Aumento da tarifa do transporte público gera imobilidade e exclusão social nas cidades brasileiras

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por Danilo Mekari, no Portal Aprendiz

Tão logo 2016 começou, governos estaduais e municipais de 21 cidades do Brasil – incluindo dez capitais – anunciaram o aumento da tarifa do transporte público urbano, uma prática que já tem se tornado corriqueira a cada passagem de ano. Em Belo Horizonte, a passagem do metrô subiu de R$ 3,95 para R$ 4,45, no Rio de Janeiro e em São Paulo, a tarifa unitária chegou a R$ 3,80 e, em Joinville (SC), subir em um ônibus ficou oitenta centavos mais caro: de R$ 3,70 para R$ 4,50.

Ao mesmo tempo em que cresce o preço para circular pelas zonas urbanas brasileiras, a qualidade do serviço de transporte público é vista como regular, ruim ou péssima para quase 70% das pessoas, como revela pesquisa da Confederação Nacional das Indústrias. O aumento da tarifa gera ainda um efeito dramático para a população de baixa renda, pois põe em jogo o acesso dessas pessoas ao transporte público e, consequentemente, fere seu direito à cidade. Continue reading “Aumento da tarifa do transporte público gera imobilidade e exclusão social nas cidades brasileiras”

Dessas coisas curiosas que acontecem na vida

Fui convidado pelos amigos Carlos Henrique Siqueira e Gustavo Amora paras participar do “IN.CA Cast – Conversas sobre arte e política”, um PodCast sobre assuntos diversos. Nesta edição o tema foi sobre Território e Mobilidade Urbana em Brasília.

Cheguei lá e bati um papo super interessante com eles e com o Thiago de Andrade, à época falando pelo Instituto de Arquitetos de Brasília – IAB. Foi uma conversa cheia de convergências, análises críticas e de balanço das últimas gestões, apresentações de nossas percepções sobre Brasília. O resultado final é essa gravação de uma hora e cinquenta minutos, que disponibilizo a quem tiver interesse e tempo pra ouvir.

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“Está em pauta, agora, que modelo de cidade queremos” – entrevista com Lucas Oliveira do MPL SP

por Maria Caramez Carlotto

REVISTA FEVEREIRO – Eu queria começar falando da origem do Movimento Passe Livre (MPL). A versão mais conhecida é de que o MPL surgiu em Florianópolis, em 2005, defendo o passe livre estudantil. Florianópolis que, em 2004, tinha vivido uma ampla revolta popular contra o aumento da passagem de ônibus, a chamada Revolta da Catraca ou Guerra da Tarifa. Revolta mais ou menos nos moldes da Revolta do Buzú ocorrida em Salvador em 2003. Dado esse contexto, costuma-se dizer que o MPL seria um desdobramento natural dessas revoltas populares de Salvador e Florianópolis. Mas com essa versão espontaneísta e factual da origem do MPL, perde-se muito das raízes políticas do MPL, que certamente são mais antigas: ligam-se ao movimento antiglobalização, ao autonomismo e, em certa medida, ao próprio PT. Há narrativas que ligam o MPL de Florianópolis à esquerda trotskista do PT. Eu queria ouvir você contat a história do MPL relacionando essa origem factual à origem ideológica e política.

MPL – Tudo bem. Então, eu acho que são duas coisas. De fato, as duas revoltas (Salvador, 2003 e Florianópolis, 2004) são fundamentais. Principalmente a Revolta de 2003, porque ao longo dela foi produzido um vídeo, que é do Carlos Pronzato, que se chama a Revolta do Buzú . Vários comitês pelo passe livre que existiam pelo Brasil começam a usar o vídeo Revolta do Buzú nas duas atividades. E o comitê pelo Passe Livre de Florianópolis, que existia desde 1999 ou 2000, usa esse vídeo durante as suas atividades lá, eles usam esse vídeo para fazer as atividades em escolas durante todo um ano: desde a metade de 2003 até a metade de 2004, quando ocorre a Revolta da Catraca (Florianópolis, 2004) eles usam o vídeo Revolta do Buzú para fazer atividades em escola. Além disso, tem um outro aspecto importante. Esses comitês pelo passe livre estudantil tipo o de Florianópolis existiam em vários lugares e surgiram inicialmente associados a setores das juventudes partidárias. Das juventudes partidárias não, da juventude do PT basicamente. Havia alguns poucos membros da juventude do PSTU, mas centralmente da juventude do PT. Mas eram jovens do PT que acabaram se afastando, principalmente em Florianópolis, da dirigência petista, avaliavam era que os partidos pautavam as questões de transporte e as questões específicas de juventude de um modo geral com um caráter aparelhado, ou seja, a partir dessas questões você vai dinamizar o partido, formar pessoas para atuar no partido, mas não avaliavam a questão do transporte em si. Continue reading ““Está em pauta, agora, que modelo de cidade queremos” – entrevista com Lucas Oliveira do MPL SP”

