Para especialista, aumento segue lógica do negócio

por Michelle Amaral

De acordo com Lúcio Gregori, enquanto o transporte for entendido como um negócio, os aumentos de tarifas vão continuar a ocorrer

Até a primeira quinzena de janeiro foram registrados reajustes nas tarifas dos ônibus municipais em pelo menos quinze grandes cidades brasileiras e há a previsão de que as passagens de seis cidades ainda sejam reajustadas. Em três cidades o aumento ocorreu já no final de 2010.

Das dez maiores regiões metropolitanas pelo menos 6 anunciaram aumento. Mais de 56 milhões de pessoas que vivem nas regiões com grande densidade populacional estão sendo afetadas pelos reajustes das passagens. Continue reading “Para especialista, aumento segue lógica do negócio”

[SP] Palestra de Lúcio Gregori em atividade da Rede Contra o Aumento das Tarifas

Ouça a palestra do Lúcio, abordando assuntos como as perniciosas concessões para exploração privada do sistema de transporte coletivo, tarifa zero, gestão do transporte de acordo com interesses públicos, entre outros assuntos.

Parte 1 para ouvir:

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Parte 2 para ouvir:

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Parte 3 para ouvir:

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Parte 4 para ouvir:

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Tariq Ali e a necessidade de construirmos nosso projeto de transporte

Dois dos meus livros favoritos dos últimos anos se chamam Redenção e A nova face do império. O primeiro se trata de uma obra literária ficcional, um tanto quanto cômica, sobre uma tentativa de reunião do fragmentado e disputado movimento trotskista internacional para rediscutir o papel das organizações revolucionárias após a queda do Muro de Berlim. O último é um livro jornalístico sobre as guerras imperiais promovidas pelos Estados Unidos em seu jogo de dominação mundial – em formato de entrevista, cedida ao jornalista David Barsamian. Os dois são assinados por Tariq Ali, homem multi-funcional de origem paquistanesa, co-editor da New Left Review, dramaturgo, cineasta, romancista. Continue reading “Tariq Ali e a necessidade de construirmos nosso projeto de transporte”

“A passagem vai aumentar de novo?! Não acredito!”

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Mais de um mês sem escrever para esse blog.

Será que foram as rodadas finais do Campeonato Brasileiro? Não, nem é pra tanto…

Falta assunto? Com certeza não.

Aumento da tarifa de ônibus da cidade de São Paulo bem perto de acontecer. A Secretaria Municipal de Transporte dando grana para os taxis ficarem mais baratos. Vigas do Rodoanel caindo por aí. O Metrô querendo inaugurar a Linha 4-Amarela com um mês de catraca livre (e se a população quiser mais depois? Azar o deles, e sorte a nossa!). Quanta coisa rolando e tal…

Então, o que acontece? Não sei ao certo.

Após o acorrentamento dos militantes do Movimento Passe Livre São Paulo na Secretaria Municipal de Transportes, iniciamos a articulação de grupos, movimentos sociais e indivíduos na Rede Contra o Aumento da Tarifa.

Até aqui, tem sido interessante. Várias idéias, iniciativas e atividades. Muita disposição.

Nossa bateria do Movimento Passe Livre (que anima os atos – afinal, barrar o aumento é uma questão de ritmo!) finalmente foi retomada. O Exército Clandestino Insurgente de Palhaços Revolucionários (uma de nossas armas contra o tédio e seus poderosos senhores de terno e gravata, ricos em distribuir armadilhas e obstáculos para o livre trânsito das pessoas pela cidade) está organizando seu batalhão e suas intervenções.

Panfletagens em terminais, dentro dos ônibus, em locais de grande circulação, escolas públicas.

Acordando cedo, conversando com muita gente – vendo a indignação que existe nessa cidade da São Paulo.

Dia desses, bem próximo de um ponto de ônibus bastante movimentado, estava entregando panfletos – e divulgando a manifestação de 26 de novembro.

Uma moça, de nome Marcela, pega um dos panfletos e se encaminha até a faixa de pedestre. O sinal está fechado – então, sobra um pouco de tempo para passar os olhos sobre o papel que havia acabado de lhe entregar. Ela não quis nem conversar, parecia estar apressada. Mas, como o sinal não colaborava, lá estava ela – esperando o desfile da hegemonia da sociedade do automóvel ser freado por alguns instantes, quando o semáforo fechasse para eles.

