E a tarifa baixou

No mesmo dia que o MPL rumou para Brasília para apresentar suas demandas ao governo federal, as tarifas de ônibus retornaram aos R$ 3,00. Taí a materialização da conquista. Aconteceu.

 

[São Paulo] Nota do Movimento Passe Livre

por Movimento Passe Livre São Paulo

A cidade não esquecerá o que viveu nas últimas semanas. Aprendemos que só a luta dos de baixo pode derrotar os interesses impostos de cima. A intransigência dos governantes teve de ceder às ruas tomadas, às barricadas e à revolta da população.

Não foi o Movimento Passe Livre, nem nenhuma outra organização, que barrou o aumento. Foi o povo.

O povo constrói e faz a cidade funcionar a cada dia. Mas não tem direito de usufruir dela, porque o transporte custa caro. A derrubada do aumento é um passo importante para a retomada e a transformação dessa cidade pelos de baixo.

A caminhada do Movimento Passe Livre, que não começa nem termina hoje, continua rumo a um transporte público sem tarifa, onde as decisões são tomadas pelos usuários e não pelos políticos e pelos empresários. Se antes eles diziam que baixar a passagem era impossível, a revolta do povo provou que não é. Se agora eles dizem que a tarifa zero é impossível, nossa luta provará que eles estão errados.

Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre São Paulo

Um imenso cordão

Depois de duas semanas de manifestações, de 6 a 19 de junho, São Paulo conseguiu: teve um aumento nas tarifas do transporte revogado. E revogou com uma luta honesta, extremamente democrática, que é a forma de luta do Movimento Passe Livre. Nessa semana foram muitas as cidades que viram suas tarifas serem reduzidas: Porto Alegre, João Pessoa, Campinas, Cuiabá, Foz do Iguaçu, Manaus, Paranaguá, Vinhedo, Valinhos, Pelotas, Caxias do Sul, Rio de Janeiro. Sinto que São Paulo coroa esse momento por ter este movimento, que desde antes de seu berço se caracterizava pelo interesse por uma cidade verdadeiramente democratizada, sem exclusão; que lutava e luta para consolidar vitórias e direitos e também apresentar outra forma de fazer política. Sem burocracia e hierarquização, sem usar as pessoas para fins obscuros conhecidos por poucos.

Diferente deste grupo plantado, falso, conservador, que a mídia desejou criar como última cartada para desmobilizar as manifestações. Antes, tentaram desqualificar a luta como fosse vandalismo. Não adiantou, a população percebeu que não era verdade. Depois, acusando o movimento de ter uma contraditória origem de classe média (acusação que supõe não haver beleza na solidariedade, e que estimula o individualismo, o cada um por seu interesse mesquinho). Não adiantou, o movimento demonstrou que sua opção é de classe, no melhor sentido do termo: tem como objetivo a superação das condições de miséria da maior parte da população. O terceiro caminho foi a repressão policial e a criminalização: o governo se enroscou na própria corda e trouxe a solidariedade de milhares que sentiram nojo de ver tamanha semelhança com alguns dos piores anos da história recente do Brasil, os anos da ditadura civil-militar.

Me lembro das conquistas da Campanha pelo Passe Livre/MPL em Florianópolis, da inspiração da Revolta do Buzu em Salvador, todas as demais campanhas em outras cidades e agora peço que me deem licença para dedicar uma canção para o Movimento Passe Livre, de todos os lugares, de ontem, de hoje e de amanhã. Mas hoje invisto meu afeto, carinho e admiração pelo Movimento Passe Livre de São Paulo, que já havia dado tantas contribuições pra luta e agora abriu perspectivas tão incalculáveis quanto os benefícios da tarifa zero. Que ensinou o que é transporte aos tecnocratas, o que é informação aos jornalistas, o que é democracia aos homens de Estado. Quem dirá que é impossível lutar pela lei da tarifa zero? Ninguém.

