturais gratuitos, parques abertos, restaurantes populares… Assim, a luta por transporte é também luta por educação, por saúde, por cultura, por diversão… A economia no gasto do transporte aumentaria a verba para as famílias comprarem alimentos… Uma outra cidade e um outro país necessariamente passam por uma mudança radical na rede de transporte. Vamos dar um passo de cada vez. A grande imprensa e os alguns partidos políticos conservadores querem dispersar a luta, não vamos deixar isso acontecer! Dar um passo de cada vez não exclui outras pautas que as pessoas considerarem relevantes, mas nesse momento o que “está pegando”, não apenas em São Paulo mas também em várias outras cidades brasileiras, é a luta pelo transporte como um direito!

[São Paulo] Canção para o Movimento Passe Livre

Neste momento em que a imprensa tenta manipular a luta imediata pela revogação do aumento e a luta a longo prazo por tarifa zero, sugerindo uma luta “por outro país”, ou “contra a corrupção”, escolhi publicar na minha coluna aqui no TarifaZero a “Canção para o Movimento Passe Livre”, composta por Rodolfo Valente em 2006, para lembrar o verdadeiro motivo dessa revolta tão bonita que estamos vivendo na cidade de São Paulo. Por favor escutem e espalhem esta canção. De preferência em coro, nas ruas!

Canção para o Movimento Passe Livre
Rodolfo Valente

Para baixar clique aqui.

Para ouvir:

Clique em ‘continua’ para ler a letra. Continue reading “[São Paulo] Canção para o Movimento Passe Livre”

[São Paulo] “Falta de discernimento”, Folha?

A Folha de S. Paulo divulgou que sete de seus repórteres foram atingidos pela Polícia Militar na noite de 13 de junho de 2013, enquanto cobriam o quarto grande ato pela revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo. E disse que “repudia toda forma de violência e protesta contra a falta de discernimento da Polícia Militar no episódio”.”Falta de discernimento”, Folha? Então fora a imprensa tudo bem a polícia sair matando?

[São Paulo] TV desligada

Reproduzo aqui a tirinha de Tiago Judas para narrar os acontecimentos de hoje, 13/06/2013, da luta pela revogação do aumento nas tarifas do transporte coletivo. (“coletivo”, não “público”, porque para ser “público” deveria ser gratuito, garantindo a mobilidade urbana de toda a população). Clique na imagem para ver maior. Sem mais.

[São Paulo] O vídeo que fiz sem enxergar

Ontem, 11 de junho de 2013, logo após ter fotografado um casal de manifestantes se beijando no meio da Av. Paulista, com a multidão que luta pela revogação do aumento nas tarifas de ônibus, metrô e trem ao fundo, gravei este vídeo aqui (abaixo) com o meu celular. Eu estava num canto da calçada, terminando de publicar a foto do beijo na internet, quando a polícia começou a disparar bombas e mais bombas de gás lacrimogêneo com silicone. Muitas pessoas começaram a correr e eu escolhi ficar parada, pensando que assim estaria mais protegida de estilhaços e balas de borracha. Na verdade, isso me deixou mais exposta ao gás e eu passei muito mal. Consegui ligar a câmera do celular e apertar o botão para começar a gravar, mas meus olhos se fecharam e durante toda a realização desse vídeo eu não enxerguei nada. Meus olhos queimaram, a garganta queimou e tive muita dificuldade para respirar. Por duas vezes senti que ia desmaiar, mas um menino – que não conheço e não sei quem é – me segurou em seus ombros até me tirar dali. Ele pensava que eu não era uma das manifestantes e justamente por isso se preocupou ainda mais comigo (ao contrário do que muita gente pensa, que manifestante quer só atrapalhar a vida dos outros). Se esse menino não tivesse me tirado dali talvez agora eu estivesse presa, como foram presas tantas pessoas, de maneira arbitrária e completamente absurda. Até jornalistas foram presos, com o argumento de que estariam atrapalhando a ação da polícia – argumento aparentemente aceito e publicado pelo próprio jornal onde esses jornalistas trabalham. Atrapalhando como? Com um bloco de notas, uma câmera fotográfica? Será mesmo possível que os leitores e as leitoras dos grandes jornais não percebam que a verdadeira violência cometida nos atos vem da polícia? E que a revolta popular nasce de uma violência muito maior e anterior, que é cobrar para que pessoas possam se movimentar pelas cidades, excluindo todas as pessoas que não tiverem condições de pagar por isso, ou tornando cada vez mais precárias as vidas das famílias que já têm os custos de transporte entre seus maiores gastos? Acho que meu vídeo não dá a dimensão do terror que vivemos ontem na Av. Paulista e suas imediações, pois somente quem está sendo exposto a essas bombas de gás sabe o estrago que isso faz no corpo da gente. Mas escolhi publicar o vídeo assim mesmo, para dizer que não adianta fecharem nossos olhos. Nós estamos vendo.

O vídeo que fiz sem enxergar from grazi on Vimeo.

[São Paulo] O prefeito se recusa a dialogar

Ontem o Movimento Passe Livre protocolou um pedido de reunião na prefeitura, para debater a necessária revogação do aumento, e a prefeitura insiste em dizer que o movimento não quer dialogar! Que vergonha, Haddad! Violência é aumentar a tarifa e com ela a exclusão social. Violência são as muitas bombas de gás disparadas contra milhares de pessoas. Cito trecho de reportagem que acaba de ser publicada no G1: “O prefeito rebateu as declarações do Movimento Passe Livre que afirmou não incentivar a violência, mas que é impossível controlar a frustração e a revolta de milhares de pessoas com o poder público e com a violência da Polícia Militar. ‘É fácil lavar as mãos depois que aconteceu. Você promove um movimento e não tem capacidade de liderança e aí lava as mãos. Isso não é próprio da democracia. Democracia é assumir responsabilidades’, disse ele.” Não, prefeito. Democracia é democracia, responsabilidade é responsabilidade. Embate de ideias e conflito são condições de existência de uma democracia. Já responsabilidade é o que o senhor e o senhor Geraldo Alckmin têm sobre as polícias Civil e Militar. O Movimento Passe Livre não tem líderes por escolha, não por uma incapacidade. Haddad tem muito a aprender com esse movimento e deveria voltar de Paris e receber os manifestantes.

Não, Haddad!

E o Haddad solta numa entrevista que as manifestações estão impedindo o deslocamento das pessoas! Não, Haddad, as manifestações estão justamente lutando para que as pessoas se desloquem!