Eu continuava a panfletagem. Conversava com algumas pessoas – que se mostravam surpresas com notícia. “Nem sabia!”, dizia um jovem rapaz. “Os caras também não facilitam, né? Pô, ta muito caro já. E os busão tão sempre lotado. Fico revoltado, viu mano. Todo dia, para ir e voltar do trabalho é lata de sardinha”, completava o seu amigo.

Dona Ana, que também se interessou pelo que os garotos estavam conversando, pediu um “papelzinho” – como ela disse pra mim. Leu atentamente – ao ponto de me repreender, dizendo “Calma menino! Deixa eu ler, daí falo contigo!”. Esperei, então.

Pouco tempo depois, Dona Ana resolve conversar com esse garoto estabanado e ansioso – no caso, eu mesmo.

Então menino, eu trabalho no prédio aqui ao lado. Li aqui o que vocês estão protestando. E é muito importante mesmo. Tem como você me dar mais alguns desses aqui? Aí eu posso conversar com o pessoal do café e da limpeza lá do prédio, que trabalham comigo. Vou falar para as minha filhas também irem na manifestação. Elas trabalham lá no centro, bem perto da onde vocês vão ta. Pode ser?”.

Pode sim, Dona Ana – respondi sem pestanejar. É claro.

Ela então agradeceu – e eu fiquei todo abobado, e emocionado em ver essas pessoas que se indignam e estão com a gente.

Tem de tudo numa panfletagem. Gente que se empolga. Que pede mais alguns, “para distribuir lá na escola e no bairro”. Gente que não está nem aí para você. Que é indiferente, e fica brava por estar com pressa. Pega o panfleto, nem lê ou conversa. E tem também gente como a Marcela – lembram dela?

Pois então, ela voltou. O semáforo tinha aberto para os pedestres – vitória! Mas, ao invés de ela avançar apressadamente antes que os carros ganhassem a vez novamente, lá estava a Marcela ao meu lado.

Então, eu sou do telemarketing aqui do lado. E nem tem vale-transporte, nem nada. E, de final de semana, eu quero sair com minha mãe e com as minha amigas – mas é caro. Esse bilhete aí, que dura oito horas nos fins de semana, ajudou um pouco. Mas, com o que ganho, continua muito caro”, contava Marcela. “Aí você vem e me fala que a passagem vai aumentar de novo?! Não acredito!”.

Nem eu – viu Marcela, pensei. Não dá mais mesmo. É inaceitável.

Nossa conversa foi breve, pois ela estava sim com pressa. Disse para ela panfletar como quisesse, que divulgasse a idéia. Deixei alguns panfletos – já que a Marcela falou que ia “jogar a idéia nas meninas do trampo”.

E, assim, seguimos a panfletagem.

Uma idéia nos estimula – ajuda a superar as dificuldades e, muitas vezes, o sono e cansaço de todos os dias: barrar o aumento é inevitável.

Assim, o desânimo perde terreno, e dá lugar para a luta por um transporte público de verdade. Toda essa movimentação – a cidade fervilhando, nossos corpos e coração nas ruas – fez com que eu pensasse em retomar esse espaço de reflexão, comunicação, opinião e conversa.

Então, é isso.

Estou de volta, agora mais constante – assim espero.

***

Post-Scriptum 1: para terminar, gostaria de expressar aqui minha solidariedade ativa ao preso e refugiado político Cesare Battisti, em luta pela sua liberdade. Para que as pessoas possam acompanhar notícias diárias e análises críticas sobre esse caso – tão deturpado por algumas “agências de informação” da imprensa brasileira –, sugiro que entrem nos sítios do Comitê de Solidariedade ao Cesare (Cesare Livre!) e no Passa Palavra, dentre outros, que deram espaço para o tratamento sério que a questão merece.

PS 2: Para saber mais do ato, vocês podem conferir o chamado aqui (clica em cima!).

(Imagem do panfleto entregue pela Rede Contra o Aumento)

Um ônibus sem catraca

Você já pensou em entrar num ônibus urbano sem ter que pagar a tarifa, sem ter que passar pela catraca, ou mesmo sem ter que passar debaixo da catraca? Já pensou em um ônibus sem catraca? Tente imaginar! Cada um de nós, sem exceção, tem algo a pensar, a dizer e a fazer a este respeito. A maneira como nossa imaginação individual e coletiva funciona é muito importante para definir a cidade onde a gente quer viver.