Formar um imenso cordão e então, ver o vendaval, ver o carnaval sair.

A luta por transporte é muita coisa!

Uma menina me perguntou no Facebook por que o Movimento Passe Livre, nas palavras dela, “exclui outras pautas”. Segue a minha resposta para ela:
Antes, esclareço que eu só posso falar por mim, o movimento são muitas pessoas. Dito isto, a luta imediata que me interessa é a revogação do aumento. Entenda que isso já é muita coisa! O transporte deve ser compreendido como um direito fundamental, que inclusive conecta/dá acesso a muitos outros direitos. No Brasil 37 milhões de pessoas estão excluídas do transporte chamado “público” e consequentemente excluídas das escolas “públicas” e dos hospitais “públicos” porque não podem pagar os ônibus para chegar a esses espaços. O mesmo vale para centros culturais gratuitos, parques abertos, restaurantes populares… Assim, a luta por transporte é também luta por educação, por saúde, por cultura, por diversão… A economia no gasto do transporte aumentaria a verba para as famílias comprarem alimentos… Uma outra cidade e um outro país necessariamente passam por uma mudança radical na rede de transporte. Vamos dar um passo de cada vez. A grande imprensa e os alguns partidos políticos conservadores querem dispersar a luta, não vamos deixar isso acontecer! Dar um passo de cada vez não exclui outras pautas que as pessoas considerarem relevantes, mas nesse momento o que “está pegando”, não apenas em São Paulo mas também em várias outras cidades brasileiras, é a luta pelo transporte como um direito!

Os pontos objetivos da luta

1. O movimento se iniciou centralmente na luta por reduzir a tarifa dos transportes coletivos, e subsidiariamente pela tarifa zero e direito a cidade. São as bandeiras do MPL, que são construídas há uma década, com manifestações maiores e menores ao longo desses anos.

2. A repressão brutal da PM de São Paulo, na noite de 13 de junho, com centenas de feridos, detidos, e espancamentos covardes causou uma comoção nacional e internacional, e levou as manifestações a uma dimensão jamais antes vista para o tema de mobilidade urbana.

3. A grande mídia brasileira, que é monopolista, e que não recebeu do governo federal o enfrentamento necessário para sua regulação na perspectiva da democratização, e que tem interesses imbricados com a direita reacionária, vendida e subserviente do Brasil, num processo de manipulação vil, tentou transformar a pauta do movimento na sua própria agenda política.

4. Isso não é novidade. Vale lembrar que em 1984, num dos comícios decisivos da Campanha das Diretas Já na Praça da Sé, o JN da Globo anunciava que as pessoas estavam ali reunidas para festejar o aniversário de São Paulo. Continue reading “Os pontos objetivos da luta”

Ocupando pontes para revogar aumentos

Em 2004 e 2005 tomamos as ruas de Florianópolis para revogar aumentos nas tarifas. Em São Paulo a história se repete e sairá igualmente vitoriosa.

Floripa, 2004
Foto: Jorge Minella

São Paulo, 2013
Foto: Daniel Guimarães
tradução do cartaz: “Temos a Copa do Mundo mas não temos transporte público”

[São Paulo] Canção para o Movimento Passe Livre

Neste momento em que a imprensa tenta manipular a luta imediata pela revogação do aumento e a luta a longo prazo por tarifa zero, sugerindo uma luta “por outro país”, ou “contra a corrupção”, escolhi publicar na minha coluna aqui no TarifaZero a “Canção para o Movimento Passe Livre”, composta por Rodolfo Valente em 2006, para lembrar o verdadeiro motivo dessa revolta tão bonita que estamos vivendo na cidade de São Paulo. Por favor escutem e espalhem esta canção. De preferência em coro, nas ruas!

Canção para o Movimento Passe Livre
Rodolfo Valente

Para baixar clique aqui.

Para ouvir:

Clique em ‘continua’ para ler a letra. Continue reading “[São Paulo] Canção para o Movimento Passe Livre”