A voz das ruas e a mobilidade urbana

por Lúcio Gregori

Finalmente, a voz das ruas foi ouvida e cidades como São Paulo e Rio revogaram o aumento do preço das tarifas dos transportes coletivos. Agora, é preciso estabelecer novos instrumentos de democracia direta, para não limitar a participação popular às eleições.

O cancelamento do aumento das tarifas suscita a urgente necessidade do estabelecimento de políticas permanentes de subsídios e, no limite, a tarifa zero. A manifestação popular fez essas reivindicações. Ao obter a revogação, conseguiu restabelecer seu foco original, tornando perfeitamente identificável pela população o resultado concreto dessa forma de participação popular.

A PEC (proposta de emenda constitucional) 90, de iniciativa de Luiza Erundina, estabelece a mobilidade urbana e metropolitana como direito social nos termos do artigo sexto da Constituição, tal como a saúde e a educação. É um passo importante na direção de uma política que garanta e amplie o acesso universal aos serviços essenciais. Continue reading “A voz das ruas e a mobilidade urbana”

Lúcio Gregori fala sobre tarifa zero com Heródoto Barbeiro na Record

Idealizador do projeto “Tarifa Zero” comenta manifestações em São Paulo

Durante o governo de Luiza Erundina, Lucio Gregori esteve no cargo de secretário de Transportes de São Paulo. Em conversa com Heródoto Barbeiro, ele explica a ideia e dá sua opinião sobre o aumento da passagem.

Retirado de http://noticias.r7.com/record-news/2013/06/18/jornal-da-record-news-74/

As manifestações, a tarifa e a política

por Lúcio Gregori

O MPL e os demais movimentos, com as manifestações e a respectiva repercussão, trouxeram a questão dos transportes coletivos para onde deve se situar, ou seja, no campo da política

As manifestações promovidas pelo MPL e diversos outros movimentos e setores da sociedade civil contra o aumento das passagens dos transportes coletivos em São Paulo precisam ser entendidas em todos os seus aspectos.

Não se tratou de uma manifestação pontual contra o recente aumento das tarifas, que foram reajustadas abaixo da inflação por fator conjuntural e não por uma política tarifária permanente.

Foi uma manifestação para trazer à tona a discussão sobre a política de transportes públicos em geral e, particularmente, sobre a política tarifária, como se depreende das palavras de ordem e das entrevistas dos manifestantes. Continue reading “As manifestações, a tarifa e a política”

Os tempos de junho de 2013

Acompanhei nos jornais e na TV a cobertura das manifestações do MPL e outros movimentos, a propósito do aumento das tarifas de transporte coletivo, da reivindicação de subsídios e da tarifa zero.

Particularmente li no Estadão de domingo matéria sobre as manifestações, uma mini entrevista com Luiza Erundina e, ontem, a longa entrevista do Haddad.

Na matéria de domingo no Estadão chamou-me a atenção um trecho que diz: ” Marcelo disse que não queremos sentar para negociar etc” .

Fazendo uma retrospectiva de tudo que li e, ouvi , pensei o seguinte: Continue reading “Os tempos de junho de 2013”

Ciclo de Debates Pensando São Paulo: mobilidade urbana

por Lúcio Gregori

As cidades são o lugar de convivência e uma das mais notáveis tentativas humanas de refazer o mundo para melhorar as suas condições de vida. Nelas, a mobilidade das pessoas é fundamental para o convívio, tanto pelo modo como se deslocam como pela possibilidade de fazê-lo. Os modo coletivos ou individuais resultam em diferentes formas de relacionamentos interpessoais e, conforme o modo de custeio dos serviços e dos níveis de renda existentes, será ou não possível realizar todos os deslocamentos para a plena fruição da cidade. Não por outra razão chamamos de cidadania, que vem da palavra cidade, o exercício e o gozo dos plenos direitos democráticos e republicanos.

São Paulo 2012, cidade-país contida numa região metropolitana, é resultado de dezenas de anos de políticas de uso do solo centradas numa indústria imobiliária de grandes corporações e de especulação, e de políticas de mobilidade centradas no transporte individual motorizado em detrimento do coletivo, do pedestre e modos não motorizados. Assim, seu espaço urbano e viário é utilizado de forma francamente antidemocrática, prejudicando, se não impedindo o convívio e, ao contrário: transformando-o em disputa. Continue reading “Ciclo de Debates Pensando São Paulo: mobilidade urbana”

Reforma tributária tornaria possível tarifa zero* no transporte público de SP

por Gisele Brito, da Rede Brasil Atual

Engenheiro Lúcio Gregori, secretário de transportes na gestão Luiza Erundina, fala sobre os desafios da adoção de um sistema de transporte gratuito no Brasil

Debate na Universidade de São Paulo sobre a gratuidade universal no sistema de transporte público reuniu no último dia 8 o filosofo Vladimir Safatle, a relatora especial da ONU para moradia adequada, Raquel Rolnik, o engenheiro Lúcio Gregori, autor da proposta da tarifa zero* em 1990, quando exercia o cargo de secretário de transportes na gestão de Luiza Erundina (1989-1992), em São Paulo, e representantes do Movimento Passe Livre da cidade. Sob o mote de “Tarifa  Zero: Uma Realidade Possível” os debatedores foram unânimes em afirmar que a revindicação vai além de uma demanda específica e que é preciso incluir a mobilidade como um direito constitucional. O desafio para essa mudança, expuseram, passa por uma disputa político-ideológica. Para eles, a reivindicação põe diversos paradigmas do sistema vigente como o direito à cidade, a não-mercatilização da vida, e a liberdade em debate. Na entrevista a seguir, Gregori trata dessas questões e coloca o dedo na ferida: uma reforma tributária é fundamental para que cidades como São Paulo reassumam a responsabilidade pelos deslocamentos humanos. Continue reading “Reforma tributária tornaria possível tarifa zero* no transporte público de SP”

