[Floripa] A trajetória do Colégio de Aplicação no Movimento Passe Livre

Trabalho anual de geografia realizado pelas alunas Fabiane Becker Facco e Mariana D’El Rei Martins, do Colégio de Aplicação da UFSC, que retrata o envolvimento do mesmo no Movimento Passe Livre. Novembro de 2013- Florianópolis/SC

Pequenas, mas importantes, correções no conteúdo do excelente trabalho das alunas do Aplicação: a Campanha pelo Passe Livre de Florianópolis, um dos alicerces para a formação do Movimento Passe Livre, iniciou sua luta pelo passe livre estudantil em 2000, três anos antes da Revolta do Buzu de Salvador, fundamental referência para o que veio a ser o MPL, mas que não pode ser confundido como Movimento Passe Livre.

10 anos da Revolta da Catraca

por Carol Cruz

Este é um texto bem pessoal, baseado quase que completamente na memória afetiva, por isso peço antecipadamente desculpas por prováveis imprecisões. Foi também escrito às pressas, a guisa de homenagem e rememoração do aniversário de 10 anos da Revolta da Catraca de Florianópolis, SC. Não vou me aprofundar sobre o que foi este evento que marcou de modo ímpar a vida na cidade e colocou definitivamente a reivindicação de um transporte coletivo público e de qualidade na pauta política de Florianópolis, sobre tudo na de seus movimentos sociais1. Aqui eu escrevo um pouco sobre a sua importância para a formação de um grupo específico, o MPL- Floripa – uma das origens do Movimento do Passe Livre, que se encontra hoje em diversas cidades do país e que ano passado foi fundamental para recolocar o tema do transporte coletivo no debate político nacional. Continue reading “10 anos da Revolta da Catraca”

Movimentos em disputa

por Marcelo Pomar e Flora Lorena Branco Muller

Na última sexta-feira 14 de junho, o dia seguinte a uma das mais brutais repressões a que observamos por uma Polícia contra seu próprio povo, nos arredores da avenida Paulista, assistimos a um comentarista da TV Cultura, o Carlos Eduardo Novaes, construir uma reflexão muito lúcida e que mexeu particularmente com os autores deste artigo.  Ele dizia, entre outras coisas, que não se podia cobrar eventuais erros ou excessos desses jovens manifestantes, porque, ao contrário da geração dele, que quando jovem lutou contra a ditadura militar e tinha ao seu lado os mais experientes homens e mulheres de quarenta, cinquenta ou sessenta anos, os jovens de hoje estão sozinhos, porque a geração de esquerda mais velha está quase integralmente preocupada em defender projetos eleitorais, garantir cargos no estado e fazer as indispensáveis flexões táticas no discurso, isolando essa juventude.

O que ocorre no Brasil é um levante. Continue reading “Movimentos em disputa”

A catraca: uma questão estética

por Legume Lucas

Participei na semana retrasada da oitava semana de luta pelo Passe Livre. Na manifestação deste ano em lembrança ao dia nacional do passe livre, dia 26 de outubro, me dediquei apenas a uma tarefa: carregar e proteger a catraca, o símbolo do MPL. Em São Paulo temos, há alguns anos, uma catraca de ônibus comprada em um ferro velho. Como cuidador da catraca, eu, com ajuda de outros militantes, tive que: enrolá-la com jornal e gase, comprar o querosene, carregá-la durante o ato, jogar e por fogo nela. Enquanto os militantes mais novos organizavam o jogral, negociavam com a polícia, cuidavam do trajeto, panfletavam, pude fazer reflexões sobre as mudanças e incorporação de significados que este símbolo provocou dentro do coletivo e para os paulistanos que conhecem de longe ou de perto as manifestações pelo Passe Livre. Continue reading “A catraca: uma questão estética”