Tarifa zero metaleira

Jedbanger, uma revista argentina dedicada ao metal, na sua edição de julho, publicou uma entrevista com Pedro Poney, da banda Violator, de Brasília. Próximo do Movimento Passe Livre do Distrito Federal, Poney foi perguntado sobre os protestos de junho/julho no Brasil, antes mesmo de entrarem nos assuntos musicais. Segue o trecho da entrevista (Chico Buarque que se cuide):

“Participei dos protestos na minha cidade, em Brasília”, explica Poney. “Começaram com uma reivindicação por melhorias no transporte público, e os meios de comunicação de massa eram contra. À medida que os protestos começaram a crescer, houve muita brutalidade policial. Quando os protestos se tornaram gigantes tanto a sociedade como os meios de comunicação de massa mudaram sua postura, e aí entraram vários grupos conservadores e de direita que quiseram tirar proveito dos protestos. Acredito que para os que se identificam com a esquerda, como eu, é um momento de luta, é um momento de disputa, conquistar melhorias para a América do Sul, para que tenhamos melhores cidades. É um momento de tomar as ruas e exigir o que acreditamos que seja justo. Estou muito envolvido com tudo isso, com o MPL, o movimento pelo transporte público. A reivindicação é clara e específica, ainda que a direita queira aproveitar e exigir reivindicações mais genéricas, como se fosse apenas uma crítica à corrupção política, com o que, obviamente, discordamos”.

O que não fica claro pra mim é se exigem transporte gratuito ou tarifas menores… Continue reading “Tarifa zero metaleira”

Ele ajudou a fundar o Movimento Passe Livre, entrevista com Marcelo Pomar

por Coletivo Maria Tonha

Aos 19 minutos e 23 segundos de “Impasse”, documentário sobre as lutas contra o aumento da tarifa em Florianópolis, há uma cena que tem lugar no Fórum Social Mundial de 2005, ocorrido em Porto Alegre. Nela, Marcelo Pomar aparece segurando um microfone e lendo uma carta de princípios de uma organização “apartidária, mas não anti-partidária”. Era a plenária de fundação do Movimento Passe Livre, o MPL.

Oito anos mais tarde, o MPL vive seu momento de maior fama. Isso graças ao seu papel indutor nos protestos contra o aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, que posteriormente acabaram se desdobrando em protestos massivos por todo o Brasil.

Já Marcelo Pomar, hoje com 31 anos, graduado em História pela Udesc e professor de xadrez, não está mais no dia a dia do MPL por conta do atual trabalho – é assessor de uma parlamentar na Assembleia Legislativa de Santa Catarina – mas segue sendo um dos principais quadros teóricos do movimento. Já falou no TEDxFloripa, em 2011, em apresentação intitulada “Por uma vida sem catracas”. No último dia 10 de julho, discursou no plenário da Câmara, em Brasília, em que comentou os recentes protestos que acometeram o país, além também de ter discorrido sobre o projeto Tarifa Zero.

O coletivo Maria Tonha realizou uma longa entrevista com Marcelo para falar sobre a fundação do MPL, as Jornadas de Junho e a Tarifa Zero. Continue reading “Ele ajudou a fundar o Movimento Passe Livre, entrevista com Marcelo Pomar”

Tarifa zero torna a mobilidade urbana um direito social, entrevista com Lúcio Gregori

por Michelle Amaral, do Brasil de Fato

foto: Valter Campanato/ABr

Após as massivas mobilizações que culminaram na revogação do reajuste das passagens dos ônibus, trem e metrô de São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL), que encabeçou os protestos, afirma que continuará a luta por um transporte efetivamente público por meio da reivindicação da tarifa zero.

