Prezado Paulo César:

Li seu artigo Quem tem medo da Tarifa Zero? e não consegui postar o comentário abaixo.

Por isso ele segue aqui.

Parodiando uma vez mais Herivelto Martins em Que Rei Sou Eu?, pergunto: Que Conselho das Cidades É Esse?

Pobre de uma nação e seu povo que tem um Conselho assim.

Se, de fato, a retirada do assunto “gratuidade dos transportes” se deu por algo como “a Tarifa Zero pode levar pessoas que fazem pequenos deslocamentos a pé ou de bicicleta a fazê-los de ônibus, onerando o sistema com novas e desnecessárias viagens” é de pasmar. Até os elementos do reino mineral sabem que um sistema de ônibus, gratuito ou não, é dimensionado para as horas de pico, o que acaba determinando o seu custo. No entre pico a frota é menor. Ponto.

Recomendo aos zelosos conselheiros que leiam a monografia publicada pela Fundação João Pinheiro, de autoria do prof. João Luís da Silva , que faz um estudo econométrico/matemático sobre a tarifa zero e conclui que ela torna o sistema mais eficiente e, proporcionalmente, mais barato que o sistema tarifado.

Mas como não dá para levar a sério tanto disparate, essas considerações do Conselho das Cidades me fazem lembrar uma crônica que li. Nela, o autor sonhava que aqueles que têm proposições que infernizam a vida de milhões de pessoas, deveriam passar o resto de suas vidas às voltas com elas. Caso, por exemplo, do atendimento automático de telefone que fica tocando um musiqueta com propaganda e aí, a linha cai. Ou os saquinhos de supermercados que são dificílimos de desgrudar uma face da outra, e assim por diante.

Pois penso o mesmo com relação aos ilustres membros do tal Conselho das Cidades, tendo em vista suas proposições sobre a tarifa zero.

Eles deveriam passar o resto de suas vidas em Hasselt na Bélgica, onde existe a tarifa zero no sistema de ônibus, entrando e saindo dos ônibus gratuitos a cada um ou dois quarteirões ou até mais um pouco, para verificarem interminavelmente que:

1- Os seres humanos inteligentes não fazem isso.

2 – Graças a essa inteligência, em Hasselt não existe Conselho das Cidades e o sistema de tarifa zero implantado em 1997, transporta hoje 1300% de passageiros a mais e com uma mobilidade invejável. O que jamais atingiremos nas cidades brasileiras, graças aos nossos atilados conselheiros urbanos.

Como diz um  colunista: Pode?

Dia das crianças

Foi 12 de outubro, dia das crianças e, então, resolvo fazer uma brincadeira.

Penso que as sociedades contemporâneas têm uma boa dose de escrachos com sua corrupção generalizada e global, com o culto às celebridades, com a desinformação e manipulação da informação etc. (Divirta-se  enumerando outros.)

Por isso além da visão cubista das notícias e fatos que propus anteriormente, proponho uma visão carnavalesca do que se passa atualmente.

Tal como se fazia no carnaval, não o carnaval espetáculo de hoje, mas o popular com suas críticas mordazes e alegres dos costumes, da política, da sociedade enfim.

Vamos à brincadeira então.

Com a música de carnaval Que Rei Sou Eu ? de Herivelto Martins fiz a paródia Que Esquerda é essa? Ouça a música original anexa e cante-a com a letra proposta.

Se você se perguntar o que tudo isso tem a haver com a tarifa zero é porque não a entendeu enem eu!


QUE ESQUERDA É ESSA?

Que esquerda é essa

Sem idéia e sem coragem

Sem proposta e sem audácia

Afinal que esquerda é essa?

E se governa é só a UNE e olhe lá!

Enquanto que nesse país

O poder é  da  “elite”

Que esquerda é essa?

Que esquerda é essa?

Que governa com o atraso

Que promete a mudança

Mas protege o capital?

O seu governo, de Renans e de Sarneys

Pros pobres uma bolsinha

E pros ricos um dinheirão

Que esquerda é essa?

Por que será? IV

Sou convidado por meu amigo Araken Martinho para ouvir uma palestra de Paul Singer sobre economia solidária, no município de Várzea Paulista, perto de Jundiaí, onde moro.

Além de curioso  é  uma oportunidade de rever Singer, amigo desde os tempos de política universitária.

Enquanto aguardamos o início da palestra, recebo diversos documentos de informação e divulgação da Primeira Jornada Municipal de Políticas Sociais de Várzea Paulista, na qual se incluía a palestra de Singer.

No panfleto, o subtítulo;

Direitos Sociais, Políticas Públicas e Participação Popular: 21 anos de Constituição Cidadã.

E a citação do art 6º – São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma dessa Constituição.

Pensei. E os transportes coletivos? E  o acesso à cultura?

Não são citados!

Cidadãos imobilizados e incultos?

Por que será?