Por uma vida sem catracas: uma análise dos vínculos e relações entre a juventude contestadora contemporânea e a cidade

por Yuri Gama

No período entre meados de 1999 e junho de 2011, Florianópolis foi palco de diversas manifestações juvenis pelo passe livre estudantil e protestos populares contra os aumentos de tarifas do transporte coletivo, principalmente no que ficou publicamente conhecido como as Revoltas das Catracas, nos anos de 2004 e 2005. Tendo em vista a participação de uma juventude contestadora organizada nas ações coletivas e no aprofundamento e disseminação do debate sobre mobilidade urbana, através da formulação de propostas de transformações sociais, este trabalho tem como objetivo compreender as relações e vínculos que essa juventude estabelece com a cidade. Com base no material coletado, procuramos caracterizar quem são esses jovens protagonistas, analisando como eles definem e dão sentido à participação política coletiva na cidade; às concepções de cidade e cidade ideal; identificando e analisando a concepção deles de direito à cidade; e identificando as questões sócio-históricas na cidade de Florianópolis que acabaram resultando nas contínuas manifestações de contestação.

Baixe e leia o trabalho!

Revolta da Catraca 2005 (2 de junho de 2005)

Vídeo feito no 3o dia de manifestações contra o aumento nas tarifas de ônibus em floripa, 2005. As imagens, retiradas das câmeras de segurança do terminal central de ônibus, registram uma “operação pula catraca”, um ato rotineiro dos manfistantes após término dos protestos.

Para saber mais sobre as Revoltas da Catraca – jornadas de manifestações pela revogação de aumentos nas tarifas de ônibus, realizadas em 2004 e 2005 e ambas vitoriosas – clique aqui.

Revolta da Catraca 2005 (1º de junho de 2005)

Vídeo feito no 3o dia de manifestações contra o aumento nas tarifas de ônibus em floripa, 2005. As imagens, retiradas das câmeras de segurança do terminal central de ônibus, registram uma “operação pula catraca”, um ato rotineiro dos manfistantes após término dos protestos.

Para saber mais sobre as Revoltas da Catraca – jornadas de manifestações pela revogação de aumentos nas tarifas de ônibus, realizadas em 2004 e 2005 e ambas vitoriosas – clique aqui.

 

Um dia decisivo

Florianópolis é um símbolo no país na luta por um transporte coletivo de qualidade. Este ano, outra vez, os estudantes estão nas ruas. Mas o debate precisa avançar.

por Fernando Evangelista

Luiz Henrique, militante do Movimento Passe Livre, está de joelhos e braços levantados no meio da Beira-Mar Norte, a mais movimentada avenida de Florianópolis. O policial se aproxima, imobiliza o estudante no chão e acerta três socos em seu rosto. Outros policiais lançam bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral contra os dez mil manifestantes que correm para todos os lados, em meio aos carros.Luiz Henrique desmaia e fica inconsciente por vários minutos. Isso aconteceu nodia 31 de maio de 2005 e a cena está no documentário Amanhã Vai ser Maior. Continue reading “Um dia decisivo”

Carta de Convergência do Seminário de Mobilidade Urbana da Frente de Luta pelo Transporte Público

Florianópolis vive há anos uma crise de mobilidade urbana, em particular no sistema de transporte coletivo. Esta crise atinge a população de forma mais nítida nos momentos em que se elevam as tarifas, mas ela também se manifesta em outras situações. Por exemplo, no fato de o sistema de transporte ser operado hoje de forma ilegal – uma vez que os contratos das empresas que exploram o transporte coletivo estão vencidos desde 2010. Esta crise não é um “privilégio” da capital catarinense. Em todo o país, as políticas para a mobilidade priorizam o uso do transporte individual em detrimento do coletivo. Seguem a lógica do controle social e econômico: por meio da tarifa e dos horários dos ônibus define-se quem pode ou não circular pela cidade, ir aos hospitais, locais de estudo; usufruir dos bens, serviços e todos os lugares de lazer que ela oferece. Quem tem dinheiro, pode. E quem não tem? Tudo organizado sem a participação da sociedade.