Em agosto de 2011, o MPL lançou uma campanha de coleta de assinaturas para apresentação do Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Tarifa Zero. A proposta defende a criação de um Fundo dos Transportes que reunirá todo o recurso destinado aos transportes, bem como o repasse de valores arrecadados por meio de impostos de forma progressiva, na qual quem tem mais pague mais e quem tem menos pague menos. Além disso, institui o Conselho Municipal de Transportes, que irá gerir todo o sistema, com a participação de representantes da Secretaria Municipal de Transportes (SMT) e representantes da sociedade civil. Continue reading “Tarifa zero torna a mobilidade urbana um direito social, entrevista com Lúcio Gregori”

‘MPL se coloca dentro do campo da esquerda no processo político’

por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior

Indiscutível impulsionador da explosão de protestos pelo país, o Movimento Passe Livre (MPL) agora se depara com uma exposição inédita, chegando até ao próprio gabinete da presidência da República. Com a chuva de pautas que se somaram às reivindicações em torno do transporte coletivo, o próximo momento aparenta ser de reflexão e reorganização das lutas que eclodiram em meio a Copa das Confederações da FIFA.

Diante disso, o Correio da Cidadania, em parceria com a webrádio Central 3, entrevistou Daniel Guimarães, integrante do movimento, com vistas também a debater um posicionamento político mais profundo, uma vez que diversas questões sociais, finalmente, dominaram a ordem do dia. Na sequência, virão entrevistas com ativistas de outros movimentos sociais de viés progressista. Continue reading “‘MPL se coloca dentro do campo da esquerda no processo político’”

O futuro que passou, entrevista com Paulo Arantes

por Ivan Marsiglia

Enfim concedida a revogação dos aumentos das tarifas de transporte nas duas principais metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, a tarde de quinta-feira se anunciava como o momento de comemoração para o movimento cívico e apartidário que tomou as ruas do País nas últimas duas semanas. O que se viu, no entanto, foi a expansão incontrolável dos protestos, com mais de 1 milhão de pessoas em cerca de cem cidades brasileiras. E, embora o tom geral das massas de manifestantes se mostrasse pacífico, cenas de conflito e vandalismo foram vistas por toda parte. Em Brasília, três ministérios foram depredados. No Rio, 62 pessoas ficaram feridas. No interior paulista, um jovem manifestante morreu atropelado e, em Belém, uma gari perdeu a vida após inalar gás lacrimogêneo lançado pela polícia. Continue reading “O futuro que passou, entrevista com Paulo Arantes”

Entrevista com a Frente Autônoma, do Bloco de Luta pelo Transporte Público de Porto Alegre

por MPL Joinville

Desde o início do ano, o Sindicato das Empresas de Ônibus (Seopa) e a prefeitura de Porto Alegre, vinham se articulando para aumentar o preço da passagem da capital gaúcha. A partir de então, o Bloco de Luta pelo Transporte Público organizou diversas manifestações contra o aumento, que ganharam ainda mais força com o posicionamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e do Ministério Público, que viam irregularidades no cálculo da tarifa. Ainda assim, a prefeitura concedeu o reajuste, aumentando a tarifa de R$ 2,85 para R$ 3,05. A resposta a esse verdadeiro assalto a população veio nas ruas, na forma de mais manifestações, cada vez maiores, chegando a reunir quase 10 mil pessoas. A pressão popular culminou na revogação do aumento por uma liminar da Justiça.

Porém, a luta não terminou. As empresas ainda podem recorrer da decisão, e o Bloco de Luta pelo Transporte Público permanece mobilizado, para impedir isto e para avançar ainda mais nas pautas, que hoje são a diminuição da tarifa para R$ 2,60 e a abertura das contas das empresas. Continue reading “Entrevista com a Frente Autônoma, do Bloco de Luta pelo Transporte Público de Porto Alegre”

Reforma tributária tornaria possível tarifa zero* no transporte público de SP

por Gisele Brito, da Rede Brasil Atual

Engenheiro Lúcio Gregori, secretário de transportes na gestão Luiza Erundina, fala sobre os desafios da adoção de um sistema de transporte gratuito no Brasil

Debate na Universidade de São Paulo sobre a gratuidade universal no sistema de transporte público reuniu no último dia 8 o filosofo Vladimir Safatle, a relatora especial da ONU para moradia adequada, Raquel Rolnik, o engenheiro Lúcio Gregori, autor da proposta da tarifa zero* em 1990, quando exercia o cargo de secretário de transportes na gestão de Luiza Erundina (1989-1992), em São Paulo, e representantes do Movimento Passe Livre da cidade. Sob o mote de “Tarifa  Zero: Uma Realidade Possível” os debatedores foram unânimes em afirmar que a revindicação vai além de uma demanda específica e que é preciso incluir a mobilidade como um direito constitucional. O desafio para essa mudança, expuseram, passa por uma disputa político-ideológica. Para eles, a reivindicação põe diversos paradigmas do sistema vigente como o direito à cidade, a não-mercatilização da vida, e a liberdade em debate. Na entrevista a seguir, Gregori trata dessas questões e coloca o dedo na ferida: uma reforma tributária é fundamental para que cidades como São Paulo reassumam a responsabilidade pelos deslocamentos humanos. Continue reading “Reforma tributária tornaria possível tarifa zero* no transporte público de SP”