Por que será? III

Recebo de meu amigo Xavier o Relatório do Banco Mundial Sobre Transportes Coletivos, que Manolo do MPL da Bahia lhe encaminhou.

Fico curiosíssimo de saber o que pensam esse especialistas.

São citadas experiências de Bogotá, Curitiba, Zurique, Bangalore, Holanda etc. etc.

De Hasselt, Bélgica, onde o transporte coletivo é gratuito, tarifa zero desde 1997, nenhuma palavra.

Por que será?

Por que será? II

Achei boa a idéia de fazer uma série denominada Por Que Será?

Assim, minhas reflexões ficam menos impositivas ou pretensiosas.

E os textos podem ser mais curtos. Quase twitterianos…

E muitos poderão ter respostas incisivas e convincentes às minhas dúvidas.

Sei lá. Vamos adiante, pois.

Recebo um emeio com um convite feito por Raquel Rolnik

“Convido a [email protected] para o primeiro seminário organizado no Brasil pela Relatoria Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada: “Remoções em Grandes Projetos: e o Direito à Moradia Adequada.  Data: 02 de outubro de 2009 ás 18h Local: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo”.

Raquel é relatora da ONU para o direito à moradia adequada.

Conheço-a de longa data. Alem de profissional competente e engajada é pessoa muito simpática e colaboradora.

Fica-me a pergunta: existe uma Relatoria da ONU  Para o Direito à Mobilidade Adequada?

Principalmente a mobilidade dos “imóveis”, ou “quase imóveis”?

Se não, por que será?

Leio na revista Carta Capital 564 que foi de 25,2 bilhões de reais o quanto o Brasil vai deixar de arrecadar até o fim do ano, por conta dos pacotes de estímulo contra a crise econômica.

E não tem dinheiro para a tarifa zero nos transportes coletivos.

Por que será?

Leio a notícia.

“As tarifas de ônibus de São Paulo serão reajustadas após três anos”.

Prefeito diz ser inevitável.

Fico com as seguintes indagações:

– Se o serviço manteve-se com a mesma qualidade, a tarifa de 2006 estava muito alta, pois a inflação acumulada entre 2007 a 2009 foi de cerca de 17,5%. Bobo de quem usou em 2007.

– Ao contrário, era perfeitamente  justa em 2007 e então  os empresários tiveram prejuízo.

– O serviço piorou para que os empresários não tivessem essa perda.

– A prefeitura bancou a diferença para que as empresas não tivessem prejuízo.

– Nenhuma das hipóteses anteriores, sei lá…

E por que agora o reajuste é inevitável?

Por que será?

Por que será?

Sábado, 29 de agosto de 2009.

O Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo tem uma atividade  a que chamam de formação e me convidam para participar da mesma. O centro da atividade é uma exposição de Mariana Fix, arquiteta, sobre a questão das chamadas operações urbanas, em particular a operação urbana “águas espraiadas”, na zona sudoeste da cidade de São Paulo. A mim caberia, digamos, comentar a exposição e estabelecer relações com os transportes coletivos.

Ouvi a excelente apresentação de Mariana, rica em detalhes, fotos, explicações sobre o funcionamento e evolução das operações urbanas em São Paulo e como elas acabam por serem “comandadas” pelos interesses imobiliários, em que pese o discurso de melhoria da cidade na região onde ocorrem. Tais operações são feitas sob projeto e coordenação da Emurb, (Empresa Municipal de Urbanização) uma empresa pública da prefeitura de São Paulo.

Mariana mostrou as estratégias, freqüentemente cruéis, para remover moradores e favelados nas áreas sob intervenção. Enfim, uma exposição completa e muito bem fundamentada.

Ao final da exposição eu me pergunto: o que comentar?

Não sou especializado nesse assunto e, mais ainda, estou afastado das lides profissionais há anos. Resolvo, rapidamente, fazer uso de minha faixa etária e conseqüente experiência, pelo simples fato de ter passado por diversas situações ao longo da vida profissional. Primeiramente, evidencio o avanço que os estudiosos de hoje de questões urbanas, como Mariana, têm em relação à minha geração. Fundamentação teórica, muita pesquisa, dados, enfim, muita profundidade e embasamento.

Disse que fui o primeiro diretor de planejamento da Emurb e que, naquele momento, se pensava que ela seria uma operadora municipal para garantir duas coisas: que as intervenções da prefeitura obtivessem o melhor resultado para a cidade, evitando-se os seus possíveis futuros impactos negativos e que a apropriação das vantagens propiciadas pelas ações municipais também o fossem pelo poder público.

De modo simples: o metrô, na ocasião, era de responsabilidade da prefeitura e procuravam-se intervenções no entorno das estações, em particular nos então terminais, para garantir que não viessem a ser áreas problemáticas pelo impacto de mudança brusca de uso, com o aporte de milhares de pessoas em trânsito nas estações. Em resumo, não deixar a solução “a mercado”, mas sim por intervenção do poder público.