Assim diz um dos panfletos que eu escrevi em colaboração com o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo, apropriando-me de uma passagem do geógrafo David Harvey na obra Espaços de esperança. A nossa idéia é estimular a construção coletiva de um novo imaginário; é fazer com que cada um de nós comece a pensar o que seria diferente se a catraca não estivesse ali na hora de usar o ônibus. O plano é a gente imaginar isso com tanta vontade, mas com tanta vontade, até a catraca (a tarifa) se tornar absolutamente desnecessária. Aqui estou me apoiando nas idéias do filósofo Cornelius Castoriadis, para quem a sociedade é autoconcebida/autocriada, existindo através de instituições imaginárias[1].

Certa vez dei uma aula sobre as propostas do MPL para uma turma de Design da universidade que estava estudando design urbano, com ênfase em Transporte (design de terminais de ônibus, de pontos de ônibus, dos próprios ônibus etc.). Curiosamente, havia um grupo desenvolvendo um projeto de um ônibus sem catraca. Mas isso não significava ônibus gratuito, tratava-se de um ônibus com sensores que controlariam o movimento dos passageiros. A intenção dos alunos era boa: facilitar a passagem de pessoas mais velhas, obesas e com outros tipos de dificuldades. Não fosse pelo professor Pedro Arantes, esses alunos talvez nunca tivessem tido contato com as idéias do movimento e nunca tivessem pensado que seus desenhos não precisam se limitar a reproduzir ou melhorar as coisas como elas já são. Durante a aula eu tentei estimulá-los a desenhar um ônibus inteiramente diferente; eu mesma tive vontade de pegar um pedaço de papel e ficar rascunhando um ônibus com outra forma e outra disposição de cadeiras, janelas e portas. Sem catraca nem sensores, é claro.

Esse exercício de espacializar as lutas políticas não pode ser uma tarefa exclusiva de designers e arquitetos, ainda que eles possam ser grandes colaboradores nesse processo. Fica aqui a sugestão para os leitores que se empolgarem enviarem desenhos de ônibus sem catracas para o email contato at tarifazero.org , aos meus cuidados.

Como inspiração, deixo um comentário do arquiteto Rafi Segal:

Trabalhar com o espaço urbano não é necessariamente uma questão de o que colocamos na cidade, mas como o espaço pode ser criado, ou recriado. Michelangelo disse que Florença era como um grande pedaço de pedra da qual ruas e praças haviam sido escavadas/entalhadas, como uma escultura. O que pode ser retirado para revelar uma forma? A forma já está dentro da pedra? A cidade é o nosso material de trabalho, e embora não seja uma peça única/singular como a Florença de Michelangelo, ainda oferece tudo o que necessitamos – as formas e os espaços já estão dentro dela – e ainda por serem revelados.[2]

[1] Cornelius Castoriadis. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
[2] Publicação do projeto Arte e esfera pública.

Desenho: Katya Sander em colaboração com o Movimento Passe Livre

Pensar a luta espacialmente

Olá, pessoas! Esta é a primeira entrada deste blog dentro do tarifazero.org. Sejam todos e todas super bem-vindos:

Essa aí é uma das ações que tive a alegria de registrar, durante a histórica luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 24 de novembro de 2006[1]. Naquele dia vários ônibus tiveram suas portas traseiras abertas, para a população do Terminal Parque Dom Pedro poder voltar para casa sem ter que pagar. Ainda assim, muita gente preferiu entrar pela porta da frente do ônibus e passar pela catraca. A polícia entrou no terminal e atirou bombas e balas de borracha nos manifestantes, deixando alguns feridos gravemente.

Quando a gente fala sobre transporte gratuito (ou “passe livre”, ou “tarifa zero” – é tudo a mesma coisa), precisa ter em mente que essa luta implica a quebra de uma série de paradigmas. As pessoas estão tão acostumadas com a existência de uma catraca dentro do ônibus e com as catracas na entrada do metrô que acham normal pagar por um serviço supostamente público. Achamos normal que mais de 37 milhões de brasileiros sejam excluídos do direito ao transporte porque não podem pagar pelas tarifas. Consequentemente, é normal que essas pessoas sejam excluídas de outros serviços “públicos”, porque muitas vezes não é possível chegar até uma escola ou até um hospital a pé. A prefeitura acha normal ceder o controle sobre as linhas de ônibus para os empresários donos dos ônibus. Prefeitura e empresários, juntos, acham normal aumentar as tarifas todos os anos, aumentando também a exclusão de pessoas do sistema de transporte “público”. Os 10% mais ricos acham normal concentrar 75% da renda brasileira. Nós achamos normal um banco lucrar 1,105 bilhão de euros em um único ano e fazer  árvore de natal gigante (leia-se propaganda) com renúncia fiscal, ao invés de pagar mais impostos. O Jockey Clube de São Paulo, um dos símbolos da elite endinheirada, acha normal não pagar IPTU para a prefeitura, acumulando hoje uma dívida de 146,6 milhões de reais.