Por conta disso, a Frente de Luta pelo Transporte Público organizou um Seminário de Mobilidade Urbana, realizado em abril de 2011, para discutir um novo projeto político para o transporte. As reivindicações estão centradas em três grandes eixos, que nos servirão para a construção de um novo modelo, realmente público e de qualidade, que não seja pautado pelo lucro.

1- Transporte como Direito: Continue reading “Carta de Convergência do Seminário de Mobilidade Urbana da Frente de Luta pelo Transporte Público”

Passe livre Já

por Lucas Conejero

Com imensa honra inauguro este espaço no site de CartaCapital. Meus artigos tratarão de temas ligados aos movimentos sociais e têm intuito de suscitar o debate em torno da ação direta

No começo do mês de janeiro, o preço da passagem nos coletivos da capital paulista saltou de R$2.70 para R$3, a maior tarifa do Brasil. Justificado pela prefeitura em contestável planilha de custos produzida pela São Paulo Transportes, o reajuste causou revolta e agitação no movimento estudantil paulistano. Continue reading “Passe livre Já”

Assista (e compre!) o documentário Impasse

No clima das manifestações contra o aumento nas tarifas do transporte em todo o país, (e pensando no rumo que estas lutam podem tomar rumo a uma perspectiva mais avançada da luta, pela tarifa zero e gestão pública do transporte) coloco na roda um link para download do documentário Impasse.

De autoria dos jornalistas Juliana Kroeger e Fernando Evangelista, o documentário se baseou na luta contra o aumento nas tarifas em Floripa em 2010 para abordar questões como direito à cidade, mobilidade urbana, tarifa zero. Obrigatório para quem está envolvido com essas batalhas. Ah, em breve o documentário estará disponível oficialmente para download e venda pelo site www.filmesquevoam.com.br.

Aqui está o site e a sinopse do documentário: Continue reading “Assista (e compre!) o documentário Impasse”

Condições objetivas bem maduras para um novo levante popular em Florianópolis, em 2010:

Mais uma vez o tema é o transporte coletivo.

Quando em 2004 e 2005 Florianópolis viveu um dos grandes capítulos da sua história de lutas, com os eventos que ficaram conhecidos com as Revoltas da Catraca, havia na cidade um conjunto de condições objetivas muito fortes para que as pessoas protestassem de maneira intensa contra o sistema de transporte, a ponto de produzir uma grande resistência popular que barrasse o aumento das tarifas de ônibus, por dois anos seguidos. Essas condições objetivas não se resumiam aos seguidos aumentos tarifários que, a despeito de um período de inflação controlada e moeda estável no país (1996 – 2004), chegavam à casa dos 230% de reajuste, mas também a implantação do Sistema Integrado de Transporte (SIT, 2003), que mudou muito, e para pior, a forma das pessoas se deslocarem pela cidade, aumentando bastante o tempo de deslocamento, e o fazendo sem seguir uma lógica coerente de aproveitamento do tempo, nem tampouco considerando a experiência concreta das pessoas e a participação delas no processo de elaboração desse novo sistema.

Para além desse conjunto de condições que chamei de “objetivas”, havia igualmente um conjunto de condições subjetivas, que foram determinantes para a criação de um caldo de cultura de mobilização, com um protagonismo estudantil (ou juvenil), e que estavam ligados à Campanha pelo Passe Livre, organizada na cidade desde pelo menos o ano de 2000, e que já estava enraizada em escolas, grêmios, nas universidades, enfim, nos meios de atuação do movimento estudantil. Uma campanha ampla, que embora fosse dirigida por um grupo político específico, tinha uma característica aberta, que permitiu que a reivindicação fosse tomada desde as tradicionais organizações de juventude partidárias, mas também por jovens independentes, organizados ou não.  Esse conjunto de pessoas, que tomaram as ruas para escrever a história das Revoltas da Catraca, é o que depois eu chamei de “Geração das Revoltas”.