Tarifa nos transportes coletivos urbanos: uma iniquidade

Einstein dizia que é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Eu não sabia disso quando em 1990 propus a tarifa zero para os transportes coletivos urbanos no município de São Paulo. Era secretário dos transportes no governo da então prefeita Luiza Erundina.

Por ter sido anteriormente secretário de serviços e obras (e portanto responsável pelos contratos de coleta e destino final do lixo), pensei que o pagamento do transporte no ato de sua utilização era  injusto e pouco racional em termos de eficiência. Injusto porque os que pagam são os que menos têm condições de arcar com esse custo. Era, e continua sendo, enorme o número dos que andam a pé por não terem condições de pagar a tarifa. Pouco eficiente uma vez que o sistema de cobrança, à época, consumia quase 28% do arrecadado, além de ocupar cerca de quatro lugares por ônibus. A catraca não é somente grande e feia. Pode se constituir também, em um símbolo de humilhação.

O sistema proposto era de pagamento indireto do serviço de transporte coletivo, através de impostos e taxas do município, como no caso dos serviços de educação, saúde, segurança pública, coleta e destinação final do lixo. O nome Tarifa Zero é, na verdade, de fantasia. Continue reading “Tarifa nos transportes coletivos urbanos: uma iniquidade”

Ex-secretário de transportes defende tarifa zero

Lúcio Gregori foi secretário municipal de Transportes durante o governo da prefeita Luiza Erundina em São Paulo. Nesta entrevista ao Outras Vias, ele comenta o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo e nas demais metrópoles do país e fala sobre o projeto que tentou implementar durante seu governo e que defende até hoje: a tarifa zero para transportes públicos. Um dos inspiradores do Movimento Passe Livre,  Gregori defende que é preciso uma política nacional para melhorar a mobilidade urbana e defende que não faz sentido se pensar em economia como uma área separada da política. Confira os principais argumentos do ex-secretário separados por tópicos. Continue reading “Ex-secretário de transportes defende tarifa zero”

Música: Tarifa Zero

Música de Lúcio Gregori, letra de Rogério Santos.

Para baixar, clique aqui.

Para ouvir sem baixar:

Tarifa Zero
(Rogério Santos)

Vou andar com fé
Da Lapa a Penha, do Ó a Sé

Eu já pedi pra São Gregório pra me ajudar
A sola do meu sapato vai acabar
De coletivo tá muito caro
Tarifa zero vai salvar o  meu salário

Como andar com fé
Da Lapa à Penha .do Ó à Sé?

O meu pedido já bateu: engavetado !
Picareta se elegeu no nosso bairro
Vereador anda de carro
Enquanto o pobre, só se for presidiário

Sei que até Jesus
Se quiser deixar Belém
Vai ver a cruz que aqui tem

Vou andar com fé
Da Lapa à Penha, do Ó à Sé

O meu pedido já bateu engavetado
Por um cara de madeira envernizado
Vou seguir a minha  sina  de dromedário
Colocar a meia-sola no meu sapato

Amigos, amigos, negócios à parte. Ou, amigos, amigos e negócios sobretudo

Vejo as dúvidas e perguntas de André Caon Lima sobre tarifa zero em Hasselt e os comentários de Affonso ao texto do Xavier “Ônibus aumentarão em 2010 – Pra Quê?”.

Como disse em vários encontros com o pessoal do MPL, sempre que se fala em tarifa zero devemos nos preparar para receber uma coleção de frases feitas, ou ditos chamados de populares, para questionar, contestar ou mesmo desqualificar a proposta.

Almoço de graça não existe e queijo de graça só na ratoeira, o que você dá é o que você recebe (citado como what you give is what you get), foram apresentados nesses questionamentos.  Eu acrescentaria, por exemplo, o que é de graça não se valoriza; se é ruim pago, imagina de graça e tantos outros ditos que vão na mesma direção.

Na realidade esses ditos, resumem um pensamento fundamentado numa determinada forma de organização econômico-social. E são difundidos de geração em geração para ajudar a cimentar esse modo de sociedade.

No fundo esses ditos escondem frequentemente, uma total ausência de solidariedade.

Por isso, Paul Singer, que citei anteriormente, ao falar do programa de economia solidária propõe o amigos, amigos, e negócios sobretudo, do título acima, para sintetizar a proposta do programa, mostrando o quanto ele não é descolado da realidade e da importância dos negócios. Só que num outro modo de sociedade.

Não consigo, porém, falar dessas coisas com muita seriedade, dado o seu humorismo intrínseco.

Eu diria ao Affonso que se um dia passar fome (o que não lhe desejo em hipótese alguma) e alguém lhe oferecer um sanduíche de queijo será uma pena, pois a seguir o seu próprio raciocínio… morrerá de fome!