Tarifa zero e o nonsense

Outro dia desses tropecei numa matéria com declarações do secretário de Transporte de São Paulo, Jilmar Tatto (aqui: http://viatrolebus.com.br/2015/10/tatto-fala-sobre-tarifa-zero-e-subsidio-ao-transporte-publico/). Entre os assuntos, a tarifa zero. Não estão lá as perguntas, nem muito de contexto, apenas algumas breves declarações do secretário. Melhor seria se as perguntas estivessem lá, mas é crível que estas tenham sido as falas do secretário, coerentes com outras declarações ao longo dos anos. Me parece, como sempre, que entram em cena desculpas que operam na superfície para impedir que os motivos mais profundos sejam revelados. Motivos que passam pelo bom andamento dos negócios dos parceiros e também pelo receio do significado que poderia ter na vida dos mais pobres e na vida política caso estes conquistassem o direito de realmente se deslocarem livremente nas cidades. Fala de empresa pública como fosse dele, uma empresa pública particular da vontade do próprio defensor das empresas privadas. A secretaria suportaria que a própria população determinasse as políticas de transporte universalizado? Vejam: Continue reading “Tarifa zero e o nonsense”

[Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina] Colocar de cabeça para cima a política de cobrança de impostos

patarra

Sobre esta Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina

8 de agosto de 1989 – A Prefeitura publica 200 mil exemplares da cartilha O povo está cobrando — quem tem mais, paga mais! As 14 páginas da publicação, inteiramente ilustradas e em linguagem popular, abordam o projeto de reforma tributária com o qual a administração municipal visa arrecadar recursos e promover justiça social. Diz a cartilha:

“O atual sistema de impostos municipais na cidade de São Paulo é bastante injusto. Proprietários de numerosas e grandes residências, escritórios, fábricas etc., pagam impostos sobre valores que já estão inteiramente superados. Outros guardam seus terrenos vazios e ociosos apenas para fazer especulação imobiliária. Numerosos serviços e negócios pagam impostos insignificantes. E há, ainda, os que conseguiram algum tipo de isenção para não pagar imposto nenhum. Enquanto isso, grande parte da população trabalhadora de baixa renda não tem qualquer desses privilégios e tem de pagar imposto. Continue reading “[Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina] Colocar de cabeça para cima a política de cobrança de impostos”

[Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina] Realizações dos primeiros 100 dias

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Sobre esta Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina

9 de abril de 1989 – O documento de prestação de contas dos 100 dias do governo Luiza Erundina lista realizações da nova administração. Algumas delas:

– na área da CMTC, passou-se a privilegiar a retífica de motores nas garagens da companhia. Descobriu-se que a vida útil do motor retificado por empresas particulares variava de 27 mil a 120 mil quilômetros, contra os 150 mil quilômetros obtidos nas oficinas da CMTC. Em 100 dias, a CMTC colocou nas ruas 322 ônibus que estavam recolhidos nas garagens por falta de peças e manutenção. Os chamados chiqueirinhos foram retirados dos ônibus da cidade. A CMTC comprou 7000 pneus com desconto de 40% em relação ao preço de mercado, acabando com o problema de escassez nos estoques que, no primeiro dia da atual administração, possuiam um (sic) pneu de reposição;

– ainda na área de transportes, a Prefeitura reverteu o processo de extinção da CET, iniciado por Jânio Quadros, e decidiu reavivar a empresa que há 13 anos vinha executando serviços essenciais para a cidade, no setor de engenharia de tráfego e trânsito.

[Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina] Reforma dos ônibus fora de operação

patarra

Sobre esta Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina

17 de fevereiro de 1989 – Luiza Erundina vistoria ônibus reformados nas oficinas do complexo Santa Rita da CMTC, na região central. Dos 768 ônibus da companhia que estavam fora de operação no primeiro dia de governo do PT, 272 já voltaram às ruas.  A CMTC tem 2742 coletivos em operação.

A notícia que gostaríamos de ler: “Haddad retoma o para o poder público o sistema de transporte”

Como disse Luiza Erundina em janeiro de 1989 no discurso publicado aqui ontem: “só haverá uma solução definitiva do problema dos transportes coletivos quando esse serviço for inteiramente municipalizado, e a Prefeitura, junto com o povo, puder exercer seu controle total sobre essa atividade essencial de uma grande metrópole.”

Haddad, mais controle público, não o contrário, é o que apontará para a socialização do transporte coletivo em São Paulo.