O estopim, que ocorreu em 28 de junho de 2004, foi na realidade um empurrão que a prefeitura deu, à época Angela Amin (PP), ao anunciar um novo aumento tarifário de 16%, e que permitiu num dado momento histórico específico, a conjunção dessas duas vertentes, a “objetiva” e a “subjetiva”. E a Revolta de 2005 não foi um evento novo, original. Embora tenha ocorrido de forma diferente da de 2004, com métodos diferentes, uma forma diferente, ela era uma continuação do que ocorreu em 2004, estava inscrita no mesmo contexto histórico, e ocorreu na esteira dessa conjuntura.

Esses eventos foram extremamente vitoriosos, e não porque barraram o aumento das tarifas, simplesmente, mas principalmente porque incluíram na pauta do transporte coletivo um ator que até então estava esquecido, pouco participava desse debate, que era o usuário do transporte, ainda que representado majoritariamente pelo segmento estudantil. Além das conquistas econômicas, portanto, com a manutenção dos preços praticados, algumas conquistas estruturais foram alcançadas, como a tarifa única do transporte, ao invés da multi-tarifação praticada até então, as faixas exclusivas de ônibus, ainda que tímidas e mal-organizadas, o fechamento da Paulo Fontes, avenida que dava acesso aos terminais, e a aprovação da lei do passe-livre estudantil (outubro de 2004), ainda que não tenha vigorado. Tudo isso serviu para afrouxar os ânimos, fazer com que os anos subseqüentes fossem de relativa normalidade, mesmo com as tentativas, por parte da “geração das revoltas”, de editar os dias gloriosos das jornadas de luta de 2004/05.

Para explicar melhor essa tese eu costumo utilizar a figura de uma mola, que tem na base os usuários do transporte, suscetíveis à exploração permanente, em virtude da própria lógica de concessão privada para exploração de serviço público, utilizada na estrutura do transporte; e no topo dessa mola, empresários do setor e poder público, geralmente articulados na manutenção desse sistema. Quando a exploração chega a uma situação limite, há uma reação da população, que empurra com força a mola pra cima. Isso afrouxa o nível de opressão. Tão logo as coisas se estabilizem, a mola passa a ser comprimida novamente. Considero que passados esses cinco anos, estamos novamente próximos do limite, e organizada ou não, mais ou menos intensa, haverá uma reação a essa exploração.

Talvez a grande derrota de 2004/05 tenha sido a fragilidade do movimento em ir além das reivindicações de cunho econômico, como a questão da tarifa. Não conseguimos inscrever no nível do estado, no nível institucional, das leis, mudanças na estrutura do transporte que nos permitissem apontar para uma perspectiva diferente da mola. A discussão que vigorava no movimento estudantil à época era muito mais frágil, e fomos incapazes de avançar no debate. Coisa que foi feita, pelo menos por alguns grupos políticos organizados nos anos posteriores às Revoltas. Foi o caso do Movimento Passe Livre, com o debate da mobilidade urbana e do direito à cidade, da Tarifa Zero para toda a população (ao invés do passe-livre estudantil), a crítica ao regime de concessões privadas e o resgate dos conceitos e da experiência de municipalização, realizada no início dos anos 90, em São Paulo.

No entanto, o aprofundamento desses conceitos não se reverte em mobilização, até porque as pessoas se mobilizam por questões práticas, palpáveis, que dialoguem mais diretamente com seu cotidiano, com questões materiais como o preço das tarifas. Até por isso nunca estive tão convicto da possibilidade de um novo levante desde 2005. Novamente a mola desceu, e se não chegou ao limite, está perto dele. Com a diferença fundamental de que podemos e devemos avançar no debate, na perspectiva de inscrevê-lo em lei. Considero essa a principal responsabilidade das lideranças políticas envolvidas na condução do processo atual.