Daí surgiram os projetos de Santana, Vergueiro (onde hoje é o Centro Cultural Vergueiro), Conceição e Jabaquara (esta última sendo, hoje, o terminal dos ônibus que vão ao litoral). Não é o caso de entrar nos detalhes aqui.

Proponho a minha conclusão de que, ao longo do tempo, acabou prevalecendo a solução “a mercado” e, como Mariana demonstrara, o interesse privado e não o público. Como quase tudo no país. Uma tristeza… e uma sensação de ingenuidade, despreparo, incompetência, ou sei lá o quê, dos muitos que atuamos nessa área na época de então. Do modo como são as coisas no país, todos os caminhos acabam numa solução de mercado, foi minha conclusão.

Aqui cabe sem dúvida a propriedade do princípio de Lampedusa (não literal); “é preciso que tudo mude para que tudo permaneça com está”.

No caso, a vitória dos interesses privados.

No diálogo com os participantes e com Mariana, surge a questão da habitação e do recente plano “Minha casa, minha vida”. Sobre este, Mariana já escreveu texto muito interessante mostrando que o plano serve, sobretudo, aos interesses da indústria de construção e empreendedores imobiliários.

Nesse momento me passa pela cabeça uma questão que parece relevante, de resto um modo habitual no modo pelo qual formulo raciocínios; a partir de interação e da dialética inerente aos debates. Pergunto aos presentes por qual motivo inexistem movimentos de transportes reivindicativos como existem movimentos por habitação, saúde e, é claro, pela reforma agrária? O MPL é exceção.

Será por que no caso da habitação, por exemplo, em que pese o caráter de enfrentamento e reivindicação, a casa própria é símbolo forte, tanto de proteção, maternal, digamos assim, como também se trata de um patrimônio? Um símbolo básico em nossa sociedade.

Não por outro motivo o mote “Minha casa, minha vida”. Forte e impactante.

Provoco um pouco mais, e pergunto por que no âmbito das forças ditas progressistas, existem lideranças e várias referências intelectuais fortes no urbanismo ligado à habitação, a própria Mariana Fix um exemplo, e não existe o mesmo em transportes coletivos urbanos?

Termino propondo o seguinte raciocínio, para provocar reflexão e debate: se o que se pretende no lado progressista da sociedade são transformações de profundidade e com rapidez para eliminar a pobreza e melhor equilibrar a disputa entre os que tem mais e os que tem menos ou praticamente nada, então os transportes coletivos urbanos apresentam respostas muito mais rápidas quando se instala a sua crise. Esta fica escandalosamente evidente, enquanto a crise habitacional é menos sentida. A crise dos transportes urbanos mexe com todos. E instantaneamente. Basta ver o dia de greve ou interrupção de qualquer dos serviços de transportes.

Dou como exemplo dessa característica explosiva de gerar crise a última pane no metrô de São Paulo. Parece que uma falha elétrica, que durou cerca de uma hora, provocou uma enchente de pessoas nas estações, uma coisa estarrecedora.

Seriam oportunidades de abrir debates sobre o assunto e reforçar reivindicações. Se assim for, o arco dito progressista das forças políticas deveria apresentar muitos movimentos, muito intelectuais orgânicos e muita capacidade de mobilização para ganhos expressivos nos transportes coletivos urbanos.

Parece que não tem.

Por que será?

Post zero

O site TarifaZero.org é um dos resultados do trabalho dos jovens do MPL, em particular do Daniel de Floripa.

Quando, pelos idos de 2004 ou 2005, fui procurado pelo MPL de São Paulo para falar sobre transportes urbanos e tarifa zero num sábado, na sede do Sindicato dos Jornalistas, jamais pensaria que se chegaria até este site sobre o tema da tarifa zero.

Ele mostra que o debate sobre transportes coletivos gratuitos, pagos indiretamente ou descatracados (em resumo: tarifa zero) é muito mais amplo do que se pensa.

E que ele não somente é universal, planetário, mas que arrasta consigo questões muito maiores do que o simples deslocamento de pessoas.

A riqueza de links que o site proporciona abre perspectivas fantásticas sobre a questão da mobilidade, da segregação sócio-espacial, sobre tabus, sobre as cidades, enfim, sobre sua justa e legítima fruição. Proporciona um fazer política, que o status quo insiste em não querer que se faça. Sobretudo os jovens.

Ele é uma comprovação da maravilha que é a internet e do quanto seu uso inteligente abre perspectivas espetaculares para as transformações que o seres do planeta precisam e merecem.

Desfrutem desse site e lembrem-se que ele é o resultado da inteligência, sensibilidade e compromisso de jovens que estão longe do ranço e da velhice de ultrapassadas e carcomidas estruturas hierarquizadas, rígidas e comprometidas com o status quo e seus inumeráveis equívocos. Em especial a chamada grande mídia. Eles, assim, apontam que muita coisa pode e deve ser transformada nesse planeta. E como deve se dar essa transformação.

Meus netos agradecem.