Haddad transfere para empresas 29 terminais de ônibus

A gestão Fernando Haddad (PT) se valeu de um trecho do contrato de concessão do sistema de transportes de 2003 – que nunca foi aplicado – e, sem nenhuma publicidade nem debate, repassou a gestão dos 29 terminais de ônibus da cidade às concessionárias que operam os coletivos da São Paulo Transporte (SPTrans). Os terminais estão sendo operados pelas empresas desde o mês passado. Continue reading “A notícia que gostaríamos de ler: “Haddad retoma o para o poder público o sistema de transporte””

Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina

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Seguindo as pesquisas sobre o período em que surgiu o Projeto Tarifa Zero, topei com este livro de Ivo Patarra, O Governo Luiza Erundina – Cronologia de quatro anos de administração do PT na cidade de São Paulo. Patarra foi assessor de imprensa daquela prefeitura entre 1990 e 1992 e fez uma espécie de um diário rigoroso dos acontecimentos e não-acontecimentos daquela gestão. A amplitude de pautas do livro é tão grande quanto são os conflitos desta imensa cidade e será possível ter uma razoável dimensão das forças em disputa daquele período. Fica a recomendação da leitura completa deste livro, lançado em 1996 pela Geração Editorial, assim como o livro de Paul Singer (Um governo de esquerda para todos, editora Brasiliense), cujo capítulo sobre transporte está disponível na íntegra no site.

Mas o objetivo aqui é recuperar os trechos sobre transporte coletivo (tarifa zero, municipalização, ampliação da frota e da oferta) e as disputas em torno da arrecadação municipal e a opção daquele governo em tentar inverter a radical desigualdade tributária que ganhava corpo e consequêcia nos serviços públicos, na precária garantia de direitos essenciais. Questões ainda bastante concretas na nossa democracia parcial e desigual, atravessada pelos interesses de mercado que pairam acima do bem estar físico e psíquico de uma população impedida de desenvolver sua plena potência pelo desgaste de tempo necessário para uma não-vida de puro trabalho sem proteção e sem futuro. Continue reading “Cronologia das políticas de transporte no governo Erundina”

Ilha Parelheiros

materiaparelheiros(foto: Vereda Estreita)

Evidenciada em abril deste ano, com interrupção de aula de Haddad, luta por transporte público no Extremo Sul de São Paulo persiste

por Mariana Gonçalves

Faz quatro meses desde que militantes do coletivo Luta do Transporte no Extremo Sul decidiram bater de frente, pela primeira vez, com o prefeito Fernando Haddad, ex-professor na pós-graduação em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). O protesto fora marcado para acontecer na própria universidade, onde, no dia – era 27 de abril –,  Haddad ministraria aula sobre “direito à cidade”. Cerca de quarenta pessoas, residentes da região de Parelheiros – sobretudo dos bairros de Marsilac, Barragem, Jusa e Bosque do Sol –, ocuparam a sala de aula e levantaram cartaz com os dizeres: “Haddad, como é que pode? Nosso bairro não tem transporte”. Apesar do desconforto do professor e de estudantes, o coletivo, que reivindicava a implantação de três linhas de ônibus de caráter rural, atingiu seu objetivo: dada a pressão, Haddad assinou documento em que se comprometia a comparecer à reunião onde se discutiriam as possibilidades de implantá-las. Continue reading “Ilha Parelheiros”

Um edital que interessa a todos os paulistanos

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Por Márcia Gregori*

No dia 8 de julho, foi aberto para consulta pública, pelo prazo de um mês, o edital de licitação dos contratos de ônibus de São Paulo. O prazo foi estendido por mais três semanas – até 31 de agosto – por pressão de várias entidades e grupos, entre os quais a Rede Nossa São Paulo, o Greenpeace e o GT Mobilidade Urbana da Rede Butantã. No entanto, ofuscado pela inócua discussão sobre a velocidade nas marginais, o edital não está sendo discutido com a profundidade e a dedicação que o tema exige e merece.

O documento é bastante complexo, com milhares de páginas divididas em vários anexos diferentes, redigidos numa linguagem altamente técnica e difícil para o cidadão comum se aprofundar, sobretudo em tão pouco tempo. Apesar dessas dificuldades, alguns grupos e pessoas têm se dedicado a ler e discutir o material. Afinal, trata-se do principal meio de transporte na cidade de São Paulo e da principal forma de locomoção de milhões de pessoas. É fundamental, portanto, que os novos contratos valorizem e priorizem, antes de qualquer outro aspecto, o usuário do sistema. Continue reading “Um edital que interessa a todos os paulistanos”

Aula pública no Anhangabaú: Tarifa Zero já!

por Movimento Passe Livre São Paulo

Um dia antes de entrar em vigor a nova tarifa de R$3,50, decretada por Haddad e Alckmin, centenas de pessoas se reuniram para participar de uma aula pública sobre transportes no centro da cidade. O evento, marcado para em frente à Prefeitura, mudou para debaixo do Viaduto do Chá devido à chuva.

Esteve presente Lúcio Gregori, engenheiro que foi Secretário de Transportes de São Paulo no início dos anos 1990 e trabalhou, na época, na elaboração de um projeto de Tarifa Zero e municipalização dos ônibus da capital. A Tarifa Zero se mostrou perfeitamente viável do ponto de vista técnico e econômico, mas não foi implementada por falta de vontade político. Continue reading “Aula pública no Anhangabaú: Tarifa Zero já!”