Não é uma tarefa fácil, a começar pelas próprias divergências internas no seio do movimento. Sem desejar entrar muito no mérito delas, uma dessas divergências é a polêmica (que eu considero uma “falsa polêmica”) entre os termos “estatização x municipalização”. Segmentos mais tradicionais da esquerda organizada tendem a fechar com o termo estatização para o transporte coletivo, como saída para um projeto alternativo ao atual de transporte coletivo. Bueno, tomado isoladamente, o termo pode ser correto. Na prática não há estatização do sistema em nível municipal. Seria estranho, pra dizer o mínimo, um processo político super-radical em Florianópolis, que expropriasse a frota de ônibus da nossa cidade, mas que fosse refém da Marcopolo, Caio, Busscar, da indústria de peças de reposição etc., toda vez que precisasse de novos ônibus ou insumos. Ou que, por razão da conjuntura específica da cidade, permitisse que os ônibus que circulem em Florianópolis fossem “estatais”, mas os que vão a São José fossem privados. De mais a mais, a característica estatal não é garantia de popular, ou mesmo pública. Nos Estados Unidos, por exemplo, não só o transporte público é estatal, como também a NASA, e outras instituições que nada tem a ver com o interesse público da maioria dos norte-americanos.

Mas é preciso dizer por que considero essa uma falsa polêmica. Basicamente porque não é o arrazoado de idéias acima citadas, nem os extensos textos estatizantes da Juventude Revolução, ou de qualquer outra organização tradicional, que determinarão se teremos um processo de estatização (parcial, como antes explicado) ou se inscreveremos outro sistema qualquer para a execução do transporte coletivo e do direito à mobilidade ampla e democrática na cidade. É basicamente a correlação de forças na disputa política. De forma que mesmo que no âmbito do movimento optemos pela formulação de uma “estatização” do sistema de transporte, nada disso fará sentido se não conseguirmos extrapolar os muros do próprio movimento.

Para concluir essa idéia, não creio que os defensores da municipalização sejam contra a estatização, apenas defendem a municipalização como uma precisão dos termos, baseado em experiências concretas antes vivenciadas nas lutas por transporte, principalmente se considerarmos o fato de que a estatização plena só é possível dentro de um processo político muito mais amplo. Sobre esse debate vale a pena ler os textos do André Moura Ferro, e os textos disponibilizados no site www.tarifazero.org

Finalmente, não posso averiguar com segurança qual é o nível das condições subjetivas que temos hoje no movimento estudantil de Florianópolis. Em que medida uma nova geração rebelde está se formando nas escolas, e se preparando para o bom combate. Não tenho mais qualquer vínculo com o movimento estudantil, mas tenho a impressão de que está surgindo algo novo, e a certeza de que novamente surgirão daí os protagonistas de um possível levante popular. Oxalá possamos respirar novamente os ares da Revolta! Oxalá possamos fazer mais do que nas anteriores. Grandes saltos vêm de processos como este. Infelizmente para aqueles que terão que lidar mais diretamente com a repressão, devo dividir a dura convicção de que somente amplitude radical do movimento faz com que as autoridades políticas retrocedam em nosso favor. Mas tudo vale a pena quando a História se apresenta à nossa frente. A legitimidade do movimento é evidente, está nas ruas, nos terminais, nos bairros, exatamente como em 2004.

Marcelo Nascimento Pomar, 28 anos, historiador, fundador do Movimento Passe Livre (MPL).

Amanhã vai ser maior

Amanhã Vai Ser Maior from SARCASTiCOcomBR on Vimeo.

O vídeo “Amanhã Vai Ser Maior” é um Documentário sobre as manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus e a repressão policial em Florianópolis no ano de 2005.

A produção foi desenvolvida colaborativamente por um coletivo de produtores independentes  (Vinícius Possebon, Fernando Evangelista) e a equipe do site SARCASTICOcomBR.

Confira o texto de Bianca Chiaradia publicado no Sarcástico na época da produção:

É comum durante as manifestações encontrarmos outras armas que não a dos policias. Câmeras entre os manifestantes mirando-os com a ameaça de um machucado mais dolorido, a dor do registro. Apontar uma câmera para um policial infrator é como a prova do crime estabelecido. É possível mirá-la de perto, face à face inibindo (ou não) uma ação que muitas vezes não é a correta, armas apontadas debochando da lei que rege uma distância menor ao alvo.