[Joinville] Entrevista com Maikon Jean Duarte, da Frente de Luta pelo Transporte Público

Ouça entrevista de Maikon Jean Duarte, do Movimento Passe Livre de Joinville e da Frente de Luta pelo Transporte Público, no programa Hora do Trabalhador, da Rádio Clube:

Maikon abordou assuntos como a violência policial contra os manifestantes que estão em campanha contra reajuste nas tarifas da cidade e também sobre o debate principal em torno do transporte como um direito, gratuito e de qualidade.

Para download, clique aqui.

Mais infos: http://nozarcao.blogspot.com/

Entrevista com Bruno Pere, autor do trabalho “Todo vagão tem um pouco de navio negreiro”

Tempos atrás postei uma matéria da Folha de S.Paulo sobre censura a trabalhos de dois grafiteiros de São Paulo nos muros de uma futura estação de metrô. Foram cobertas por tinta verde e, depois da exposição negativa que o caso trouxe à Companhia do Metrô, foram refeitas.  Um dos trabalhos, de Bruno Pere, paulistano de 27 anos, chamou a atenção pela pertinência tanto da imagem quanto da frase que a acompanhava: “Todo vagão tem um pouco de navio negreiro”.  Não poderia ter acertado mais, já que, passados 500 anos, o transporte coletivo ainda é visto como uma forma de transportar mão de obra de um lugar a outro. Nada de direito, inclusive no novo Plano de Mobilidade Urbana do Governo Dilma. Mas esse papo fica pra depois.

Fiz uma conversa com o Bruno sobre este caso, mas também sobre a cena de grafiteiros, linguagens, comunicação e transporte coletivo. Por coincidência, a conversa rolou dentro do Metrô.

Ouça:

Baixe o arquivo aqui.

Flickr do Bruno http://www.flickr.com/bpere

Raoul Vaneigem sobre a gratuidade

Trecho de uma entrevista do escritor Raoul Vaneigem, ligado à Internacional Situacionista na década de 1960, concedida à revista e-flux.

(…) Hans Ulrich Obrist: Poderias falar sobre o princípio da gratuidade (estou extremamente interessado nisso; como curador de museu sempre acreditei que os museus devem ser livres – Arte para Todos, como Gilbert e George o colocam).

Raoul Vaneigem: Gratuidade é a única arma capaz de despedaçar a poderosa máquina de auto-destruição posta em movimento pela sociedade de consumo, cuja implosão está ainda a libertar, como um gás mortal, mentalidade de sovina, cobiça, ganho financeiro, lucro e predação. Museus e cultura devem ser livres, com certeza, mas também o deviam ser os serviços públicos, atualmente presos aos esquemas das multinacionais e estados. Trens, ônibus e metrôs gratuitos, saúde, escolas livres, água livre, ar, electricidade, energia livre, tudo através de redes alternativas a serem criadas. À medida que a gratuidade se espalha, novas redes de solidariedade erradicam o estrangulamento da mercadoria. Isto porque a vida é uma dádiva gratuita, uma criação contínua que a vil especulação do mercado nos priva. (…)

Leia a entrevista na íntegra aqui.

Tarifa Zero em Agudos, SP

por Alice Wakai e Henri Chevalier

Há dez anos, Agudos, uma pequena cidade ao lado de Bauru, interior de São Paulo, colocou em prática um projeto ousado. O transporte coletivo passou a ser gratuito, com a finalidade de facilitar a mobilidade dos quase 35 mil moradores para qualquer bairro, escola, trabalho, comércio ou serviço que desejassem. Nessa entrevista, José Carlos Octaviani, prefeito de Agudos na época e atual secretário de Obras, explica como implementou a Tarifa Zero na cidade, as dificuldades encontradas e a reação popular com a gratuidade do transporte.

Como surgiu a proposta dos ônibus “de graça” em Agudos?

Octaviani: Em 2000 eu disputava pela segunda vez a eleição para prefeito de Agudos. E nós tínhamos uma empresa que trabalhava há quase 20 anos aqui. Lamentavelmente, o serviço estava sem qualidade. Era uma empresa concessionária da cidade. Primeiro morreu um proprietário, depois morreu o outro e os herdeiros começaram a ter uma dificuldade grande para gerir o sistema. Continue reading “Tarifa Zero em Agudos, SP”