Por que o valor das tarifas de transporte subiu em São Paulo?

por Pablo Ortellado

A pergunta é menos estranha do que parece. Para além das questões contábeis e do ônus crescente do subsídio ao tesouro do município e do Estado, o aumento das passagens contraria uma demanda popular expressa em junho de 2013 e deveria representar um grande risco político. Se é assim, por que a tarifa foi aumentada?

O principal motivo parece ser o entendimento, muito difundido na imprensa e no meio acadêmico, de que os protestos de junho de 2013 não foram fundamentalmente contra o aumento das passagens – para usar uma expressão da época, “não foi por 20 centavos”. Essa interpretação me parece contrária a uma série de evidências que filiam os protestos de junho de 2013 às revoltas de transporte que vêm acontecendo em todo o país pelo menos desde 2003. Continue reading “Por que o valor das tarifas de transporte subiu em São Paulo?”

O que a Tarifa Zero, os bancos e as concessionárias de automóveis poderiam ter em comum mas ainda não têm

Por Graziela Kunsch
Colaborou Daniel Guimarães

versão PDF

Escrevo este texto a partir da experiência da manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre no dia 19 de junho de 2014 em São Paulo e a sua repercussão na imprensa. Esclareço desde já que o texto é assinado por mim individualmente e que não falo em nome de ninguém. Busco apenas contribuir como pessoa que estava presente no ato e que ainda se choca com as distorções desleais feitas por alguns jornalistas dos veículos de imprensa hegemônicos, que estavam igualmente presentes. Farei uma reflexão sobre o que o ataque a agências bancárias e concessionárias de automóveis poderia ter a ver com a luta pela gratuidade no transporte, mas que no ato do dia 19 não teve; além de uma crítica à criminalização dos movimentos sociais. Escolhi me posicionar diante do que considero uma tática equivocada para o nosso momento atual, mas tenho a clareza de que a verdadeira violência é promovida pelo Estado, tanto pela sua polícia como pelas suas políticas públicas distorcidas, que servem mais a interesses privados.

Continue reading “O que a Tarifa Zero, os bancos e as concessionárias de automóveis poderiam ter em comum mas ainda não têm”

[São Paulo] Túnel Av. Paulista – Dr. Arnaldo: vídeo do ato por Tarifa Zero de 19/6

clique aqui se preferir ver diretamente no Vimeo, em janela maior

Comemorando um ano da revogação do aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus, trem e metrô na cidade de São Paulo, o Movimento Passe Livre realizou um ato por TARIFA ZERO e pela readmissão de 42 metroviários, demitidos por terem feito greve parcial. O ato aconteceu durante um dos jogos da Copa do Mundo mas, no lugar do mote “Não vai ter copa”, o movimento propôs a frase “Não vai ter tarifa”. Este pequeno vídeo mostra um dos momentos da manifestação.

Não vai ter tarifa! Panfleto do MPL São Paulo para o ato de hoje, dia 19

Há exatamente um ano saímos às ruas para dizer não ao aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem que a prefeitura, o governo do estado e as empresas queriam nos enfiar goela abaixo. Ocupamos as ruas para que a nossa voz fosse escutada: 20 centavos, não!, porque cada centavo a mais no preço das passagens aumenta a exclusão, impede mais pessoas de utilizar o transporte por falta de dinheiro e, por isso, faz com que não tenham seu direito à cidade garantido.

E vencemos! O povo conseguiu quebrar o cotidiano de derrotas que nos aflige nesta vida em que decidimos tão pouco. Fomos milhares, centenas de milhares! Os vinte centavos desapareceram e, no lugar deles, ficou o sentimento de que organizados coletivamente podemos mudar nossas vidas, podemos transformar radicalmente nossa cidade. Agora só faltam três reais, e pra isso construiremos mais histórias com muita luta e também muita festa. Continue reading “Não vai ter tarifa! Panfleto do MPL São Paulo para o ato de hoje, dia 19”

Violência e imaginação – Quando o cotidiano desce do ônibus

por Luiza Mandetta e Leonardo Cordeiro

Entre as bombas e as barricadas de junho, outro momento pulsa, velado. O que os instantes capturados das ruas pelas câmeras carregam, mas não mostram, é o suor derramado em tantos   ônibus, em tantos trens, por tantas horas, todos os dias. O sangue que jorrou era o mesmo que sempre correu – silencioso embora ardente – nas veias e artérias da cidade-máquina.

Derrame? Coágulo? O distúrbio congênito que vinha se agravando afinal interrompeu o fluxo. Não eram mais os ônibus, as motos, os automóveis que tomavam as ruas. Eram as pessoas. A pé. E forçavam as outras a descer para o asfalto. O burburinho do interior dos vagões cresceu e invadiu as ruas. Se os trens não aparecem nas fotos, o dia a dia de empurrões, aperto, espera e humilhação, e também de sonho, devaneio, conversa e riso, certamente ecoa em cada uma delas.

Pulsavam nas ruas, dilatadas, distendidas, a violência e a imaginação do momento do transporte. Momento que é lugar. Continue reading “Violência e imaginação – Quando o cotidiano desce do ônibus”