E o alvo corre, cai, se fere, e às vezes tem a sorte de ter algum cinegrafista corajoso por perto para mostrar a crueldade com quem são tratados os manifestantes até então pacíficos. Até então sua perna ser dilacerada por algum policial muito bem avisado de como tratar um “baderneiro”, e os baderneiros maltratados ficam nervosos, jogam pedras, picham paredes pra tentar achar alguma forma para ser ouvido. E as câmeras ligadas…

Cinco câmeras, cinco jornalistas com imagens suficientes para montar um filme de ação. Ação, mas nem tanto, com depoimentos de pais de manifestantes, confronto entre policia e estudantes, citação de declarações esdrúxulas dos representantes da sociedade e imagens com cinco pontos de vista diferentes da mesma cena, foi o que vi no documentário Amanhã vai ser Maior.

O que era pra ser um vídeo pra veicular pela Internet e evitar um desperdício de boas imagens virou um belo documentário. Nenhuma daquelas pessoas saiu com a câmera pelas manifestações com a intenção de produzir o documentário final, mas sabendo da importância do registro desses fatos, e sabendo da relevância do acontecimento, todos saíram armados para outra militância, a da informação.

O documentário é longo, tem 28 minutos de imagens feitas nos primeiros dias de manifestação, é muito bem costurado e dividido temporalmente para o espectador entender a cronologia da manifestação.

Mostra o lado do cinegrafista, do jornalista, do manifestante.

Quando cito a militância da informação, tenho que comentar o esforço físico, cenas rápidas, chicotes no movimento mostram a determinação em capturar tudo. Correr da polícia com uma câmera ligada.

Florianópolis viverá uma nova Revolta da Catraca? [*]

por Passa Palavra

Mais uma vez a prefeitura e os empresários do transporte coletivo de Florianópolis subestimaram a organização popular e resolveram aumentar ainda mais a tarifa do transporte público. Mas o que parece se esboçar na cidade é uma resistência de proporções muito maiores do que se viu nos anos posteriores a 2005.

A partir da 0h deste domingo, 09 de maio, as tarifas do transporte público de Florianópolis sofreram um novo reajuste, passando de R$ 2,80 para R$ 2,95 em dinheiro e de R$ 2,20 para R$ 2,38 no cartão. Os novos valores da tarifa social são de R$ 1,60 no cartão e R$ 1,95 em dinheiro. Mais uma vez a população é desafiada a se organizar e resistir, lutando pela revogação do aumento e por mudanças efetivas no sistema de transporte da cidade, que há anos tem sido alvo de protestos, debates e a elaboração de projetos pelos movimentos da cidade, em especial o Movimento Passe Livre.

A reação ao anúncio do aumento não poderia ter sido melhor: na quinta-feira, poucas horas depois do prefeito anunciar o reajuste, uma reunião foi convocada às pressas pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC e pelo Grêmio do Colégio Aplicação. O chamado foi atendido por dezenas de pessoas que reorganizaram a Frente de Luta pelo Transporte Público.

Já na sexta-feira, um ato com centenas de pessoas saiu pela manhã do campus da UFSC em caminhada até o centro, encontrando estudantes de escolas do centro e de outras regiões da cidade, reunindo cerca de 500 pessoas em frente ao Terminal do Centro (Ticen). De lá a manifestação partiu para a sede do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Florianópolis (Setuf), rapidamente ocupado com a reivindicação de que a planilha de custos das empresas fosse entregue à população. Nenhum dos responsáveis pelo órgão se apresentou para atender os manifestantes, que tentaram adentrar pacificamente nas salas administrativas do prédio e foram violentamente atacados por funcionários e seguranças do Setuf, que usaram de cadeiras e pedaços de ferro, além de socos e pontapés, para agredir os manifestantes. A violência dos funcionários do órgão gerou um princípio de confusão que acabou por causar pequenos ferimentos em ambos os lados.