E se vem alguém dizer que nada disso é normal, que as catracas precisam ser retiradas, que ônibus e metrô precisam ser gratuitos, que a distribuição de renda/uma reforma na cobrança de impostos é necessária (de modo que os ricos sejam mais taxados, que os bancos sejam mais taxados, para que esses impostos subsidiem os custos do transporte coletivo), que o controle sobre as linhas de ônibus deve ser municipalizado e gerido com participação popular, essa pessoa será tida como louca. E talvez seja essa loucura toda que faça da luta do Movimento Passe Livre uma luta revolucionária. Como disse certa vez o Lúcio Gregori: “a tarifa zero muda tudo, muda tudo”.

O que eu gostaria de pensar com vocês neste blog é esse “muda tudo”. O que muda na cidade se os ônibus passarem a ser gratuitos?

É claro que junto com a gratuidade precisa haver um aumento na frota de ônibus, ou então vocês logo vão imaginar vários ônibus lotados e aí não será muito diferente da situação atual! Além disso, aqui seria legal a gente se permitir imaginar tudo o que a gente quiser imaginar. Como podem funcionar as linhas de ônibus? Atualmente a maioria das linhas seguem trajetos lineares, será que seria mais interessante haver mais linhas circulares, passando mais dentro dos bairros, deixando as pessoas mais perto de onde querem ir? Que percurso você gostaria de fazer de ônibus na sua cidade? Gostaria de parar um pouco para encontrar alguém, antes de seguir até seu destino final? Gostaria de não ter destino certo, como alguém que anda a pé e pode sempre variar seu percurso, se perder um pouco, encontrar coisas interessantes pelo caminho? De ir bem longe, conhecer outros cantos da cidade? E os próprios ônibus, podem ser diferentes? Como seriam as portas de entrada e de saída? E se tivermos ônibus menores, porém em grande quantidade, diminuindo o tempo de espera nos pontos de ônibus? E como você gostaria que fossem os pontos de ônibus?

Como alertou Henri Lefebvre, no livro Direito à cidade, nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática[2]. Ainda assim, para quebrar um paradigma tão enraizado como é a lógica privatista do transporte “público” na nossa sociedade, é necessário todo um novo imaginário. Junto com a tarifa zero pode vir uma cidade inteiramente transformada. Precisamos recuperar as idéias de uma cidade socialista e, juntos, pensá-la espacialmente. Como diz o David Harvey, podemos “agir como arquitetos de nosso próprio destino em vez de como ‘impotentes marionetes’ dos mundos sociais e imaginativos que habitamos”[3].

O vídeo de abertura deste blog pode ser uma pista da produção de um espaço socialista. E está aí para lembrar que somos capazes de gerir as coisas por nós mesmos, com autonomia. É possível fazer com as próprias mãos o que achamos que deve ser feito.

Somos muitos mais do que eles.

notas

[1] Veja aqui mais informações sobre esse ato. Naquele ano não conseguimos revogar o aumento da tarifa, mas as ruas do centro de São Paulo foram ocupadas por aproximadamente três semanas e a gratuidade no transporte coletivo foi novamente pautada na sociedade paulistana, fazendo com que nas eleições de 2008 alguns candidatos mencionassem a tarifa zero no transporte coletivo (Ivan Valente-PSOL e, surpreendentemente, Gilberto Kassab-DEM). O prefeito Gilberto Kassab havia sofrido uma série de escrachos durante os protestos de 2006 e, provavelmente traumatizado, teve como principal bandeira popular de reeleição o congelamento da tarifa de ônibus por dois anos, com propaganda na TV que mostrava um bolo de aniversário comemorando um ano sem aumento. Dentre esses escrachos destacou-se o protesto na inaguração da reforma da Rua Oscar Freire, rua de comércio de luxo que recebeu 4,5 milhões de reais de verbas públicas para obras como instalação de fiação subterrânea e calçada nova. Os cartazes dos manifestantes apontavam a Oscar Freire como “símbolo da desigualdade social” e lembravam que “os trabalhadores que reformaram essa rua não podem pagar o ônibus”.

[2] Henri Lefebvre. O direito à cidade. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

[3] David Harvey. Espaços de esperança. São Paulo: Edições Loyola, 2004.