Depois do incidente a manifestação caminhou até o prédio de atendimento da Secretaria Municipal de Transportes, mas o encontrou com as portas fechadas para a população. Os manifestantes resolveram então voltar para frente do Ticen e bloquearam por alguns minutos a entrada dos ônibus no terminal, sofrendo com a repressão da polícia, que usou armas de choque (tasers) nos manifestantes. O protesto terminou por volta das 14h em frente a prefeitura, que também estava de portas fechadas e recebeu a manifestação com a Guarda Municipal usando spray de pimenta.

No sábado, 08 de maio, mais uma grande reunião da Frente foi realizada e um calendário com diversas mobilizações para esta semana foi aprovado (veja aqui a agenda completa das mobilizações). Além de diversos atos descentralizados em todas as regiões da cidade, duas grandes manifestações ocorrerão no centro: uma na segunda (10/05) e outra na quinta (13/05), ambas com concentração às 17h em frente ao Ticen; na quarta-feira, uma grande assembléia convocatória para o grande ato de quinta será realizada a partir das 11h30, também na frente do Ticen.

O que parece se esboçar na cidade é uma resistência de proporções muito maiores do que se viu nos anos posteriores a 2005 – ano em que a cidade viveu a segunda Revolta da Catraca. A presença massiva de novos militantes, com destaque especial para os estudantes secundaristas, a disposição e revolta evidentes e a apropriação do movimento pelas diferentes pessoas e organizações que o compõem, dando voz a todos e garantindo pluralidade e autonomia nas diferentes ações, são apenas os primeiros indícios do que pode estourar nos próximos dias em Florianópolis.

As grandes assembléias de rua, inseridas num modelo de organização baseado na ação direta e no protagonismo popular, com uma estrutura horizontal que consegue ao mesmo tempo criar diversidade e unidade na ação, indicam as possibilidades de que novas formas de resistência e de organização podem ser gestadas durante o processo, ampliando a criatividade e massificando as intervenções do movimento.

Certamente, ainda é muito cedo para saber se nos próximos dias as manifestações irão ganhar corpo e uma ampla adesão popular, que ultrapasse o meio estudantil e possa criar chances efetivas de vitória. As dificuldades de superar a dispersão e fragmentação das diferentes lutas, bem como de enfrentar a dura repressão policial e a criminalização da resistência, são enormes. Mas o quadro apresentado, se ainda não nos permite sonhar alto, exige que sejamos otimistas.

A vitória desta luta depende de toda população de Florianópolis, da união prática em torno desta bandeira e da radicalidade que o movimento em gestação puder adquirir.

[*] Revolta da Catraca foi uma revolta popular vitoriosa contra aumentos nas tarifas de ônibus de Florianópolis em 2004 e 2005. Em 2004, por conta de um reajuste de 15,6% concedido pela Prefeitura e pelas empresas de ônibus, através do Conselho Municipal dos Transportes, milhares de pessoas saíram às ruas entre os dias 28 de junho e 8 de julho. Já no ano de 2005, os protestos duraram de 30 de maio à 21 de junho, quando a Prefeitura revogou aumento de 8,8%.

A radicalidade das manifestações foi fruto do desgaste do modelo de transporte perante a população, que sofria com aumentos intensos (quase 200% desde 1996) e a complexidade do novo Sistema Integrado de Transportes. A agressiva reação policial contribuiu significativamente para o acirramento da rebeldia popular, acabando por fazer com que mais e mais pessoas participassem das manifestações como forma de repudiar a violência contra os e as manifestantes.

Iniciados pela então Campanha pelo Passe Livre (futuro Movimento Passe Livre), os protestos logo foram abraçados por diversos setores da sociedade. Terminais de ônibus e principais vias da cidade foram ocupados; manifestantes abriam as portas traseiras para usuários entrarem sem pagar a tarifa ou simplesmente pulavam catracas; estudantes e associações de bairro organizavam passeatas e debates. Tudo isso num clima de democracia direta, sem o tradicional protagonismo partidário de mobilizações populares. (Retirado de: http://tarifazero.org/2009/07/22/revolta-da-catraca/)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=23324